O dia 6 de fevereiro de 2026 pode se tornar um marco histórico, com o primeiro voo espacial tripulado a ir além da Terra em mais de meio século, numa jornada até a Lua. É para quando a Nasa espera iniciar a missão Artemis 2. O voo, por ora, está marcado para começar às 23h41 (de Brasília), mas dia e hora ainda podem mudar.
A janela para o lançamento neste mês de fevereiro vai do dia 5 ao dia 11. Caso não aconteça até lá, novas tentativas podem acontecer em cerca de um mês –uma função do ciclo de translação da Lua ao redor da Terra, que dura cerca de 28 dias.
A rigor, é possível lançar uma missão à Lua a qualquer tempo (afinal, embora ela mude de posição todos os dias, está sempre mais ou menos à mesma distância da Terra em termos astronômicos, com variações que não impactam muito nas missões). Contudo, a situação muda quando a missão precisa se pautar pelas condições de iluminação no satélite durante a chegada –seria frustrante, por exemplo, fazer a máxima aproximação sobre o hemisfério noturno lunar naquele momento. Para missões de pouso, então, isso se torna ainda mais crítico, com a escolha das melhores condições de iluminação e temperatura no sítio de descida.
Neste momento, a agência espacial americana trabalha com “não antes de 6 de fevereiro e não depois de abril”, o que significa que, salvo imprevistos maiores, teremos três, talvez quatro, janelas para esse voo. Uma boa pista deve vir nos próximos dias, com o transporte do superfoguete SLS à plataforma 39B do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral (Flórida), de onde ele será lançado.
Neste momento, ele ainda está no VAB, o prédio de montagem de veículos –enorme instalação que permite a integração do lançador de 98 metros antes do voo.
Novidades no século 21
A decolagem marcará a primeira missão tripulada lançada com destino à Lua desde dezembro de 1972, quando ocorreu a Apollo 17, última visita de humanos à superfície lunar no século 20. E trará novidades históricas interessantes: pela primeira vez, um homem negro, uma mulher e um cidadão não americano farão a jornada além da órbita terrestre. Nas missões Apollo, todos os tripulantes eram americanos e brancos. Essas novidades haviam sido celebradas pela primeira gestão de Donald Trump à frente da Casa Branca, em forte contraste com a atual, em que qualquer mínima menção à diversidade é rechaçada –mas não suficiente para levar ao que seria uma absurda reescalação da tripulação.
O comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover, e os especialistas de missão Christina Koch e Jeremy Hansen (os três primeiros astronautas da Nasa, e o quarto da CSA, Agência Espacial Canadense) realizaram em dezembro uma simulação da contagem regressiva ao embarcarem na cápsula Orion Integrity, que em mais alguns dias ou semanas os levarão na histórica jornada. Tudo isso aconteceu ainda no VAB, mas um novo ensaio geral deve ser realizado novamente após o transporte do foguete à plataforma, incluindo um abastecimento completo para efeito de teste.
A tripulação está pronta para voar, confiante de que foram solucionados os problemas observados no escudo térmico da Artemis 1 durante a reentrada atmosférica, em 11 de dezembro de 2022. Na ocasião, a cápsula Orion realizou um voo similar ao que os astronautas farão, mas sem tripulação, para testar os sistemas de bordo e a segurança do projeto. Contudo, a Nasa observou desgaste maior que o esperado no escudo térmico, em razão dos efeitos inesperados de uma falta de permeabilidade no material usado nele. Lascas consideráveis da camada protetora superior foram perdidas, embora a nave tenha retornado com sucesso, realizando uma amerissagem no Pacífico.
Foi o primeiro voo bem-sucedido do foguete SLS, que custou até agora US$ 31,6 bilhões em seu desenvolvimento, além de US$ 2,5 bilhões a cada novo lançamento. Desenvolvido pela Nasa por ordem do Congresso americano em 2011, o foguete necessariamente teve de incluir tecnologias originalmente criadas para o programa dos ônibus espaciais. A contratante principal responsável pelo programa junto à Nasa foi a empresa Boeing, num modelo de negócios antigo, em que a companhia produz o veículo com especificações dadas pela agência, que fica responsável por cobrir todo e qualquer estouro no orçamento.
