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No Brasil, até as missas e cultos são alvo de quem quer regular discurso

Nos dois domingos que antecederam o primeiro turno de 2026, 7.456 missas e cultos católicos, batistas e assembleianos, transmitidos pelo YouTube, foram baixados, transcritos e esquadrinhados: 13.886 horas de áudio, o equivalente a 578 dias ininterruptos de liturgia. O levantamento, intitulado Fé e voto, foi conduzido pela More in Common Brasil em parceria com o grupo Passagens, da UFRJ.

O resultado desmentiu a tese que muitos esperavam ver confirmada. Houve propaganda eleitoral em 3% das celebrações; nas missas, 0,7%. E isso sob uma definição que os próprios autores chamam de expandida. O tal “voto de cajado” não apareceu, e as exortações ao voto consciente foram cinco vezes mais frequentes. Registre-se, a bem da justiça, que os pesquisadores foram francos quanto aos limites do que fizeram: reconhecem que a amostra não é representativa. Seria o caso de encerrar o assunto. Não é. Porque o que inquieta não é a resposta. É a pergunta.

Diga-se com honestidade: não houve escuta clandestina. As transmissões eram públicas. Mas a publicidade da missa não converte a homilia em material de auditoria eleitoral. O relatório se apresenta como convite para que legisladores e autoridades discutam os “limites éticos, legais e teológicos” a serem traçados para o que se diz nos púlpitos. Eis o cerne: a pesquisa não se contenta em descrever; oferece-se como régua para a regulação da pregação.

Mora aí o risco que já se descreveu, em 2020, como autoritarismo científico: a autoridade do dado empírico emprestada a uma proposta normativa, como se definir o que pode ser pregado fosse questão técnica, e não escolha política.