
Desculpe perguntar assim, na lata. Mas… Você daria a vida por uma ideia? Você morreria por uma causa política, ainda que justa?
Não, não. Não estou “dando ideia” nem nada parecido. Pelo contrário! Pergunto porque vi uma notícia. Uma declaração de uma moça que foi atingida por um raio no final da Caminhada do Nikolas, aquela do “Acorda, Brasil”. Lembra dela?
É, é. Aquela de uma ou duas semanas atrás, naquele interminável janeiro de 2026.
68 anos
A moça, na verdade uma senhora, disse à Folha de S. Paulo que “se eu tivesse morrido [toc, toc, toc, deusolivre, etc] não teria problema, a causa é justa”. Uau. Sessenta e oito anos, tem a senhora que eu chamei de moça e que disse isso daí.
Sessenta e oito anos é vinte a mais do que eu. É muita experiência de vida. Muita história e bagagem. Talvez filhos e netos. Certamente amigos.
Que a causa é justa, isso não se discute. A democracia no Brasil já era, o devido processo legal não é mais devido coisíssima nenhuma e há culpados por vandalismo presos por tentativa de golpe de Estado. Nisso, eu e a senhora que se chama Lúcia Helena Canhada Lopes (muito prazer, Paulo) concordamos.
Pago político para isso
Agora, morrer? Por uma causa política, ainda que justa? Dar a vida? Com um raio na cabeça (tipo isso) ainda por cima?
Nah. Talvez eu seja egoísta demais. Ou ame a vida demais – e amo mesmo. Mas eu não morreria nem daria a vida por essa causa da dona Lúcia, do Nikolas ou do Bolsonaro. Eu não, ora! Pago político para isso. Eles que se virem.
Na verdade, vim escrever este texto porque achei a fala da dona Lúcia um tanto quanto assustadora. E a admiração a elas, declaração e personagem, perigosa. Sério que tem gente disposta a dar a vida pelo bolsonarismo? Sério que tem gente que admira essa disposição ao martírio político? É para tanto?
O quê?!, no Brasil?!
Deve ser apenas a retórica. A emoção. Afinal, se não temos nem políticos dispostos a uma grevezinha de fome, subtipo Glauber Braga, exigindo, pedindo, implorando pela prisão domiciliar do Bolsonaro ou a soltura do povo do 8 de Janeiro ou… Qual era mesmo a outra causa?
Ah, sim! Democracia, devido processo legal, aquela coisa que (olha só que louco!) há coisa de dez anos tratávamos como uma realidade imutável. Porque, sério, se me perguntassem em 2016 se dez anos mais tarde haveria alguém disposto a dar a vida, a morrer (e por um raio!) por uma causa, o quê?!, no Brasil?!, democracia?!, golpe?!, eu diria que esse alguém estava louco ou bêbado ou tendo um AVC.
E o Nikolas, hein?
E o Nikolas, hein? Não se pode elogiar mesmo. Quando é que eu vou aprender, meu Deus?!
O Nikolas que, sobre a declaração da dona Lúcia, disse um monte de asneiras. Quero crer que asneiras escritas não por ele, e sim por um assessor empolgado ou por uma IA descalibrada (foi você, Claude?). Mas acho que não.
Para começar, olha isso! Não, sério, olha isso! Abramos aspas: “O que essa mulher [“essa mulher”] disse escancara uma verdade que muita gente foge [faltou à aula de regência?]: a vida não vale nada quando é vivida sem sentido [ooooooooooh!]. Quem acha exagero é porque já trocou a própria consciência pelo conforto [é exagero e não troquei a consciência pelo conforto coisa nenhuma!]”.
Sentido da vida
Pô, Nikolão. Pega leve. Que a vida não vale nada quando vivida sem sentido é óbvio. Menos óbvio, e até um tanto quanto tolo, bem tolo, tolo, muito tolo, tolíssimo é acreditar que o sentido da vida seja o apelo à ideologia e às causas momentaneamente atreladas a ela. Que o sentido da vida seja o bolsonarismo (com todo o respeito aos fãs).
Aí ele, o assessor ou a IA (provavelmente IA) diz que “quando a consciência desperta, o corpo deixa de ser o centro do mundo”. Ah, sinceramente? ******!
(…) Falando sério, Nikolas e leitores da Gazeta do Povo, essa retórica aí é perigosíssima. Ainda mais numa época como a nossa, com as pessoas fazendo fila para ostentar virtude moral e política nas redes sociais.
V-i-d-a
Porque não é o corpo. É a vida. VIDA. V-i-d-a. Com tudo o que ela significa e cujo alcance nem o deputado nem a aspirante a mártir meteorológica enxergam. É a vida, pô! É ver o pôr do sol no cerrado, ouvir o barulho da chuva (sem medo de raio), sentir as dores da caminhada, amar – e até odiar, que ninguém é de ferro.
Donde concluo que. Não concluo nada. Ou melhor, concluo, sim. Dou uma de vó com o pano de prato no ombro e concluo que esse povo só pode estar louco. Louco das ideias. Ideias pelas quais eles dariam a própria vida. Né possível!
Mas não deixa de ser interessante. Para quem estuda pulsão de morte e essas coisas.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












