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Filha de João Gilberto decepciona em festival de música – 03/12/2025 – Música em Letras

O festival A Bossa! – De João e do Rio, que teve início na última sexta-feira (28) e terminou no último domingo (30), em Juazeiro (BA), cidade natal do ícone da bossa nova João Gilberto (1931-2019), teve altos e baixos. Era de se esperar, pois a primeira edição de um grande festival sempre serve como experiência para que as próximas edições sejam melhoradas em alguns quesitos.

Entre os “altos”, pode-se citar a apresentação de Roberto Menescal, 88, o Menesca, que levou ao palco o cantor Theo Bial e uma banda muito bem afinada com os dois talentosos músicos. Menesca apresentou Theo, filho do jornalista Pedro Bial e da atriz Giulia Gam, como seu novo parceiro.

Compositor de “O Barquinho” em parceria com Ronaldo Boscôli (1928-1994), Menesca disse ao público que ele e Theo Bial viajarão muito juntos, levando a bossa nova pelo mundo afora: “Vamos juntos pro Japão”. Menesca canta e toca guitarra com tanta naturalidade, solando e encadeando seus belos acordes, que fica difícil não alimentar a alma com a atuação do artista e de seu mais novo parceiro. Foi deles um dos shows mais “bossa nova” do festival.

Outro ponto alto da programação do festival foi o talk show apresentado pelo produtor musical santista Armando Pittigliani, 90, e pelo maestro petropolitano Flávio Mendes, 54, um espetáculo que deveria circular pelo planeta dada a relevância dos fatos e a maneira como são apresentados.

Segundo Ruy Castro, colunista da Folha, 50% dos discos da bossa nova passaram pelas mãos e pelos apurados ouvidos de Pittigliani. Munido de um par de baquetas presentadas por Eric Singer, baterista da banda de hard rock Kiss, Pittigliani, que completará 91 no próximo dia 26 de dezembro, cadenciou na pele e no aro de um tamborim, revezando com um chocalho, vários sucessos da bossa nova, enquanto Mendes tocava e cantava ao violão, mostrando que não foi à toa que atacou por 18 anos ao lado de Bibi Ferreira (1922-2019), entre outros artistas.

Didatismo aliado ao entretenimento, com o suingue de quem é do ramo, fez com que Pittigliani e Mendes matassem várias cobras e, no bom sentido do manjado ditado, mostrassem o pau. Da plateia, Menescal confirmou, sem desmentir uma frase sequer, o que foi dito e tocado pelos dois.

Outro “alto” do festival foi a apresentação do cantor, instrumentista e compositor soteropolitano Alexandre Leão, que levou ao palco uma banda capaz de levantar defunto. Impossível resistir ao suingue “arretado” do som do grupo, e ao bom gosto dos belos e inusitados solos do trompetista alagoano Joatan Nascimento, que há muito mora em Salvador, onde é professor de orquestra, assistente do naipe de trompetes da Orquestra Sinfônica da Bahia e professor do Curso de Música Popular da Universidade Federal da Bahia, instituição na qual se graduou e pós-graduou.

Através de sua performance, Joatan Nascimento deixou claro deter muito conhecimento teórico e prático alinhavados por um som forte, robusto, com um fraseado limpo e de excelente bom gosto. Em determinado momento do show, Alexandre Leão convidou o sanfoneiro Targino Gondim para dar uma canja no palco tocando e cantando um de seus sucessos, “Esperando na Janela”, em parceria com Manuca Almeida e Raimundinho do Acordeon. Arrebatador.

Outras altas performances do festival podem ser facilmente apontadas nas apresentações de Lenine, Daniel Jobim, Quinteto Sanfônico, Mônica Sangalo, Roberta Sá e Vanessa da Mata, que fizeram shows memoráveis. No intuito de evitar a redundância não discorrerei sobre essas apresentações realizadas com extremo profissionalismo e respeito à música e ao público. Irretocáveis.

Dos “baixos” do festival destaca-se, primeiramente, a atuação de Marcos Bastos, que, municiado de um microfone, apresentou o evento na segunda e na terceira noite aos berros. Corre à boca miúda que sua “zoada” pôde ser ouvida até em Formosa de Rio Preto, município baiano no extremo oeste, distante mais de 700 quilômetros de Juazeiro. Insuportável, tal “baixo” deveria receber um “auto”, mas de apreensão do bem, ou melhor, do microfone por mau uso.

Ainda entre as “baixos” do evento, infelizmente, registre-se o show de Luísa Carolina, a Lulu, filha mais nova de João Gilberto (1931-2019). A moça se apresentou com Matheus Frugoli (violão), e Zezinho Farias (bateria). Sua sorte foi que, por conta da final da Libertadores com o jogo entre Palmeiras e Flamengo, um público mirrado compareceu a sua apresentação. Mostrando bastante inexperiência na arte de amealhar os sons, a moça atravessou, entrou onde não devia, deixou de entrar onde devia, desafinou e errou o tom. Enfim, desperdiçou a chance de amadurecer musicalmente antes de se expor.

O que me fez lembrar do violonista, arranjador, produtor musical, contrabaixista, compositor, regente, professor de música e flautista Edson José Alves (1951-2020), dono de todos esses substantivos, além do adjetivo engraçado.

Uma ocasião, no final dos anos 1980, em São Paulo, Edson Alves foi “intimado” a assistir ao concorridíssimo show de um renomado guitarrista norte-americano, tido como uma sumidade no instrumento. “Bicho, há meses tá todo mundo me falando que esse cara toca muito, improvisa, divide, suinga, harmoniza e tudo mais, e que eu não poderia de jeito nenhum perder esse show. Fui assistir…mas ele é só norte-americano!”, contou o músico para este repórter.

Por enquanto, a filha mais nova de João Gilberto, a cantora Luísa Carolina, é só filha de João Gilberto.

O jornalista viajou a convite da organização do festival

Autor: Folha

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