“O Bayern de Munique é o líder no futebol alemão. Fez sucesso na Champions League quando o RB Leipzig não tinha nem sido fundado. Mas há clubes que querem desafiá-lo, diminuir a distância que existe, torná-la cada vez menor. Somos um desses clubes. Em algum momento, quando ele render menos e nós mais, temos chance de ultrapassá-lo.”
Diretor da área de negócios do RasenBallsport Leipzig, Johann Plenge sabe o tamanho do Bayern, maior vencedor da Bundesliga (33 títulos, tenho ganhado 12 dos últimos 13 Campeonatos Alemães) e seis vezes campeão da Champions League, a Liga dos Campeões da Europa.
Sabe também, como expôs a jornalistas brasileiros em entrevista da qual a Folha participou pouco antes do Natal na sede do RB na cidade do leste alemão, que a comparação torna-se imprópria devido ao tempo de existência de cada time. O Bayern foi fundado em 1900, tem 125 anos. O RB, de 2009, é ainda um adolescente.
O que não impede ter a meta, com o devido planejamento para cumpri-la, de ir ao encalço do gigante para tentar derrubá-lo. Uma das formas, conforme a reportagem pôde constatar ao visitar as instalações do RB –atual terceiro colocado na Bundesliga, 15 pontos atrás do Bayern, que lidera–, é o emprego de tecnologia avançada e específica.
Uma das ferramentas, chamada SoccerBot, busca dar aos atletas microvantagens competitivas. Trata-se de um ambiente imersivo 360 graus, em uma sala circular com área de 90 metros quadrados, na qual as paredes têm painéis que projetam, eletronicamente, figuras.
Na atividade, o jogador deve chutar a bola contra a parede no exato local em que aparece a imagem do gol. O objetivo é, em determinado intervalo de tempo (por exemplo, 30 segundos), chutar o máximo de vezes e fazer o maior número possível de gols.
Em uma primeira impressão, parece brincadeira para criança. Aparenta ser fácil, mas não é. Testa-se, das categorias de base ao profissional, a cognição, e o praticante deve unir velocidade, raciocínio rápido e precisão. O programa dificulta ao reduzir o tamanho do gol, o que exige pontaria ainda mais afiada.
“Dentro de 30 segundos, temos 20 controles de bola”, afirma Tom Stuckey, treinador das categorias de base do RB Leipzig. “Tem sempre que virar a cabeça, ver onde está o novo objetivo, o próximo objetivo. Temos bastante desenvolvimento técnico aqui.”
Em resumo: além de praticar a técnica (o domínio da bola, seguidamente, é essencial), o atleta é estimulado a tomar a melhor decisão no menor tempo possível. É o aperfeiçoamento micro, no detalhe cognitivo, no acerto pela repetição. O ajuste fino.
No futebol de alta performance, em uma partida de campeonato de primeira linha, o pensamento mais célere pode fazer a diferença entre o acerto ou o erro em uma jogada, quiçá decisiva.
“Toda semana marcamos [sessão no SoccerBot] para ficar de 15 a 20 minutos ali. Ajuda a ativar o cérebro, fica mais fácil para fazer no jogo. Parece simples, mas é meio complicado: tomar decisão rápida, dar passe com precisão”, diz o atacante brasileiro Rômulo, 23. “Comecei mal [na pontuação], estou melhorando.”
Quanto mais gols se faz, mais pontos se acumulam, e o acerto na imagem menor, com nível maior de dificuldade, vale o dobro.
“Os pequenos detalhes aqui fazem a diferença no alto nível”, acrescenta o camisa 40, que está em seu primeiro ano de contrato e tem sido titular do RB Leipzig. “Tem umas máquinas que não cheguei a ver no Brasil.”
Uma delas é justamente o SoccerBot. Outra é o TrackMan, usada, diferentemente da primeira, no campo de treinamento.
Ela é feita para o treino de cobranças de faltas, com o obstáculo de uma barreira móvel. Há um sensor (uma caixa de cor laranja) atrás do gol que registra o resultado do chute do jogador: força, velocidade, angulação. A meta é obter precisão máxima.
Os dados são transmitidos para um computador, e o treinador orienta o atleta e lhe diz o que é preciso para executar a batida perfeita, na qual o goleiro, estando em determinada posição ao aguardar a cobrança, não tem como defender. Avalia não só o “depois” do chute, mas também o “antes”, envolvendo a biomecânica: postura corporal e posição do pé.
São equipamentos que Rômulo (ex-Athletico-PR) não viu no Brasil e que, pelo menos a curto prazo, não verá. Não há perspectiva para que o RB Bragantino, o primo brasileiro do RB Leipzig, que disputa a Série A do Campeonato Brasileiro e também é controlado pela empresa de bebidas energéticas austríaca Red Bull, tenha acesso a eles.
Plenge, o executivo de negócios, apesar de não descartar a implementação futuramente, foi taxativo: “No fim das contas, isso custa dinheiro”.
Estimativas apontam que o preço do SoccerBot (fabricado por uma empresa de Leipzig) é de US$ 900 mil (R$ 4,8 milhões), e o do TrackMan (produto dinamarquês), a partir de US$ 50 mil (perto de R$ 270 mil).
A reportagem contatou o Bragantino para verificar o interesse e as possibilidades de contar com essas ferramentas tecnológicas em seu centro de treinamento e soube que, como o comando da área de performance está em transição no clube, não haveria alguém habilitado para comentar.
No campo pragmático, é improvável que o clube de Bragança Paulista (85 km ao norte de São Paulo) conte especificamente com o SoccerBot, já que seria necessário investir também na reformulação da estrutura física do CT de Atibaia (SP), onde o time treina, para a instalação dele.
Ademais, a atual fase do projeto esportivo do RB Bragantino (consolidação na elite do Brasileiro, volume de formação para venda de jogadores, foco primordial nos treinos de campo, desenvolvimento do improviso) age como inviabilizadora a tecnologias de microaperfeiçoamento: o custo é muito elevado em relação aos benefícios.
O jornalista viajou a convite do RasenBallsport Leipzig
Autor: Folha





