Richardson (EUA)
| The New York Times
O som surgiu do nada.
Começou como um zumbido agudo e inquietante, semelhante ao de um mosquito voando por um quarto escuro na hora de dormir, e foi ficando mais alto à medida que se aproximava. Uma família que relaxava na piscina do quintal em Richardson, no Texas, pouco ao norte de Dallas, não pôde deixar de notá-lo.
“Lá vem outro nesta direção!”, gritou Eric Anderson de sua boia, apontando para uma área acima de uma alta fileira de árvores. Sua filha Isla, de 9 anos, tirou os óculos de natação para enxergar melhor o que poderia ser uma cena de ficção científica.
Em um minuto, um drone de cerca de 37 quilos, com seis braços azuis e hélices zunindo, surgiu em um canto do céu e cruzou em alta velocidade sobre as casas vizinhas, parecendo uma mistura de libélula mecânica com um caça X-wing e zumbindo como um batalhão de abelhas.
A missão do drone: entregar um pacote da Amazon.
A carga, uma única caixa de papelão, pesava no máximo 2,3 quilos e foi colocada no drone no centro de distribuição da Amazon, a menos de dois quilômetros da piscina do quintal. Seu destino poderia ser qualquer lugar dentro de um raio de 12 quilômetros do ponto de decolagem.
Em dezembro, autoridades municipais de Richardson concederam à Amazon a aprovação de zoneamento necessária para iniciar o serviço de entregas por drones, como parte do incipiente programa Prime Air da empresa.
O serviço promete entregar aos clientes dezenas de milhares de itens —cortadores de unhas para animais de estimação, tornozeleiras, lâminas artesanais com ponta afiada para fazer cortes em pães de fermentação natural— em apenas 30 minutos. A entrega pode ser gratuita ou custar até US$ 4,99.
A FAA (Administração Federal de Aviação), que controla o espaço aéreo dos Estados Unidos, autorizou a Amazon a operar seus drones.
Agora, muitas outras regiões dos EUA podem esperar suas próprias entregas por drones —uma comodidade bem-vinda para alguns, mas uma invasão para outros.
No mês passado, a Amazon anunciou que as entregas do Prime Air seriam ampliadas para 500 municípios até o fim do ano. Outras empresas também estão usando drones para entregas. A FAA prevê que, até 2030, esse número poderá disparar para mais de 3,5 milhões, ante os atuais 897 mil drones registrados.
“O que está acontecendo em Richardson está prestes a acontecer em todo o país, e as pessoas finalmente vão acreditar em nós quando dizemos que ter todos esses drones voando por aí é, de fato, um problema muito, muito grave”, disse Scott Bratcher, presidente da associação de moradores de um bairro de Richardson que os residentes apelidaram de corredor de drones.
Ele acrescentou: “O governo e a FAA nos abandonaram”.
A agência afirmou que em breve publicará novas regras para voos de drones. Mas, em julho, após estudar o impacto ambiental de drones comerciais de entrega como os da Amazon, concluiu que eles não causavam um “impacto significativo”.
Para algumas pessoas, a novidade futurista tem sido motivo de comemoração. Elas compartilham vídeos das entregas na internet, comemorando enquanto seus pacotes são largados, quicam e às vezes deslizam pelos jardins e entradas de garagem.
Lindsay Hamilton, porta-voz da Amazon, disse que a reação dos clientes às entregas tem sido “extremamente positiva” e que, “até agora neste ano, menos de 1%” dos contatos relacionados ao programa foram motivados por ruído.
Ela comparou o barulho do drone ao de um ventilador de janela na velocidade mínima e afirmou que, durante a entrega, ele é mais silencioso do que um carro passando.
Mas, nos bairros de Richardson próximos ao centro de distribuição da Amazon, qualquer entusiasmo com a inovação tem sido abafado pelo som de dezenas de drones —se não mais de uma centena— sobrevoando a região todos os dias, às vezes tão barulhentos que parecem cortadores de grama voadores.
Outras empresas, entre elas o Walmart, também usam drones de entrega na região, embora de tipos diferentes.
