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Facções criminosas ampliam para crimes ambientais na Amazônia

Diz a sabedoria popular que uma desgraça dificilmente vem desacompanhada. Dando razão ao ditado, na esteira da consolidação das rotas de tráfico de drogas de países vizinhos como Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela para o Brasil através da região Amazônica ao longo da última década, as facções criminosas que atuam na região — notoriamente Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) e Família do Norte — têm expandido atuação para os lucrativos crimes ambientais.

Desmatamento de árvores de grande porte, garimpo e pesca ilegais são as atividades mais comuns dentre as exploradas pelos grupos criminosos na Amazônia, além do tráfico de entorpecentes. Com o isolamento, comunidades inteiras — de cidades de pequeno e até médio porte a vilarejos ribeirinhos e aldeias indígenas — ficam reféns dos desígnios dos grupos criminosos armados. 

Este cenário aterrador, perceptível em uma espécie de “colcha de retalhos” no noticiário aqui e ali, é traçado em extensa pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sobre violência, criminalidade e atuação de facções criminosas na região amazônica na 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia. O estudo conta com parceria do Instituto Clima e Sociedade, do Instituto Itausa, do Instituto Mãe Crioula e do Laboratório Interpretativo Laiv e foi publicado no final do ano passado.

“Com 281 mil habitantes — 54% indígenas — e forte dependência de recursos públicos, a região combina vulnerabilidade socioeconômica, isolamento geográfico e baixa presença estatal, criando condições favoráveis à atuação de facções, especialmente o Comando Vermelho, presente em seis dos nove municípios”, afirma o relatório sobre a região do Alto Solimões, território estratégico na tríplice fronteira Brasil–Peru–Colômbia.

A região é um dos principais corredores do tráfico internacional de cocaína no Brasil, devido à proximidade com áreas produtoras de folha de coca e à fronteira extremamente porosa entre Tabatinga e Letícia. A logística fluvial — marcada por rios extensos, igarapés e forte sazonalidade — potencializa a circulação ilícita e dificulta a fiscalização.

“A operação do narcotráfico combina dois ecossistemas interdependentes: o urbano, onde se concentram governança criminal, lavagem de dinheiro, microtráfico e violência cotidiana; e o fluvial-florestal, por onde circulam drogas, ouro, madeira e outros ilícitos em alto volume”, aponta do Fórum de Segurança Pública.

Ouro é moeda-chave para financiar compra de pasta-base no Peru e na Colômbia

A pesquisa revela que o narcotráfico se articula a um portfólio diversificado de crimes ambientais — garimpo ilegal, pesca predatória e extração de madeira — usados tanto para gerar recursos quanto para lavar dinheiro. O ouro é a moeda-chave para financiar a compra de pasta-base no Peru e na Colômbia, e muitas operações de garimpo são controladas ou taxadas por facções. 

“A entrada de grandes facções criminosas na Amazônia, como PCC e CV, é um movimento planejado”, afirma à Gazeta do Povo o delegado Edson Pinheiro dos Santos Júnior, diretor do Sindicato de Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), especialista no combate a facções criminosas.

“As facções estão usando a estrutura que já têm — rotas de tráfico, corredores de escape e contatos corruptos — para entrar em novos mercados ilegais, como o garimpo, a extração de madeira e a pesca predatória. Para estas organizações, trata-se de um negócio lucrativo e de baixo risco, que ainda ajuda a ‘lavar’ o dinheiro sujo do tráfico”, afirma.

O delegado explica que no campo o domínio se dá pelo controle de rios e de estradas, com cobrança de pedágios ilegais, e por alianças com madeireiros, garimpeiros e grileiros. “A corrupção de agentes públicos — como policiais, fiscais e militares — garante que a atividade ilegal siga sem fiscalização. Quem se opõe, seja líder comunitário, ambientalista ou agente do Estado, se torna alvo de intimidação e violência”, afirma ele. 

A presença de facções criminosas chega a 45% dos municípios que compõem a Amazônia Legal. Das 772 cidades da região, 344 apresentam alguma presença de facções. O aumento é de 32% em relação a 2024, quando 260 cidades amazônicas registravam a presença dos grupos criminosos. Todos os nove estados da região — Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará, Amapá, Tocantins e Maranhão — possuem facções em atividade.

“A expansão das facções criminosas constitui um dos principais desafios à segurança pública, à governança territorial e à soberania nacional na Amazônia. Observa-se, nos últimos anos, um processo de interiorização e diversificação das dinâmicas criminais, com a consolidação de rotas estratégicas para o tráfico de drogas, armas, minérios e madeira, conectando a região aos mercados nacional e internacional”, afirma o relatório executivo do estudo. 

O delegado Edson Pinheiro dos Santos Júnior também alerta que as consequências deste movimento são graves e vão além da destruição ambiental. “O crime organizado se fortalece financeiramente, usando o dinheiro da exploração ilegal para comprar armas e expandir o tráfico. Conflitos por terra se tornam mais violentos, e as fronteiras do Brasil com países vizinhos ficam mais instáveis, com facções nacionais agindo em conjunto com grupos internacionais”, diz.

Para combater este cenário, na avaliação do policial, é preciso agir de forma integrada e inteligente. “Algumas medidas essenciais são rastrear o caminho do ouro e da madeira ilegal, do interior da floresta até o mercado legal; unir as informações de polícias, de órgãos ambientais e da Receita Federal num sistema único; realizar operações de infiltração para atingir os comandantes dessas redes; e por fim proteger quem decide denunciar, quebrando a cultura do medo que impera nessas regiões.

“Somente com uma atuação coordenada e focada na estrutura financeira do crime será possível enfrentar tal ameaça, que une degradação ambiental, violência e fortalecimento do crime organizado”, afirma o delegado.

Autor: Gazeta do Povo

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