O empresário Michael Klein apela à superstição ao ser questionado sobre como vai seu otimismo em relação aos negócios e ao Brasil, em meio à persistência da taxa Selic nas alturas e à crise de segurança pública que o país atravessa.
Em entrevista à Folha, ele disse esperar que o Papai Noel traga a queda de juros. E instou outros empresários a superarem o estigma da periferia para expandir os negócios em favelas, onde ele vê oportunidades na mão de obra e no consumo local, a despeito da presença do crime organizado em algumas regiões.
Sobre um tema que repercutiu no varejo no primeiro semestre, sua tentativa de retornar à Casas Bahia, o empresário não desistiu de elevar sua posição acionária. Se houver ações à venda no mercado, ele terá interesse.
Fora do conselho de administração da companhia desde 2020, Klein tentou reassumir a posição em abril. Com cerca de 10% de participação ao lado de outros acionistas vinculados a ele, o empresário chegou a pedir a convocação de uma assembleia para destituir membros do conselho, incluindo o atual presidente do colegiado. Diz ter recuado porque não sabia, até então, dos impedimentos ligados à emissão de debêntures traçada anteriormente pela companhia.
Mas os próximos passos de Klein ainda dependem de outros desdobramentos relacionados aos capítulos mais recentes da varejista, que pediu recuperação extrajudicial em 2024. Se a gestora Mapa Capital, nova controladora da Casas Bahia, quiser permanecer com as ações da empresa para esperar que os papeis se valorizem quando o negócio tiver superado a reestruturação, isso tira as chances de Klein elevar a participação dele.
Em outra frente, no ramo de concessionárias de veículos, em que ele também atua, com as marcas Honda e Mitsubishi, Klein se diz atento ao atendimento do pós-venda para os clientes das novas montadoras chinesas que precisam de reposição das peças importadas.
Já o conflito judicial que envolve o nome da família, a disputa com o caçula Saul pela herança do patriarca Samuel —o fundador das Casas Bahia, morto em 2014 aos 91 anos— é um imbróglio que Michael vê como estagnado.
TAXA DE JUROS
Existe espaço para reduzir. Mesmo que sejam reduções paulatinas, de 0,5 e 0,5 ponto ou de 0,25 e 0,25. Mas que se faça alguma coisa em vez de esperar mais empresas ficarem com dificuldade. O país precisa desse presente de Natal. Não estou dizendo só por mim. É para todo mundo.
PRESENÇA NAS FAVELAS
A primeira loja [da Casas Bahia] que abrimos em uma comunidade foi a da Rocinha, em 2012. Subi, fui lá visitar um imóvel, era uma esquina, uma padaria, mas a locação acabou não dando certo. Não valia a pena, era pequeno. Aí um outro corretor me ofereceu uma propriedade na estrada da Gávea. Negociamos, compramos, pagamos, com escritura, tudo direitinho. Reformamos, conforme o plano diretor do Rio de Janeiro.
Identificamos os nossos funcionários que moravam na Rocinha, mas trabalhavam nas lojas de outros bairros, e transferimos todos para lá, para que passassem a trabalhar perto de casa. Os colaboradores sabem para quem pode dar crédito, porque se conhecem.
Depois disso, abrimos lojas em outros locais, como morro do Alemão. Em São Paulo, fui inaugurar em Paraisópolis com o Gilberto Kassab, que na época era prefeito.
Se existe facção, nós não temos nada que ver com isso. A gente abre loja e gera emprego. É uma vantagem para a população.
As pessoas costumam criar um preconceito, ficam perguntando quem eram os proprietários [anteriores do imóvel]. A gente compra com escritura, papel passado, tudo normal. Faz a loja, inaugura. Tem consumidor como em qualquer outro lugar. São populações maiores que muitas cidades.
RECUO NO PLANO DE VOLTAR AO CONSELHO DA CASAS BAHIA
Quando nós juntamos algumas pessoas interessadas em participar do conselho novamente [em abril], não sabíamos, e também não era público, que o pessoal que fez as debêntures dois anos atrás tinha o direito de converter em ações. E nós não sabíamos se eles iam converter ou não.
Na conversão, eles [Mapa Capital] ficaram com 85%. Então, não íamos atrapalhar algo que já estava assinado, o direito de converter as debêntures em ações. Na hora em que soubemos que eles iriam converter, decidimos recuar e esperar
INTENÇÃO DE COMPRAR AÇÕES DA EMPRESA
Se eles decidirem vender participação, eu posso ir lá e comprar as ações. Mas também deixo claro o seguinte: se eles têm um programa de longo prazo, se querem ficar com as ações, eu vou deixar essa tentativa de retorno para o futuro. Eles têm duas alternativas: ou vendem as ações, mesmo que seja paulatinamente, a cada três meses… Se estavam com 85,5%, no primeiro tranche, eles podem vender 8,5%, no segundo, podem vender 12%. Eles podem ir vendendo até diluir normalmente.
Ou também podem querer vender para outro, fechar o capital e vender a empresa. Para quem tem 85%, é muito mais fácil fechar o capital. A gente não sabe. Aí não volta nunca mais. Estou vendo plano A e B.
Faz 11 anos [desde a morte de Samuel] e pode se preparar para os próximos 11 anos para não sair nada. Meu irmão [Saul] resolveu questionar o que meu pai destinou por testamento no cartório. Ele entrou na Justiça dizendo que eram falsas as assinaturas do meu pai. Já perdeu. Agora, fica contestando. Então, já que a assinatura é verdadeira, ele não concorda com a divisão do contrato que ele fez em 2015.
CARROS CHINESES
Diversas marcas entraram forte no mercado. Estamos em conversas e estamos esperando novas marcas chinesas para trabalhar com eles também.
Vou dar só uma sugestão: no Brasil, existe um tipo de armazém alfandegado. O pessoal deveria trazer peças e estocar aqui em vez de encomendar e ficar esperando muito tempo pela importação. À medida que vai tendo acidente, se quebrar ou precisar trocar, a peça já está aqui. Pode trazer a peça sem pagar o imposto enquanto ela ficar no armazém. Se precisou da peça, paga o imposto e retira.
RAIO-X | MICHAEL KLEIN, 74
Filho do fundador da Casas Bahia, Samuel Klein, Michael começou a carreira na empresa, em 1969, e assumiu o comando posteriormente. Em 2010, concluiu a associação com o Ponto Frio, que deu origem à Via Varejo, e criou o Grupo CB em 2011, iniciando atividades em outros mercados, como galpões comerciais e centros de distribuição. Deixou a presidência do conselho de administração da varejista em 2020.





