É impressionante como misturo sentimentos na minha cabeça. Posso estar superocupada, fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas minha mente fica grudada em questões aleatórias. Acho que essa era a minha capacidade de equilibrar os pratos enquanto bebia. Fazia mil coisas, achando que estava dando conta de tudo, mas, no fundo, não fazia nada. Ou melhor, fazia tudo para não precisar olhar para o que acontecia dentro de mim.
Tudo ficava tranquilo quando eu bebia. O álcool tinha uma função muito clara: calava aquilo que eu não conseguia calar sozinha. Depois de algumas doses, as coisas pareciam menos importantes. Os problemas continuavam ali, mas eu conseguia olhar para eles sem sentir aquele peso todo. Era como se alguém diminuísse o volume da minha cabeça, das vozes que se superpunham. (Não, não ouvia vozes, estou usando uma metáfora.)
E talvez tenha sido aí que começou a confusão. Eu passei a acreditar que beber me ajudava. Que eu precisava da bebida para relaxar, para socializar, para dormir, para trabalhar depois de um dia difícil, para comemorar, para esquecer. Sempre existia uma razão, ainda que imaginária.
Mas a tranquilidade durava pouco. E, quando passava, tudo voltava, às vezes pior. A ansiedade, a culpa, a vergonha, as coisas que eu tinha falado ou feito. Eu bebia para me sentir bem e depois precisava lidar com a pessoa que eu tinha sido enquanto bebia. Era um ciclo que eu demorava a enxergar porque, de alguma maneira, eu ainda conseguia funcionar. Trabalhava, resolvia problemas, encontrava pessoas, fazia planos. Por fora, parecia que estava tudo no lugar.
Por dentro, não estava.
Acho que essa é uma das coisas mais difíceis de admitir. Eu era boa em equilibrar os pratos. Só não percebia que estava usando toda a minha energia para impedir que eles caíssem. E, enquanto eu me preocupava em parecer bem, ninguém precisava saber o tamanho da bagunça que existia dentro da minha cabeça. Talvez nem eu quisesse saber.
Hoje, quando penso nisso, entendo que não era exatamente a bebida que eu queria. Eu queria o que ela provocava em mim. Queria o silêncio. Queria não pensar. Queria não sentir tudo ao mesmo tempo. Queria descansar de mim mesma por algumas horas.
Só que não existe descanso quando a única forma de parar é se anestesiar.
E talvez seja isso que eu esteja tentando aprender agora. Não é simplesmente parar de beber. É aprender a ficar comigo mesma quando a minha cabeça começa a fazer barulho. É aprender que nem todo pensamento precisa de uma resposta imediata. Que nem todo sentimento precisa ser resolvido. Que posso estar triste sem precisar fugir da tristeza, ansiosa sem precisar apagar a ansiedade, sozinha sem precisar preencher o vazio imediatamente.
Ainda é difícil. Tem dias em que parece que estou carregando todos os pratos ao mesmo tempo e que qualquer movimento errado vai desequilibrar tudo e eles vão se espatifar no chão. Mas talvez eu esteja começando a entender que não preciso mais fazer esse malabarismo, muito menos fingir que está tudo bem.
Talvez a recuperação seja justamente isso: parar de tentar parecer que dou conta de tudo e começar, aos poucos, a descobrir o que existe quando não estou tentando escapar de mim mesma.
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Autor: Folha








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