sábado, novembro 29, 2025

Terapia é redução de danos contra racismo, diz psicóloga – 19/11/2025 – Equilíbrio

A clínica psicológica, ou seja, o atendimento em consultório para tratar questões de saúde mental, não é suficiente para lidar com o sofrimento provocado pelo racismo, afirma Jeane Tavares, psicóloga, doutora e pós-doutora em saúde pública pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e professora da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).

“Eu sempre falo que o que muda a sociedade é o esforço coletivo, a luta política. A clínica, enquanto houver racismo, vai ser redução de danos”, diz Tavares.

Para a psicóloga, o esforço antirracista precisa envolver todos os grupos raciais, considerando que o sofrimento se dá pela interação e a partir das relações sociais.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, cerca de 56% da população brasileira é negra. Também é composta por negros 80% da população que depende do SUS (Sistema Único de Saúde), segundo dados de 2017 da ONU Brasil (Organização das Nações Unidas).

Sendo maioria na utilização dos equipamentos de saúde pública, as pessoas pretas e pardas sofrem com o racismo estrutural —presente em toda a sociedade e que implica nos recursos e acessos a direitos— no próprio sistema.

As barreiras, exemplifica Tavares, envolvem os horários de funcionamento do serviço, que normalmente funcionam em horário comercial, o mesmo em que a maior parte das pessoas está trabalhando e não consegue fazer uma flexibilização para ser atendida. Outro impedimento de acesso é o local dos ambulatórios especializados, que demanda tempo para o deslocamento.

Validando e com o objetivo de combater as desigualdades e o racismo institucional na saúde pública brasileira, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, em 2017.

A política foi criada a partir dos dados que indicam a “precocidade dos óbitos, altas taxas de mortalidade materna e infantil, maior prevalência de doenças crônicas e infecciosas e altos índices de violência” e prevê, dentre outras ações, fortalecer a saúde mental da população negra em todas as faixas etárias.

Ainda assim, Tavares afirma que a política é negligenciada em quase todas as esferas do poder público. “É um sistema de saúde que falha sistematicamente conosco. A gente vai ter várias barreiras de acesso, e essa pessoa acaba não sendo atendida ou não conseguindo se corresponsabilizar pela sua saúde. A gente já tem aí uma falha institucional grave”, afirma.

Nesse contexto, a psicóloga destaca a gravidade da desigualdade na Raps (Rede de Atenção Psicossocial), que é onde se concentram os cuidados em saúde mental no SUS. Para ela, a má remuneração e sobrecarga dos trabalhadores do sistema faz com que o acesso seja dificultado, e que apenas casos muito graves sejam atendidos.

“A população negra, como um todo, fica negligenciada”, afirma, apesar dos esforços dos profissionais de saúde. Ela complementa que é preciso pensar a saúde mental como uma promoção de saúde, para que não seja necessário chegar a um adoecimento mental grave.

E esse gargalo se estende quando o atendimento, quando feito, não considera a raça e o racismo presente na vida do paciente. Segundo Tavares, não racializar a forma como são feitos os atendimentos é fazer um atendimento tecnicamente equivocado, inclusive correndo o risco de dar diagnósticos inadequados.

Para que a Raps funcione, diz, é preciso que os profissionais tenham uma formação adequada e que também tenham boas condições de trabalho, que a rede se fortaleça, que o racismo institucional seja erradicado e que os atendimentos funcionem na lógica dos territórios, e não na lógica estadunidense e europeia.

Hoje, as principais abordagens psicológicas clínicas, ou pelo menos as mais conhecidas, têm origem européia ou estadunidense. A psicanálise se originou com Sigmund Freud, na Áustria, e se perpetuou por seus discípulos por toda a Europa.

A abordagem comportamental surgiu com Burrhus Frederic Skinner, nos Estados Unidos, assim como a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), de Aaron Beck. As diferentes vertentes da psicologia humanista também têm suas principais raízes ou na Europa, como a Gestalt-Terapia e o Psicodrama, ou nos Estados Unidos, como a Abordagem Centrada na Pessoa.

Por outro lado, Tavares lembra que há também movimentos estadunidenses de abordagens racializadas, como a Psicologia Preta, que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960. A abordagem tem como ponto central oferecer recursos para o enfrentamento do racismo e a promoção da saúde mental, considerando as singularidades e subjetividades da população negra, sua história e cultura.

Tavares diz acreditar que é possível racializar também as abordagens consideradas tradicionais. “Todas as abordagens, como quer que elas sejam pensadas, quando elas são transferidas para um novo contexto, elas precisam considerar o território, a história, a forma de viver das pessoas.”

Para ela, é possível construir abordagens brasileiras, adequadas ao nosso contexto e que considerem a história e a política do Brasil. Mas também é possível adequar as abordagens que já existem.

A crítica que muitas vezes é feita pela origem das abordagens se estende à elitização da psicologia clínica, algo que a pesquisadora concorda. “É elitista e pouco acessível. E ela também tem que existir, mas aí voltamos para a importância da Raps, que é universal, gratuita, integral para que, para quem não tem recursos financeiros, possa ter um acompanhamento longitudinal.”

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