Os brasileiros que não conhecem a riqueza arqueológica dos sambaquis não sabem o que estão perdendo. Originalmente vistos como simples lixões de conchas, amontoados pelos indígenas do passado remoto, esses morros artificiais estão mais para protopirâmides. Ou seja, são estruturas rituais de larga escala em que os mortos das comunidades litorâneas foram sepultados, com pompa e circunstância, ao longo de milênios. E um novo estudo indica que eles também podem ter sido o palco da primeira sociedade de caçadores de baleias da história humana.
Com efeito, essa parece uma interpretação bastante plausível de uma série de artefatos identificados por arqueólogos em coleções de museu, oriundos principalmente de sambaquis do litoral de Santa Catarina e escavados entre os anos 1940 e 1960. Usando técnicas modernas de análise, eles concluíram que os objetos são peças de grandes arpões, fabricados a partir de costelas de baleia e, muito provavelmente, usados para caçar os próprios mamíferos marinhos. A idade estimada para os mais antigos é de cerca de 5.000 anos.
Os objetos, a maioria dos quais encontrados na região da baía da Babitonga e armazenados no Museu Arqueológico do Sambaqui de Joinville (SC), estão descritos em detalhes em artigo na revista especializada Nature Communications. Ainda que os arpões sejam fascinantes, eles correspondem a apenas parte da história: os arqueólogos identificaram também estatuetas (no formato de aves ou, claro, baleias), cajados, possíveis pesos para teares, discos e outros objetos feitos a partir de diferentes partes da anatomia dos grandes cetáceos.
O estudo coordenado pelo brasileiro André Carlo Colonese (hoje na Universidade Autônoma de Barcelona) combinou a análise anatômica dos restos de fauna com a de fragmentos de proteínas que sobraram nos ossos. Graças à abordagem, a equipe identificou centenas de pedaços de cetáceos nos sambaquis.
Entre esses há pelo menos quatro espécies de golfinhos, de um lado, e gigantes como cachalotes e baleias-azuis, do outro (as espécies enormes são bastante raras na amostra). Mais comuns são as jubartes e, principalmente, a baleia-franca-austral, que corresponde a cerca de metade dos ossos de cetáceos nos sambaquis analisados.
Acontece que, enquanto as outras baleias podem ter sido aproveitadas pelos nativos após encalhes, as baleias-francas frequentam a região até hoje no período reprodutivo, nadam perto da costa e são relativamente lentas, o que deve ter facilitado a captura ativa por parte de caçadores pré-industriais.
A maior parte dos fragmentos encontrados provavelmente à parte do arpão que se encaixava numa haste comprida de maneira, mas há também outro pedaço de osso com ranhuras que deve ter feito parte da ponta que perfuraria a presa.
Em resumo, é tentador imaginar que, em algum momento do passado remoto, houve ali uma cultura inteira construída em torno da simbiose com as baleias, até porque muitos desses objetos foram encontrados em contextos funerários —portanto, acompanhando seus donos na viagem (de barco?) ao Além.
Essa, claro, é a parte mais especulativa das descobertas. De qualquer modo, trata-se de um jeito bem diferente de enxergar a vida ainda misteriosa dos sambaquieiros, uma nova janela para o passado.
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Autor: Folha






