A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022 seria uma parte da história que teria um novo capítulo para a direita em 2026. Estariam frente a frente não fosse uma sucessão de revéses sofridos por Bolsonaro na Justiça e que o impedem de tentar a desforra neste ano — para além da inelegibilidade no campo eleitoral, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e cumpre prisão em regime fechado.
Diante desse quadro, a busca pelo espólio do ex-presidente se transformou em uma corrida que começou no ano passado e foi se intensificando com o passar dos meses, na qual participaram — e ainda participam — alguns nomes da direita, notadamente governadores de oposição ao governo federal.
Assim como uma corrida, há um pouco de tudo, seja ultrapassagem, quebra de ritmo, perda de potência, penalidade ou manobra surpreendente. Uma pitada de emoção também entra, claro. E nessa prova, entre várias trocas de posições, a direita começa 2026 com um favorito a chegar à bandeirada e rivalizar com Lula em outubro: Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Clique no botão play abaixo e veja como se desenrolou a corrida até agora, mês a mês.
Flávio Bolsonaro muda o jogo após chancela do pai
O senador e primogênito de Jair Bolsonaro largou bem atrás. Poucos poderiam imaginar — até ele mesmo — que estaria, nesse momento, em primeiro lugar na evidência, no campo da direita. E olha que essa corrida começou com nomes de peso, como o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), fiel seguidor e aliado do ex-presidente — foi ministro na gestão Bolsonaro e, lançado por ele, tornou-se governador do maior estado brasileiro.
A entrada do filho 01 na corrida foi, até agora, o movimento mais surpreendente na direita para 2026. O nome dele sequer aparecia até então em pesquisas eleitorais. Dentro da família Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) eram os cogitados a concorrer contra Lula, apesar de em momento algum terem afirmado que seriam candidatos.
Uma carta publicada no X (antigo Twitter), em 5 de dezembro de 2025, alterou o cenário e impulsionou Flávio Bolsonaro. “É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação”, escreveu. Essa manifestação ocorreu após visita dele ao pai na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde o ex-presidente cumpre pena.
Esse movimento foi suficiente para, praticamente, catapultar a candidatura de Tarcísio de Freitas e deixá-lo livre para tentar a reeleição em São Paulo — o que sempre foi o desejo pessoal dele, apesar de estar à mercê não só de Jair Bolsonaro, mas de caciques políticos e articuladores experientes como Gilberto Kassab (PSD-SP).
Não é possível cravar, mas o governador paulista já é visto como passado na disputa presidencial. “Eu vejo como já descartada a candidatura do Tarcísio à Presidência”, afirmou o senador e presidente nacional do PP, Ciro Nogueira.
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Ronaldo Caiado abriu a corrida da direita no passado
A direita começou a se organizar no ano passado com um único objetivo: derrotar Lula em 2026. Isso colocou todas as possíveis candidaturas não necessariamente como adversárias, mas como uma união de forças contra um inimigo em comum. Não houve críticas diretas aos pares, por exemplo. Houve, sim, a percepção de que várias candidaturas significam que a direita está bem servida.
O primeiro passo, de fato, foi dado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil). Logo em fevereiro do ano passado, ele afirmou que lançaria a pré-candidatura para presidente. “Já vou dar partida na minha pré-candidatura a presidente da República”, disse.
Para chamar atenção ao seu movimento, Caiado cogitou ter o cantor Gusttavo Lima como vice em uma possível chapa presidencial. O barulho em volta do sertanejo ajudou a espalhar o nome do governador goiano pelo Brasil, mesmo que por pouco tempo. Logo em março, Gusttavo Lima declarou que não entraria para a política, deixando Caiado por conta.
O governador de Goiás andou algumas casas quando lançou oficialmente a pré-candidatura em Salvador (BA), apesar de um racha interno que esvaziou o evento — o presidente do próprio partido, Antônio Rueda, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), não participaram. “O partido está aberto a todos que quiserem disputar a prévia. Partido não tem aqui decisão de dizer quem pode e quem não pode. Quem tiver coragem, independência moral e intelectual se apresente”, disparou Caiado.
Ele passou o restante do ano sustentando a pré-candidatura, mesmo que de uma forma mais discreta, enquanto outros governadores começavam a ganhar espaço nesse xadrez. Em outubro, até ameaçou deixar o União Brasil e partir para o Solidariedade com o objetivo de manter os planos de tentar o Palácio do Planalto.
