Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa —discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: “Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia…”, não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.
Mas, claro, Tom não era um linguista. As palavras em “al” são uma espécie de clichê da matéria, e ele ficaria surpreso de saber que os arabismos em português abrangem muito mais formas. Palavras como aduana, atum, azar, azeite, azul, enxoval, girafa, safári, salamaleque, sucata, sultão, xadrez, xerife e zarabatana também são. Assim como açougue, armazém, azeitona, cetim, elixir, espinafre, fulano, haxixe, laranja, limão, tabefe, talco, tarifa e zero.
Infelizmente, também não sou linguista e, antes que me perguntem de onde tirei tudo isso, informo que foi num artigo do titular de língua e literatura árabe da USP, o professor Mamede Mustafá Jarouche, na edição de fim do ano da indispensável revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, dirigida por Rosiska Darcy de Oliveira. Uma das surpresas do texto foi a palavra “caramba”, com o mesmo sentido de surpresa. Outra, a de “tomara” —do árabe “atamma-llah”, ou “se Deus quiser”.
Conhecer a formação das palavras pode abalar conceitos que acolhemos de ouvido e nem sempre têm a ver com a realidade. Como, por exemplo, ao aprender com o professor Mamede que “mulato” e “mulata” vêm de “muladi” (“muwallad”, em árabe clássico), com o sentido de mestiço, “nascituro de casamento interétnico, no caso, árabes e visigodos”. Nenhuma relação, portanto, entre “mulato” e “mula”.
Vivendo e aprendendo, já dizia o Conselheiro Acácio.
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Autor: Folha