O método contrasta com o modelo mais moderno de contratação, que já é aplicado com transporte de tripulações e cargas à Estação Espacial Internacional, em que a empresa é paga pelos serviços prestados, a um preço fixo, e se encarrega de desenvolver e operar os veículos.
Esse mesmo modelo, aplicado ao programa Artemis, gerou contratos com as empresas SpaceX e Blue Origin para o desenvolvimento dos módulos de pouso para as futuras missões lunares a uma fração do que custou o SLS, hoje visto como um foguete em vias de se tornar obsoleto, embora no momento siga sendo o único qualificado para enviar astronautas à Lua.
A missão
O voo da Artemis 2 será tão simples quanto possível para uma cápsula que vai além da Terra. Depois de ser lançada a uma órbita terrestre bastante achatada (perigeu de 150 km e apogeu de 2.240 km), ela usará o segundo estágio do SLS para aumentar ainda mais seu apogeu, para 73,6 mil km, e, por fim, separar-se do segundo estágio e usar seu próprio motor, instalado no módulo de serviço fornecido pela ESA (Agência Espacial Europeia), para o empurrão final rumo à injeção translunar –manobra que a colocará no caminho para a Lua, localizada a cerca de 390 mil km da Terra.
A partir daí, salvo por pequenos ajustes de trajetória, ela estará num voo cuja configuração é conhecida como de retorno livre. Traduzindo do astronautiquês, significa que, deixada inerte, a cápsula chegaria às imediações da Lua, contornaria o satélite por força da gravidade lunar, e então voltaria à Terra naturalmente, de novo só pela força da gravidade terrestre, sem qualquer manobra adicional.
É a trajetória mais segura, adotada também pelas primeiras missões Apollo logo após o lançamento, para garantir o retorno dos astronautas mesmo que alguma falha de propulsão ocorresse no caminho até a Lua.
A diferença principal é que, naquelas velhas missões, mesmo na primeira tentativa de ir às imediações lunares, com a Apollo 8, em dezembro de 1968, o motor da espaçonave foi acionado para inseri-la em uma órbita estável ao redor da Lua –ponto em que ela abandonava a trajetória de retorno livre e só poderia voltar à Terra com um novo acionamento do motor para deixar a órbita lunar. Se houvesse uma falha naquele ponto, os astronautas estariam condenados a morrer sem oxigênio dando voltas ao redor do satélite natural.
A Artemis 2 não terá tanta emoção. Ela simplesmente contornará a Lua e fará uma trajetória em forma de 8, retornando à Terra em seguida, num percurso de cerca de dez dias, entre ida e volta.
Nesse sentido, ela lembra mais a Apollo 13, de 1970, que, após uma falha catastrófica no caminho para a Lua, teve de manter uma trajetória de retorno livre para retorno à Terra, com módulo lunar usado como um bote salva-vidas para a tripulação –na mais espetacular e cinematográfica (tanto que virou filme!) emergência já ocorrida no espaço. Desta vez, para a alegria dos astronautas, essa trajetória será usada de propósito, e não por uma emergência.
Um aspecto interessante é que a cápsula passará muito mais longe da superfície lunar do que as antigas missões Apollo, com um perilúnio (aproximação máxima da Lua) de cerca de 7.500 km. As Apollos voavam em órbitas lunares com altitudes de meros 110 a 200 km. Com isso, os quatro astronautas da Artemis 2 se tornarão os humanos a viajarem mais longe no espaço em toda a história.
De lá, Wiseman, Glover, Koch e Hansen terão uma visão privilegiada do sistema Terra-Lua, com os dois astros, a Terra ainda mais longe, suspensos na imensidão do vazio. Uma paisagem inesquecível para um momento histórico.
Autor: Folha





