O início do ano letivo, tradicionalmente marcado por expectativas, planejamento e redefinição de rotas pedagógicas, ganha em 2026 um novo elemento de tensão: a rápida e desordenada entrada da inteligência artificial nas salas de aula ao redor do mundo.
Impulsionadas por grandes corporações tecnológicas, ferramentas baseadas em IA estão sendo oferecidas a governos e sistemas educacionais como soluções quase mágicas para velhos problemas da educação, da defasagem de aprendizagem à sobrecarga docente. Mas a forma como essa tecnologia vem sendo introduzida revela diferenças profundas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, com riscos que não podem ser ignorados.
Nos países mais ricos, a incorporação da IA tende a ocorrer em meio a debates públicos, projetos-piloto e diretrizes claras sobre limites e objetivos pedagógicos. Iniciativas como a da Estônia, que optou por ensinar estudantes e professores a compreender, questionar e usar criticamente sistemas de IA (em vez de simplesmente delegar tarefas a eles) revelam uma preocupação central: garantir que a tecnologia apoie o processo educativo, sem substituir aquilo que lhe é essencial, como o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da capacidade argumentativa.
Mesmo nesses contextos, o desafio para os professores é imenso. Começar o ano letivo já exige lidar com turmas heterogêneas, currículos extensos e demandas emocionais dos estudantes. Somar a isso a pressão para “usar IA”, muitas vezes sem formação adequada ou clareza pedagógica, cria insegurança e sobrecarga. A diferença é que, nos países desenvolvidos, esse desafio costuma vir acompanhado de formação continuada, debate institucional e, sobretudo, tempo para reflexão.
Em muitos países em desenvolvimento, o cenário é outro. A IA chega às escolas frequentemente como pacote pronto, patrocinado por empresas globais, sem discussão pedagógica aprofundada ou critérios claros de uso. Em vez de ferramenta de apoio, a tecnologia corre o risco de se tornar um atalho cognitivo, incentivando estudantes a terceirizar o raciocínio, a escrita e a resolução de problemas a sistemas que respondem rápido, mas não ensinam a pensar.
Assim, em vez de reduzir desigualdades, a introdução indiscriminada da IA pode aprofundá-las. Estudantes de contextos mais favorecidos tendem a contar com mediação qualificada: professores, famílias e escolas capazes de orientar o uso consciente da tecnologia. Já os mais pobres ficam expostos a um uso acrítico, que enfraquece a aprendizagem e compromete sua formação intelectual de longo prazo.
O início do ano letivo é, portanto, um momento decisivo para perguntar: a serviço de que projeto educativo estamos colocando a inteligência artificial? Sem planejamento, sem critérios e sem formação docente sólida, a IA pode se tornar mais um capítulo de promessas tecnológicas que falham em melhorar a educação, e ainda corroem aquilo que ela tem de mais valioso: a capacidade humana de pensar, questionar e aprender.
Mais do que aderir ao novo, é preciso discernimento. Modernizar não é automatizar o pensamento. É fortalecê-lo.
TENDÊNCIAS / DEBATES
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Autor: Folha




















