domingo, novembro 30, 2025

Negros LGBTs vivem dupla discriminação desde infância – 20/11/2025 – Equilíbrio

Filho de mãe negra retinta e pai branco, o influenciador Fábio Marx, 31, nasceu negro de pele clara. Ao longo da infância, não percebeu o racismo que sofria por parte da família paterna. Era seu jeito de “criança viada” que atraía o ódio dos tios dentro da própria casa —a primeira violência que teve contato na vida.

“Eu sempre fui muito artístico. Gostava de teatro, de dança, de divas pop. Então sempre ouvia um ‘olha o jeitinho que ele come’ ou ‘tá andando igual mulher, anda direito, menino’. Mas eu só estava andando, só estava comendo. Eu era só uma criança. Tive uma infância de exclusão e violência que não desejo para ninguém”, afirma.

Ao participar da frente negra na universidade anos mais tarde, Fábio passou a ter um outro olhar sobre alguns episódios da infância.

“Eu e minha irmã éramos colocados como empregados domésticos da casa. Às vezes, eu estava jogando videogame com os meus primos brancos, minha avó entrava no recinto e falava ‘Fábio, vem aqui me ajudar a varrer a área’. Mas por que só eu? E os meus primos?”

“Eu entendi a homofobia primeiro porque ela foi muito mais direta, mas o racismo sempre esteve ali. Eu só descobri isso porque comecei a ler, a entender e a conviver com a minha comunidade”, diz.





Eu entendi a homofobia primeiro porque ela foi muito mais direta, mas o racismo sempre esteve ali. Eu só descobri isso porque comecei a ler, a entender e a conviver com a minha comunidade

Para a historiadora Jamine Miranda, 33, o racismo foi sentido primeiro. Ele veio explícito na eleição de menina mais feia da sala e no formato de um bilhete, deixado em cima de sua mesa na volta do recreio: “Jamine fede a nego suado”. Ela leu, amassou e jogou fora.

“Foi muito violento, mas eu não fiz nada. Eu não quis fazer nada. Não contei para ninguém. Até porque eu não tinha a bagagem e os recursos que eu tenho hoje. Eu vejo o pessoal falando que tem saudades do tempo de ensino médio, mas eu não tenho absolutamente nenhuma saudade desse momento. Eu sofri muito racismo.”

No meio de todas essas violências simbólicas, Jamine começou a se sentir atraída por outras meninas. Mas, segundo ela, esse foi um processo interno mais complexo, marcado por dúvidas e medos relacionados à dupla discriminação que poderia sofrer.

“A questão de ser lésbica foi um negócio complicado de aceitar. Porque eu me questionava: ‘poxa, sou preta e ainda sou lésbica?’ Pensava que seria algo para sofrer duplamente.”





A questão de ser lésbica foi um negócio complicado de aceitar. Porque eu me questionava: ‘poxa, sou preta e ainda sou lésbica?’ Pensava que seria algo para sofrer duplamente

Jamine conta que foi na faculdade que conheceu um universo em que pôde se assumir, entender mais sobre questões raciais e encontrar apoio.

“Tudo o que não consegui viver na escola, vivi na faculdade. Vi outras pessoas negras assim como eu e descobri um mundo em que há opções para eu me relacionar. Foi aí que fui beijar e perder a virgindade.”

Para a historiadora, essa foi a primeira saída do armário. A segunda foi se identificar como uma lésbica caminhoneira, uma mulher que foge dos padrões clássicos de feminilidade, o que a colocou em um lugar mais invisível na comunidade LGBTQIA+ por não se encaixar nos estereótipos desejados.

“As meninas não querem namorar uma menina preta, gorda e caminhoneira.”

Noemi Machado, psicóloga com foco no atendimento à comunidade negra e LGBTQIA+, afirma que ser um negro LGBT no Brasil significa, invariavelmente, enfrentar uma dupla discriminação.

“Para muitos, o racismo chega antes que a homofobia. No caso da população negra, esse grupo é significativamente mais vulnerável ao desenvolvimento de ansiedade, depressão, sensação de exclusão e baixa autoestima. Então a soma das violências raciais e homofóbicas geram impactos psicológicos profundos”, explica.

Segundo Machado, o desequilíbrio psíquico e o sofrimento mental que acometem pessoas negras ao tomarem consciência da realidade do racismo estrutural remetem ao conceito de “afrosurto”, criado pela pesquisadora Aza Njeri.

“É quase como um surto psicológico, um mal-estar psíquico marcado pela dor e pela luta interna.”

Para a psicóloga, o letramento racial —processo de aprendizagem e compreensão crítica sobre o racismo e a identidade negra— permite que o indivíduo entenda as raízes dessas violências, e crie uma identidade positiva a partir disso.

“Com essa compreensão, a pessoa passa a dar nome às experiências dolorosas e opressoras, e a conseguir lidar melhor com as agressões sofridas. Isso ajuda a reduzir o impacto emocional negativo delas.”

O percurso de Jamine, marcado pela luta contra múltiplas formas de exclusão, a levou de volta para a sala de aula. Dessa vez, como professora.

“A infância é o chão que a gente pisa a vida inteira. Acho que todos esses episódios me levaram de volta para a escola. É uma oportunidade de mudar a ideia do que é ser negro no mundo. Somos negros, mas temos outras questões e interseccionalidades. É importante pensar a pluralidade nesses ambientes“, diz.

Ela também é criadora da página Preta Caminhão no Instagram, um espaço em que compartilha suas experiências e reflexões como mulher negra, lésbica e caminhoneira.

A infância de exclusão e violência sofrida por Fábio foi um tipo de combustível para provar sua existência e valores.

“Sempre fui motivado pela raiva. Precisei de muita terapia para entender isso. Tudo era para provar para eles que eu era o melhor em várias coisas. E acho que eu tenho me provado. É um sentimento que vai me acompanhar para sempre.”

Ele deixou de lado a carreira como arquiteto para se dedicar ao mundo digital, como influenciador, considerando essa mudança como a melhor escolha de sua vida. Mas isso não o priva de discriminação.

Nas redes, ele faz a drag Sheyla Cristina, uma arquiteta milionária, poliglota, com clientela internacional e presença VIP no mundo da elite. Fábio conta que, além da homofobia e racismo, vive um tipo de transfobia nas redes em razão da personagem, mesmo não sendo uma pessoa trans.

“Eu sou um homem performando feminilidade e encontro comentários de ódio, críticas ao meu bigode e comentários do tipo ‘nunca vi mulher assim’, tudo isso pelo fato de eu ser drag”, diz.

Segundo ele, é fundamental se aprofundar na identidade racial e sexual para minimizar os impactos sofridos pelas discriminações.

“Se você não tiver a consciência de quem você é, outras pessoas vão definir sua identidade, apontando e julgando sem nenhum discernimento, e você pode acabar acreditando. Quando você não se conhece de verdade, abre espaço para que outros digam quem você é.”



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