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94% das mortes por câncer infantil são em países pobres – 02/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em 2023, 94% das mortes por câncer infantil ocorreram em países de baixa e média renda. Os dados são de análise publicada nesta quinta (2) na revista médica The Lancet. No total, foram registrados cerca de 377 mil novos casos de câncer em pessoas de até 19 anos e aproximadamente 144 mil mortes no ano.

O estudo revela ainda que países de alta renda apresentam as maiores taxas de incidência por habitante —ou seja, proporcionalmente mais casos diagnosticados—, mas as menores taxas de mortalidade. Em volume absoluto, porém, os países de baixa e média renda concentram 85% dos novos casos e 94% das mortes, reflexo de populações muito maiores e sistemas de detecção mais precários.

O estudo integra o GBD (Global Burden of Disease), sistema global de monitoramento de doenças mantido pela Universidade de Washington, e cobre o período entre 1990 e 2023. A pesquisa usa a classificação do Banco Mundial, que agrupa em “baixa e média renda” países de quatro faixas de desenvolvimento. O Brasil é classificado como nação de renda média-alta, por exemplo.

Globalmente, as mortes por câncer infantil caíram 27% no período, de 197 mil para 144 mil. O movimento contrário foi registrado na região africana da OMS (Organização Mundial de Saúde), que agrupa 47 países da África subsaariana, excluindo o norte do continente: os óbitos subiram 55,6%, de 31,5 mil para 49 mil.

O Oriente Médio também concentra altas taxas de mortalidade —a região do Mediterrâneo Oriental registrou 21,9 mil mortes e taxa de 6,7 por 100 mil em 2023, a segunda maior entre todas as regiões analisadas.

Nas Américas, foram 14,3 mil mortes, com taxa de 4,9 por 100 mil —acima da Europa (3,7) e próxima à média global. O artigo não desagrega América Latina e Brasil dos demais países da região, que inclui Estados Unidos e Canadá.

O GBD estima a carga de doenças combinando dados de registros populacionais, sistemas de registro civil e autópsias verbais. Para países sem dados diretos de mortalidade, usa modelos estatísticos que transformam dados de incidência em estimativas de mortalidade.

A sobrevida em cinco anos ultrapassa 80% em países de alta renda, enquanto em alguns países de baixa renda não chega a 20%, aponta o artigo. Os pesquisadores identificam três barreiras principais: diagnóstico tardio, falta de acesso a tratamentos e ausência de cuidados de suporte.

O diagnóstico tardio é agravado pela escassez de registros de câncer e sistemas de vigilância em países de baixa renda. O acesso a tratamentos é limitado pela falta de infraestrutura e pela ausência de protocolos adaptados à realidade local. Já os cuidados de suporte —como controle da dor, suporte nutricional e acompanhamento psicológico— são frequentemente inexistentes nesses contextos, segundo os pesquisadores.

Segundo Clarissa Baldotto, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), o avanço científico, sozinho, não garante acesso às terapias.

“Para que os avanços cheguem é preciso financiamento e uma rede organizada: suspeição precoce na atenção básica, confirmação diagnóstica rápida, patologia de qualidade, imagem, cirurgia pediátrica especializada, quimioterapia, radioterapia, suporte clínico, reabilitação e seguimento de longo prazo. Em tumores infantis, por serem menos comuns, essa rede especializada é ainda mais crítica. A desigualdade aparece mais.”

Os avanços das últimas décadas ficaram concentrados nos países mais ricos, conforme os autores, e os efeitos da GICC (Iniciativa Global para o Câncer Infantil), lançada pela OMS apenas em 2018, ainda levarão anos para aparecer nos dados.

A iniciativa voltada para melhorar as chances de cura de crianças em países de baixa e média renda estabelece a meta de alcançar pelo menos 60% de sobrevida global até 2030, reconhecimento de que o acesso ao tratamento segue profundamente desigual, acrescenta Baldotto. O Brasil ocupa uma posição intermediária nesse cenário, afirma, com perfil epidemiológico similar ao dos países desenvolvidos, mas convive com desigualdades regionais e atrasos no diagnóstico.

“O tratamento no SUS (Sistema Único de Saúde) está disponível, e eu diria que alguns centros públicos têm melhor preparo para tratar câncer infantil com superioridade técnica quando comparado a muitos centros privados. O grande desafio brasileiro não é a inexistência de tratamento, e sim a heterogeneidade do acesso. E claro, também há dificuldades de financiamento”, diz.

No mundo, a doença foi a oitava causa de morte entre crianças e adolescentes —grupo que a OMS define como pessoas de até 19 anos— e a nona causa de carga entre todos os cânceres em 2023. Em países de alta renda, ocupa o terceiro lugar entre causas de morte infantil; nos países de baixa renda, cai para a 13ª posição, reflexo da magnitude de outras causas evitáveis, como doenças infecciosas e desnutrição.

Ainda, a perda precoce de vida por câncer infantil foi inversamente proporcional ao nível socioeconômico dos países: quanto menor o IDI (Índice Sócio-Demográfico, medida usada pelo GBD para classificar o desenvolvimento dos países), maior a mortalidade prematura.

Cânceres com maior potencial de cura quando tratados adequadamente, como leucemia linfoblástica aguda, tumores cerebrais, linfoma de Hodgkin, retinoblastoma, câncer renal e linfoma de Burkitt responderam por 47,3% das mortes por câncer infantil em 2023. A leucemia linfoblástica aguda foi responsável pelo maior número de óbitos entre esses tipos (32,2 mil), seguida por tumores cerebrais e do sistema nervoso central (23,2 mil).

Os países com maior mortalidade são também os com menos dados disponíveis, o que implica maior incerteza nas estimativas, reconhecem os pesquisadores. O estudo não capturou os efeitos da pandemia de Covid sobre o diagnóstico e o tratamento do câncer infantil, em razão de atrasos na disponibilidade dos dados.

O GBD também não estima separadamente os gliomas de baixo grau —tipo de tumor cerebral incluído nas metas da GICC—, o que pode ter superestimado a mortalidade associada aos cânceres-alvo da iniciativa.

A análise foi conduzida por pesquisadores do IHME (Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde, da Universidade de Washington) e do St. Jude Children’s Research Hospital, com financiamento da Gates Foundation e da St. Baldrick’s Foundation.

Autor: Folha

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