
As leis de trânsito foram abolidas no Rio de Janeiro, pelo menos para alguns veículos. Motos não se preocupam mais com esses conceitos ultrapassados de mão e contramão, por exemplo. É comum que motos trafeguem no sentido oposto ao trânsito, furem o sinal em alta velocidade, rodem em cima da calçada e façam acrobacias entre os carros. Alguma coisa levou os motociclistas do Rio a concluir que as regras do trânsito são bobagem. Talvez elas sejam sejam apenas construções sociais do patriarcado.
E a bicicletas, essas parcerias do caos?
Estou falando principalmente das bicicletas de aluguel, saudadas por alguns como grande inovação na mobilidade urbana. Os estacionamentos dessas bicicletas estão em todos os lugares. São estruturas metálicas horrorosas nas quais as bicicletas ficam presas por um mecanismo destravado pelo celular. São feridas na paisagem urbana. As bicicletas são pintadas de laranja, uma cor que não se harmoniza com nada. É a mesma cor escolhida para coletes salva-vidas porque é impossível deixar de notá-la, mesmo no meio do oceano.
Nada se compara às bicicletas elétricas. Essa imprudente criação da modernidade combina o que há de pior nas bicicletas tradicionais – a capacidade de se enfiar em qualquer lugar – com o pior das motos – a velocidade assassina
Da mesma forma que os motociclistas, os condutores das bicicletas cor de abóbora acreditam ter um salvo conduto para transitar por onde quiserem – pelo asfalto, pela calçada, sobre as faixas de pedestres e no meio dos carros É óbvio que nenhum dos usuários dessas bikes de aluguel usa capacete ou qualquer item de segurança.
Mas nada se compara às bicicletas elétricas. Essa imprudente criação da modernidade combina o que há de pior nas bicicletas tradicionais – a capacidade de se enfiar em qualquer lugar – com o pior das motos – a velocidade assassina. A bicicleta elétrica permite que uma pessoa sem habilitação – e muitas vezes menor de idade – trafegue a velocidades que ela jamais conseguiria atingir se tivesse que pedalar. O resultado é um formidável potencial para acidentes, agravado pelo fato de que o motor elétrico é silencioso e não alerta o pedestre para o perigo.
Faltou falar dos patinetes do inferno. Perdoem-me o termo, mas é impossível que esse equipamento tenha sido inventado em algum outro lugar. Deve ter sido necessário um grande investimento em pesquisa para se chegar a um veículo – seria esse o termo correto? – que reúna tantas características inseguras. O patinete, movido a um motor elétrico, permite ao usuário atingir velocidades inaceitavelmente altas para um ambiente urbano cheio de obstáculos. Não há qualquer proteção para o usuário; em caso de parada súbita a consequência inevitável é o encontro violento com o chão, com outro veículo ou com uma pessoa.
Como se isso não bastasse, é comum que o patinete seja usado por duas (ou mais) pessoas, muitas vezes crianças. É evidente que nenhum piloto de patinete usa capacete ou qualquer item de segurança. Já testemunhei um rapaz que convenceu sua mãe, uma senhora de idade e sobrepeso, a subir em um patinete, só para sair depois em busca de um hospital quando as rodas travaram e a senhora foi projetada na calçada.
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É claro que existe um outro lado da moeda, igualmente alarmante. Os pedestres do Rio também se convenceram de que nenhuma regra se aplica a eles. Não tenho vivência suficiente para emitir opinião sobre o trânsito em outras cidades – exceto sobreo trânsito de São Paulo, onde sempre tenho a impressão de que o carro onde estou vai ser sitiado por um enxame de motos, e sobre o trânsito de Brasília, no qual uma assombrosa gentileza parece ser a norma. Mas o trânsito do Rio desafia explicações.
A técnica preferida do pedestre carioca para atravessar a rua é se jogar na frente dos carros, acreditando que será visto pelos motoristas e que eles conseguirão frear a tempo. Uma das coisas mais inacreditáveis, e que vejo com frequência, são as pessoas que atravessam a rua de costas para o fluxo do trânsito.
Não conheço as estatísticas de acidentes de trânsito no Rio, mas o resultado disso tudo só pode ser um massacre.
Autor: Gazeta do Povo








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