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Tarcísio de Freitas: de favorito a carta fora do baralho da direita para 2026
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, nunca foi explícito a respeito de uma possível candidatura à Presidência da República. Negou em todos os momentos, muito em função de um respeito ao seu padrinho político Jair Bolsonaro. Sem o aval dele, não deu esse passo em momento algum. Por outro lado, falou várias vezes durante 2025 que gostaria de concorrer à reeleição ao governo de São Paulo.
Isso não impediu que líderes da direita, sem contar setores do mercado financeiro, elevassem Tarcísio a favorito na direita para vencer Lula em 2026. Em abril, por exemplo, Gilberto Kassab falou que o PSD não teria candidato a presidente se o governador entrasse na disputa. Esse aval posicionou Tarcísio à frente dos demais representantes da direita.
Tanto foi assim que logo começou a se falar em formar uma frente ampla de alguns partidos com Tarcísio como cabeça de chapa — PL, PP, União Brasil, PSD e Podemos assumiram esse posicionamento. O governador paulista, novamente sem se colocar como figura central, destacou a força que viria dessa articulação. “Para quem duvida que esse grupo estará unido no ano que vem, eu digo para vocês: esse grupo estará unido. Esse grupo vai ser forte, esse grupo tem um projeto para o Brasil”, disse.
Mas ao passo que avançava uma pré-candidatura de Tarcísio, ele mesmo se colocava um passo atrás, contrariando, por exemplo, o setor produtivo de São Paulo ao não sair imediatamente em sua defesa quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou sobretaxa a produtos importados do Brasil.
E nessa gangorra, ele volta a ser pressionado a avançar com o projeto nacional, inclusive pelo próprio potencial adversário. Em uma reunião com ministros, em agosto, Lula apontou Tarcísio como provável adversário em 2026, o que animou empresários, mercado financeiro e o Centrão a buscar um consenso em torno do governador paulista.
No fim daquele mês, em um evento que reuniu lideranças da direita, Tarcísio falou, pela primeira vez, como se fosse alguém que iria se aventurar na disputa presidencial. “Não sei qual vai ser o lema do próximo governo, mas sei que a gente precisa fazer quarenta anos em quatro”, declarou, em uma referência clara à lendária frase do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que cunhou o termo “50 anos em 5”.
O governador paulista meio que caminhou no automático, deixando que aliados o colocassem na disputa presidencial. Acontecimentos externos, como a operação policial que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, ajudaram a posicionar Tarcísio como antídoto ao governo petista na questão da segurança pública, um tema caro à população brasileira. E sem sustentar ativamente sua pré-candidatura, abriu espaço para que outros nomes aparecessem no tabuleiro, como o do governador paranaense Ratinho Junior (PSD).
Ao passo que isso acontecia, veio a decisão de Jair Bolsonaro de colocar o próprio filho como candidato, jogando Tarcísio para o pelotão de trás na corrida presidencial. Tarcísio, porém, foi cobrado para apoiar Flávio Bolsonaro publicamente como pré-candidato.
“Pra mim o Flávio é um grande nome. Já falei que ele é o meu candidato”, afirmou então, com a intenção de acalmar os ânimos, especialmente depois de fazer uma postagem nas redes sociais dizendo que o Brasil precisava de um novo CEO (diretor-executivo, na sigla em inglês), mas sem citar o nome do filho 01 de Jair Bolsonaro. Além disso, a esposa de Tarcísio, Cristiane Freitas, havia curtido a postagem e comentado: “Nosso país precisa de um nome CEO, meu marido”.
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Ratinho Junior se coloca como alternativa à polarização
O governador do Paraná, Ratinho Junior, goza de alta popularidade local. Fechando o segundo mandato, não pode se reeleger, o que lhe dá poucas opções: ou o Senado ou a Presidência da República. No começo de 2025, o nome de Ratinho Junior sequer era falado nacionalmente, sequer aparecia nas pesquisas — a vontade, porém, de tentar um projeto nacional, já existia.
Em março, porém, as coisas começaram a mudar para ele, graças a um empurrão de Gilberto Kassab, presidente nacional do seu partido, que começou a apresentá-lo como um bom nome contra Lula. E ele próprio comprou a ideia. “Seria, sem dúvida, um grande sonho ter a oportunidade de ser candidato e discutir o país. Represento uma nova safra da política do Brasil e nós temos a obrigação de colaborar com uma nova forma de se ver a gestão pública”, declarou.
