“Muito tempo atrás, eu costumava sonhar que eu era uma criança neurotípica. Nesses sonhos, eu sempre estava rindo, conversando e fazendo piadas com meus amigos e minha família […] Eu talvez tenha desejado, certa vez, me tornar aquela versão neurotípica de mim mesmo, mas, na verdade, era só da forma como uma criança gostaria de ser o herói de um filme. Sonhos podem nos fazer ver as coisas de uma nova forma, mas eles são ilusões. Esse mundo é o meu mundo. Não há outro.”
Esse é um trecho do livro “Fall Down 7 Times, Get Up 8 –A Young Man’s Voice from the Silence of Autism” (“Caia 7 Vezes e se Levante 8 – A Voz de um Jovem do Silêncio do Autismo”), escrito pelo japonês Naoki Higashida, autista, e uma pessoa que se comunica minimamente pela fala, mas que comunica pensamentos complexos soletrando palavras numa grade de letras ou no computador.
Higashida se tornou um sucesso literário internacional com um livro anterior, “O Que Me Faz Pular“, escrito quando ele apenas tinha 13 anos e publicado em 2007 —o trecho que começa esse texto é de um livro publicado quando o japonês tinha 21 anos e uma compreensão mais robusta sobre a vivência de ser autista.
Em ambos os livros, Higashida explica o porquê de alguns comportamentos comuns em pessoas autistas, em especial os relacionados à dificuldade de comunicação.
“As palavras que queremos dizer e as palavras que podemos dizer nem sempre correspondem tão bem […] Quando há uma lacuna entre o que estou pensando e o que estou dizendo, é porque as palavras que saem da minha boca são as únicas que consigo acessar naquele momento”, escreveu o japonês aos 13 anos.
No livro publicado oito anos depois, Higashida volta ao tema, com explicações mais detalhadas sobre o processo de pensar o que quer dizer e de conseguir dizer. Em uma passagem, ele conta que foi ao mercado com seu assistente terapêutico e viu cravos, que queria comprar para a mãe, conseguindo finalmente dizer ao assistente “cravos… comprar”.
“Primeiro, eu repassei um ‘clip de memória’ de cravos na minha cabeça. Vendo esse clip, eu consegui falar a palavra ‘cravo’. Depois, para acessar o verbo que precisava ir com a [palavra] flor, direcionei meu pensamento para o que estava fazendo naquele momento. Palavras como ‘andar’, ‘ver’ e ‘pensar’ passaram pela minha cabeça, mas então o fato de eu estar em um supermercado revelou a palavra ‘comprar'”, descreve.
O autor destaca, repetidas vezes, sua evolução em diferentes atividades, ainda que em idades diferentes do esperado para seus pares neurotípicos. Ao falar sobre a atividade de cortar papel com tesoura e colar as formas recortadas, por exemplo, ele diz: “no passado, parecia inimaginável que eu conseguiria fazer esse tipo de tarefa. Posso ter levado 13 anos para chegar nesse ponto, mas finalmente eu posso dizer ao meu abatido eu do jardim de infância ‘continue firme —você vai conseguir um dia!'”.
Em outra passagem, Higashida é mais explícito sobre essa mensagem. “Pessoas com autismo podem precisar de mais tempo, mas, à medida que crescemos, há inúmeras coisas que podemos aprender a fazer, então, mesmo que você não consiga ver frutos do seu esforço, por favor não desista. Nossas vidas ainda estão à nossa frente […] a vida adulta dura muito mais que a infância.”
Nesse sentido, o livro do jovem Higashida é um chamamento para sairmos da rotina de terapias e vislumbrarmos o futuro —o que seria óbvio em relação a uma criança ou jovem típico e com fala fluente.
“Pessoas com necessidades especiais não precisam apenas praticar as coisas que elas não conseguem fazer. Elas também precisam —de forma crucial— procurar sentido em suas vidas”, escreve. “Quando você era pequeno, tenho certeza que era questionado com frequência ‘o que você quer ser quando crescer?’. Essa pergunta é raramente feita a crianças com deficiência. […] É vital, para qualquer criança, poder sonhar com quem e o que ela gostaria de ser e fazer em seu futuro.”
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Autor: Folha








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