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Mostra revê arte abstrata feita por mulheres no Brasil – 03/02/2026 – Ilustrada

Uma estrutura rosa, mole e cheia de dobras se ergue sobre um pequeno pedestal. Envolta em pelúcia, a superfície atiça o desejo tátil, enquanto a forma gira em torno de si mesma.

Premissas como o apelo tátil e as formas moles, fluidas e informes —presentes na obra “Inhaços”, de Jessica Costa— atravessam a expografia e outros trabalhos da exposição “Inconformadas”, na Galeria Claraboia, na zona oeste de São Paulo.

Ao reunir superfícies instáveis e volumes que recusam a rigidez geométrica, a mostra questiona leituras críticas que associaram a fluidez à fragilidade e propõe outra chave para pensar a forma na arte brasileira produzida por artistas mulheres.

Idealizada pela curadora Ana Avelar, a mostra resulta de uma investigação de longo prazo sobre a arte abstrata feita por mulheres no Brasil, sobretudo a partir de meados do século 20. O projeto foi concebido há cerca de cinco anos, mas se apoia em mais de duas décadas de pesquisa da curadora sobre abstração moderna e contemporânea.

Ao revisitar textos críticos do período, Avelar identificou um padrão recorrente —artistas que trabalhavam com formas fluidas ou não geométricas eram descritas como “delicadas”, “frágeis” ou “maternais”, numa leitura que confundia a obra com uma suposta essência feminina. “Essas categorias apareciam quase sempre como desqualificação, nunca como potência”, afirma.

Críticas de nomes centrais do modernismo brasileiro, como Mário Pedrosa, sustentam essa hipótese. Segundo Avelar, enquanto artistas como Maria Leontina ou Fayga Ostrower eram associadas à imaturidade ou à maternidade, pintores homens que exploravam a gestualidade e a fluidez —caso de Iberê Camargo— eram lidos como viris e intelectualmente densos, ainda que operassem em campos formais semelhantes.

A exposição se constrói a partir dessa assimetria. Reúne artistas históricas, como Maria Polo, Yolanda Mohalyi e Maria Leontina, a nomes contemporâneos como Jessica Costa, Paula Jochen, Flávia Ventura e Elle de Bernardini.

O eixo comum é a recorrência do que Avelar chama de formas moles —volumes abertos, contornos instáveis e uma recusa da rigidez geométrica.

Essa escolha formal não é tratada como estilo, mas como campo simbólico. Segundo a curadora, quando essas formas aparecem na produção de mulheres, são historicamente associadas ao corpo —útero, vulva, vísceras— e carregadas de sentidos negativos. “O mesmo não acontece quando artistas homens trabalham com a fluidez”, diz.

Nesse ponto, “Inconformadas” tensiona leituras consagradas da crítica brasileira, como a noção de “forma difícil”, formulada por Rodrigo Naves para pensar a instabilidade da forma na arte moderna do país. Embora reconheça a importância do diagnóstico, Avelar se distancia dessa interpretação. Para ela, a fluidez não indica falha ou incapacidade de assimilação dos discursos modernos, mas uma escolha estética e histórica.

“Não acredito que a forma brasileira não se estabeleça. O capitalismo se estabeleceu aqui. O que não se consolidou foi uma distribuição justa”, afirma. A instabilidade formal, nesse sentido, não seria sinal de incompletude, mas resposta a uma experiência social marcada pela colonização, pela exploração e pelo sincretismo cultural. “Há muitas formas brasileiras, assim como há muitas identidades brasileiras.”

A mostra amplia o debate ao incluir técnicas tradicionalmente relegadas ao campo das chamadas manualidades, como o têxtil e a cerâmica. Trabalhos de Lídia Lisboa, Cláudia Lara e Paula Jochen evidenciam como materiais flexíveis enfrentam um duplo preconceito: por serem associados ao feminino e por ocuparem um lugar secundário na hierarquia das artes visuais.

Avelar chama atenção para o fato de que essas técnicas, muitas vezes transmitidas entre gerações, sempre desempenharam papel social e político relevante, ainda que desvalorizado pela historiografia da arte. “O bordado, por exemplo, foi durante séculos um espaço de troca, de elaboração coletiva e até de organização política entre mulheres, mas sempre visto como algo menor”, afirma.

O projeto também questiona a ideia de que a abstração seria neutra ou destituída de conteúdo —noção difundida pela crítica modernista. Para Avelar, toda abstração carrega sentidos culturais, simbólicos e afetivos, ainda que não literais.

Essa leitura se materializa em obras como as pinturas de Flávia Ventura, que abordam relações afetivas e de gênero por meio de campos cromáticos instáveis, ou nas cerâmicas de Paula Jochen, que evocam organismos e formas biológicas.

A expografia, assinada por Alberto e Bruna Sperling, reforça esse discurso ao transformar a galeria em um espaço macio e acolhedor, em contraste com a tradição dos ambientes expositivos rígidos. “Queria um lugar de afeto, não de contenção”, diz a curadora.

O título da mostra sintetiza essa postura. “Inconformadas” remete tanto às formas que não se fixam quanto às artistas que recusam se moldar a expectativas normativas. Mais do que oposição frontal, trata-se de deslocamento. “É uma forma de existir de lado, com flexibilidade, com ginga —algo que também diz muito sobre a experiência brasileira”, afirma.

Ao reunir gerações distintas e obras de naturezas diversas, “Inconformadas” propõe uma revisão crítica da história da abstração no país, apontando lacunas e leituras enviesadas. “Ainda sabemos muito pouco sobre várias dessas artistas. Em alguns casos, nem sabemos onde estão suas obras”, afirma Avelar.

Nesse sentido, a exposição funciona também como gesto historiográfico: uma tentativa de reinscrever essas produções num campo que, por muito tempo, lhes foi hostil —e de afirmar que as formas moles podem sustentar tensões centrais da arte brasileira.

Autor: Folha

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