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De Olhos Bem Fechados e a fronteira invisível da perversidade

De Olhos Bem Fechados (1999), último filme de Kubrick, envelhece para frente. Cada época descobre ali uma camada nova. O objeto nunca foi um escândalo pontual. Kubrick investigou o autoengano do progressista moderno: a crença de que educação, renda e bons modos garantem livre circulação entre classes e códigos das pessoas distintas. A ilusão progressista desmorona diante da primeira fronteira invisível. Essa é uma semana oportuna para lembrar dessa obra-prima.

Dr. Bill Harford (Tom Cruise) vive um casamento aparentemente estável com Alice (Nicole Kidman), curadora de arte. Após uma festa de Natal, a esposa confessa atração antiga por um desconhecido, um impulso tão forte que seria capaz de abandonar marido e filha. Para ser preciso, Alice conta um sonho em que fazia sexo com o oficial da marinha.

A revelação desestabiliza Bill. A partir daí, ele vaga pelas ruas de Nova York, assombrado pela imagem da esposa com outro homem. A confissão atinge Bill onde sua identidade parece mais sólida: a convicção de controle e uma vida estável. Alice revela um mundo interno que escapa à vigilância de Bill. Kubrick filma sem melodrama.

Essa fissura desorganiza Bill e o empurrará para o submundo do poder. Ele descobre que estabilidade social não equivale a soberania afetiva. A noite de errância nasce dessa ferida. Cada encontro funciona como tentativa de compensação. Prostituta, flerte, promessa implícita. Nada se consuma. O desejo permanece suspenso, sempre interrompido. Bill flerta, mas resiste.

Em tempos de exposição permanente e escândalos públicos, Kubrick lembra que a superfície do choque raramente atinge o centro do poder.

Ele ocupa o espaço intermediário entre poder e serviço. Médico convidado para festas sofisticadas, tratado com deferência. Ele se imagina próximo do centro. Tudo parece acessível. Portas se abrem, convites surgem, senhas circulam. A cidade noturna funciona como corredor social. Dinheiro, profissão e charme operam como chaves universais. Bill anda como quem domina o mapa. A tragédia discreta nasce dessa autoconfiança.

O ponto de inflexão surge quando ele se infiltra em sociedade secreta que organiza orgias ritualísticas em mansão afastada, frequentada pela elite nova-iorquina. Durante o ritual, o Mestre de Cerimônias vestido com manto vermelho e máscara sinistra confronta Bill sobre senha que ele desconhece. Em geral, fixamos o olhar no erotismo. Kubrick dirige a atenção para a organização e toda liturgia satânica. Há hierarquia, coreografia, silêncio funcional. A trilha sonora não é um detalhe. Ele nos empurra para um ambiente perturbador. Ali, o sexo funciona como linguagem de coesão interna. Cada gesto cumpre função. Cada corpo ocupa lugar substituível.

Bill entra como observador. Erro decisivo. O ritual tolera participantes, jamais curiosos. O liberal ilustrado acredita que observar equivale a participar. A elite verdadeira funciona por outro princípio: pertencimento precede o olhar. Quem vê sem autorização expõe o próprio desajuste. Por isso as máscaras.

A ameaça jamais assume tom histérico e rosto. Ela se expressa com calma administrativa. Há regras. Há consequências. A violência aparece como possibilidade organizada, não como explosão. Kubrick descreve o poder que se protege com eficiência, economia de gestos e terceirização do custo moral. A mulher que se oferece para salvar Bill não encarna sacrifício romântico. Ela cumpre função sistêmica. Isto é, um sistema que absorve o desvio, elimina o ruído, preserva o núcleo de sua hierarquia. Bill sai vivo porque é útil. Ele aprende a diferença entre circular e pertencer. Ele descobre um outro mundo. Um mundo que não pode pertencer.

O mérito do filme está em evitar discurso conspiratório vulgar. Nada sugere sociedade secreta governando o mundo. O que se vê é mais banal e mais perturbador: elites que se reconhecem, se protegem e se reproduzem por códigos informais, invisíveis ao discurso público. O poder real está longe da indignação e paixões mobilizadoras. O poder se organiza sem ostentação.

Kubrick dispensa o conforto da denúncia moral. Bill não sai transformado em herói. Ele retorna ao seu lugar. A vidinha ordinária do bom cidadão. O choque não produz revolução interior. O espectador acompanha alguém que vê demais e continua vivendo. O custo da lucidez aparece alto demais para ser pago integralmente. Melhor fechar os olhos.

A atualidade do filme reside aí. Em tempos de exposição permanente e escândalos públicos, Kubrick lembra que a superfície do choque raramente atinge o centro do poder. A revelação excita, indigna, cansa. O sistema permanece. Ele conta com o esquecimento, com a troca de assunto, com o retorno à normalidade.

Kubrick filmou o liberal ilustrado como figura trágica do mundo moderno. Engolido pela própria estupidez. Alguém convencido de que mobilidade social equivale a pertencimento simbólico. A fronteira invisível desmonta essa fantasia sem discurso. Basta ritual fechado, senha indevida, aviso em tom calmo. No fim, o título assume pleno sentido. Olhos bem fechados expressam escolha. Ver custa. Pertencer custa mais. A maioria prefere seguir em frente e fingir que nada está acontecendo. Kubrick sugere que algumas portas existem apenas para lembrar quem jamais deveria tentar abri-las.

Em 5 de março de 1999, Kubrick realizou uma segunda exibição do filme para um representante britânico da Warner Bros. em sua casa em Childwickbury. Kubrick morreu repentinamente dois dias depois, vítima de um ataque cardíaco.

Autor: Gazeta do Povo

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