Enquanto desfazia as tranças do cabelo esta semana, me senti parte da revolução que se encontra em marcha no Brasil. Não se trata de um movimento de revolta contra um poder estabelecido, mas de uma transformação institucional, política, social, econômica e cultural protagonizada pela maioria negra da nossa população.
Descobri que seis das nove profissionais do salão que frequento (todas negras) tornaram-se universitárias e estão matriculadas em cursos de administração, letras, gestão pública e contabilidade. “Gosto do que faço, mas não dá para passar a vida trançando cabelo. Quero um futuro melhor”, resumiu uma delas.
O sonho de um futuro melhor ficou mais próximo da realidade de milhares de brasileiros pretos e pardos desde a sanção da Lei de Cotas (12.711/2012), fruto da luta dos movimentos sociais negros. O normativo garantiu, em nível nacional, a reserva de 50% das vagas nas universidades federais para alunos provenientes de escolas públicas (com recortes de renda e de raça), democratizando o acesso a um dos espaços mais elitizados do país: a universidade.
Os negros representam mais de metade dos acadêmicos das nossas universidades federais atualmente. É uma mudança de cenário que faz da Lei de Cotas (atualizada em 2023) um potente instrumento de reparação histórica e a mais eficiente e eficaz política pública implementada para enfrentar as disparidades socioeconômicas patrocinadas pelo Estado brasileiro ao longo de mais de 500 anos.
A carência educacional intergeracional da nossa população negra tem tudo a ver com um projeto político que deixou de educar parte específica dos cidadãos, mantendo a população negra longe da qualificação formal necessária para disputar espaços de poder e decisão.
Diploma não é garantia de sucesso nem elimina as desigualdades num mercado de trabalho que discrimina pela raça (negros recebam até 45% a menos que brancos com a mesma formação), mas é essencial para transformar em realidade o sonho de um futuro melhor.
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Autor: Folha




