O sonho foi se transformando em ações com o passar dos meses, com uma mudança de estratégia nas redes sociais e com a abertura para entrevistas em veículos nacionais e podcasts. No seu discurso, Ratinho Junior sempre tentou se posicionar como uma alternativa à polarização, colocando-se mais ao centro, como uma forma de buscar uma união. “Eu me considero normal porque ninguém aguenta mais essa briga”, chegou a dizer.
Essa característica começou a ser bem vista por caciques políticos. Uma reunião com nomes pesados da economia e da política paulista, em outubro, jogou com força o nome de Ratinho Junior como um plano viável caso Tarcísio fosse para a reeleição estadual. E o mercado financeiro acompanhou esse movimento.
A entrada de Flávio Bolsonaro na corrida foi boa para as pretensões de Ratinho Junior, exatamente por ter se posicionado ao longo de 2025 como uma alternativa à polarização. Tanto é que líderes do Centrão, seja o próprio Kassab, como também Ciro Nogueira, passaram a cogitar não embarcar com o primogênito de Jair Bolsonaro e alçar o governador paranaense como uma opção ao centro.
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Romeu Zema descarta posição de vice na direita para 2026
Da mesma forma que Ratinho Junior, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), não pode mais tentar a reeleição. E logo procurou se adiantar como uma opção na direita no lugar de Jair Bolsonaro. O partido dele deu o aval em abril: “Se o Bolsonaro não conseguir se viabilizar, [defendemos] uma pré-candidatura em torno do nome do Romeu Zema para ser a opção da direita em 2026”, disse o presidente do Novo, Eduardo Ribeiro.
Aos poucos, Zema começou a se lançar ferozmente contra o governo Lula, tentando trazer o eleitor de Bolsonaro para o seu lado, enquanto levava seu plano presidencial para vários lugares do Brasil. Em agosto, lançou oficialmente a pré-candidatura a presidente em um evento não em Minas Gerais, mas em São Paulo, com um discurso antipetista e liberal. “O governo não impõe, ele só apoia. É isso que nós queremos”, discursou.
Zema conseguiu atrair os holofotes para a sua pré-candidatura, mas logo na sequência foi abalado por uma operação da Polícia Federal que investiga um esquema de mineração ilegal que envolve servidores de diversos órgãos do governo mineiro. Um fato que foi suficiente para o governador dar um passo atrás na corrida e frear, mesmo que momentaneamente, seu projeto nacional.
O governador mineiro diminuiu o ritmo de sua pré-candidatura e se voltou para o seu estado e as articulações para a sua sucessão — ele trabalha para o vice Mateus Simões (Novo) ser o candidato. A mudança de quadro com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro poderia até sepultar os planos de Zema, mas ele cravou que seguirá seu projeto, rejeitando a possibilidade de ser vice do filho 01. “Eu sou pré-candidato [à presidência], como já aconteceu o lançamento no ano passado e continuo com a pré-candidatura e irei até o final”, disparou neste mês.
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Eduardo Leite não consegue emplacar pré-candidatura
As pretensões presidenciais do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), ganharam pouco eco ao longo de 2025. Em março, o seu ex-partido, o PSDB, chegou a lançar um vídeo o colocando como potencial candidato a presidente em 2026. Mas dois meses depois, o plano ruiu com a ida de Leite para o PSD, que precisava, segundo ele, de “novos caminhos.”
O governador gaúcho chegou ao PSD com patamar de presidenciável. “Caso o governador seja candidato, se coloque à disposição [para sair à Presidência], será mais do que natural apoiá-lo”, afirmou Kassab. Mesmo assim, para o próprio cacique do PSD, Leite estava na terceira colocação, atrás de Tarcísio de Freitas e Ratinho Junior. Uma espécie de plano C, que chegou a virar plano B com o recuo do governador paulista.
Aldo Rebelo troca de partido para concorrer a presidente
O mais novo pré-candidato a presidente a entrar na corrida é o ex-ministro Aldo Rebelo, que deixou o MDB para se filiar ao Democracia Cristã (DC) — ele foi quadro do PCdoB por 40 anos, mas rompeu com a esquerda. A expectativa é de que ele lance oficialmente a pré-candidatura pela direita em 2026 até o fim de janeiro.
Enquanto isso, ele se articula para buscar um vice, que poderia ser o ex-ministro de Jair Bolsonaro, Fabio Wajngarten. “As pesquisas mostram que, quanto mais candidatos de direita, melhor! O objetivo é único: derrotar a esquerda, derrotar o PT”, disse Wajngarten sobre a possibilidade de compor chapa com Rebelo.
Autor: Gazeta do Povo