Pelas normas municipais, as entregas podem ser realizadas das 7h às 20h, e a Amazon garantiu aos moradores que, na ida, os drones voariam a uma altitude média de 225 pés (68,58 metros). Segundo a FAA, a altitude máxima permitida é de 400 pés (121,92 metros).
Para quem mora mais perto das rotas de voo da Amazon, o zumbido incessante das entregas representa a ameaça mais séria à privacidade e à tranquilidade.
“Nós os ouvimos zunindo, zunindo, zunindo, indo e voltando desde a manhã até depois do jantar”, contou Nikki Anderson, cuja família, reunida em grande número, avistou o drone —e muitos outros— em uma sexta-feira deste mês. Há muito tempo ela valoriza a serenidade do quintal, com sua piscina de contornos ondulados e o canto dos pássaros em meio ao paisagismo, que inclui um arbusto podado no formato de um coração gigante.
Agora, disse Anderson, os drones acabaram com isso. Ela consegue ouvi-los de dentro de casa, mesmo com a televisão ligada, sobretudo nos fins de semana, quando o número de entregas parece aumentar.
Durante a entrega, os drones da Amazon descem até cerca de 13 pés (3,96 metros) do chão e pairam enquanto o pacote despenca por uma abertura e cai na propriedade do cliente —muitas vezes com a mesma delicadeza de um segurança expulsando um arruaceiro de um bar.
Um vídeo publicado na internet mostra um drone da Amazon deixando cair um pacote dentro de uma piscina. Outro registrou um deles se chocando contra um prédio de apartamentos e caindo perto de uma calçada. Um vídeo recente mostrou um drone parado no canteiro central gramado de uma avenida em Baton Rouge, na Louisiana, como um filhote perdido.
A Amazon afirmou que seu programa está sempre sendo aprimorado e a porta-voz reiterou que a empresa havia ajustado suas operações com base nas opiniões dos moradores.
Kristi Graham, administradora de uma empresa de educação musical, foi uma das moradoras que reclamaram à Amazon, incomodada com os drones sobrevoando seu quintal, onde sua família nada e faz churrascos.

Amazon Prime Air, drone usado em entregas, é exibido em feira no Reino Unido
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Toby Shepheard/REUTERS
Após a reclamação, contou ela, a Amazon de fato alterou a rota: para a frente de sua casa.
Agora, ela integra um grupo de moradores que enfrenta a empresa, mas o apelo da entrega rápida continua forte. Em maio do ano passado, a filha de Graham pediu uma bandeja de presunto fatiado no Walmart usando um cupom para entrega por drone. Ela estava com pressa para fazer um sanduíche.
Graham só tinha uma coisa a dizer: “Como você pôde?”.
Ela e alguns vizinhos, entre eles Anderson, agora enviam emails a autoridades de outras cidades, incluindo El Paso, no Texas, e Richmond, na Virgínia, onde os drones da Amazon estão prestes a chegar. Não confiem nas alegações da Amazon, dizem eles.
“(Os drones) têm sido um desastre para a cidade de Richardson”, afirmam os moradores. Graham e outros também estão preocupados com a segurança.
Segundo Hamilton, da Amazon, os drones da empresa usam várias câmeras e sensores para navegação. As imagens são armazenadas em unidades criptografadas, às quais somente funcionários autorizados podem ter acesso posteriormente, disse ela, acrescentando que os dados são usados exclusivamente para melhorar a segurança e o atendimento ao cliente.
Brian Rowe, executivo dos setores de tecnologia e segurança cibernética, tem comparecido às reuniões da Câmara Municipal para reclamar. Ele já cogitou vários métodos para eliminar os drones que sobrevoam sua casa e chegou a pesquisar tecnologias comerciais antidrones. Mas essas tecnologias, destinadas principalmente ao uso militar, custam dezenas de milhares de dólares, disse ele.
“O que podemos fazer?”, perguntou Rowe.
Ele percebe que outros problemas se aproximam. Há quase duas semanas, uma empresa começou a testar táxis aéreos na região de Dallas-Fort Worth.
Eles se parecem com os drones da Amazon, mas são muito, muito maiores.
Autor: Folha









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