É correto dizer que pensar é uma atividade da mão que escreve, da laringe que fala, da mente que pensa? Sim, se entendermos que pensar é, basicamente, operar com signos —palavras, sons, imagens, símbolos, cheiros, memórias.
Proposta pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein nos anos 30, essa reflexão influenciou o matemático britânico Alan Turing na formulação de seu jogo da imitação no início dos anos 50: se uma pessoa não fosse capaz de distinguir uma máquina de outra pessoa em uma conversa, então a máquina estaria “pensando”.
Para Wittgenstein, há uma notória objeção: pensar é parte de nossa experiência privada. Não é algo material, mas um acontecimento na consciência. Seu objetivo não era reduzir a experiência humana a um maquinismo, mas dissipar a mística envolvida em conceitos como consciência.
Atento leitor de Wittgenstein, Turing distinguiu a inteligência humana da futura inteligência de máquina —com a qual hoje convivemos—, enfatizando, já naquela época, a dificuldade que as próximas gerações enfrentariam para discernir, na prática, uma da outra. Soa familiar?
Um sistema de inteligência artificial é uma máquina programada para exibir um comportamento tal que, se fosse um humano assim se comportando, ele seria dito inteligente.
O conceito parte do princípio de que a inteligência humana e a inteligência artificial são coisas diferentes. Mas a última, desenvolvida em computadores, seria capaz de imitar a primeira.
Pode-se dizer que a IA “simula” o pensamento humano, pois imita por aproximação a comunicação humana, isto é, o nosso jogo de signos. Não existe acesso direto ao pensamento humano “in vivo”, mas a internet possibilitou às máquinas o acesso a um volume enorme de textos, imagens e vídeos produzidos pelos humanos “pensando”. Todo esse conteúdo é usado para treinar os algoritmos —daí o nome “aprendizado de máquina”.
No século 20, a IA obteve sucessos na imitação aproximada do comportamento intelectual humano em tarefas que envolviam raciocínio lógico e heurístico, como dedução de teoremas matemáticos e movimentos de xadrez. A partir dos anos 2010, por meio dos operadores neurais, ela tem conseguido imitar com crescente sucesso a interpretação e geração de imagens, cenas, sons, e finalmente, as línguas naturais humanas.
Um operador neural transforma elementos de um contexto em uma previsão, uma resposta, o que pode ou não ser entendido como um gesto de criação. Sua composição em redes neurais artificiais, que imitam a conexão entre neurônios do cérebro humano, permite um aprendizado eficiente. Do ponto de vista teórico, as redes neurais artificiais podem, sim, imitar com certo rigor e sutileza traços do raciocínio humano, traduzindo-os em mapeamentos funcionais e, assim, aproximando-se do que entendemos por “pensar”.
A IA não é apenas tecnologia: é um espelho ampliado de nós mesmos, onde repousam nossas contradições, vieses e também potências mais luminosas. Seu destino (e o nosso) dependerá do tipo de sociedade que poderemos imaginar e construir.
A grande pergunta é se faremos da IA um bem comum para uma convivência sustentável —capaz de prevenir e curar doenças, melhorar a educação e a democracia, reduzir desigualdades—, ou se a deixaremos aprofundar o abismo entre ricos e pobres e embotar a nossa sensibilidade crítica.
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Autor: Folha








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