O empurrão diplomático dado pelo governo de Donald Trump para tentar acabar com a Guerra da Ucrânia segue intenso nesta terça-feira (25), com a realização da primeira reunião entre russos e ucranianos para discutir o plano do presidente americano.
O encontro, que não havia sido anunciado, está sendo comandado em Abu Dhabi pelo secretário do Exército dos Estados Unidos, Dan Discroll, que surgiu na semana passada como uma face nova na discussão sobre o conflito.
Ele é um braço-direito do vice-presidente americano, J. D. Vance, notório defensor de política pró-Rússia. Ambos estudaram juntos na Escola de Direito de Yale e são amigos pessoais. Sua presença sinaliza a Moscou que sua voz voltará a ser ouvida, após a Ucrânia reagir à primeira versão do plano.
Driscoll havia apresentado o texto, elaborado pelo americano Steve Witkoff e o russo Kirill Dmitriev, com consultoria do genro de Trump, Jared Kushner, a Volodimir Zelenski na quinta (20). A partir daí, o texto amplamente favorável a Vladimir Putin, que não o apadrinhou oficialmente e fez reparos a diversos de seus pontos, ganhou o mundo.
No domingo (23), o secretário de Estado Marco Rubio e Witkoff se reuniram em Genebra com ucranianos, e uma versão calibrada da proposta foi feita. Ela não foi divulgada na íntegra, mas em linhas gerais relatos mostram uma visão bem mais ao gosto de Kiev, evitando reconhecimento de perdas territoriais ou veto à entrada na aliança militar Otan.
A Rússia, sempre tratando o texto como americano, rechaçou as mudanças. Na segunda (24), o assessor de Putin Iuri Uchakov disse que os pontos que foram ventilados são inaceitáveis. Nesta terça, foi a vez de o chanceler Serguei Lavrov dizer o mesmo com outras palavras.
Segundo ele, a versão revisada “precisa refletir o espírito e a letra do encontro do Alasca” entre Trump e Putin, em 15 de agosto, quando o russo apresentou suas demandas maximalistas para encerrar o conflito. Qualquer outra coisa não seria aceitável.
Os países europeus aliados de Kiev, que pressionaram os EUA a aceitar a reunião na Suíça e enviaram observadores ao encontro, voltam a se reunir nesta terça por videoconferência para discutir os próximos passos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que o plano é “uma iniciativa que vai na direção correta. Mas há aspectos que precisam ser discutidos. Nós queremos a paz, mas não queremos uma paz que seja uma capitulação”, disse à rádio RTL.
Trump havia inicialmente dado até quinta (27) para Zelenski aceitar seu plano, e o fustigou repetidas vezes desde então. Mas agora o prazo foi relaxado, embora o assessor de Segurança Nacional do ucraniano, Rustem Umerov, tenha dito que o presidente poderá ir a Washington “nos próximos dias”.
Observadores da cena política do Kremlin disseram à reportagem que o presidente russo foi convencido por seus generais de que pode ter seus ganhos no campo de batalha, então todo o debate o favorece por postergar uma solução.
Na madrugada desta terça a Rússia lançou 486 mísseis e drones contra diversas regiões, incluindo quatro modelos hipersônicos Kinjal, com foco em Kiev e o porto de Odessa. Na capital, ao menos 6 pessoas morreram e 13 ficaram feridas, e um blecaute atingiu várias partes da cidade.
O Ministério da Defesa do país disse que a ação foi uma retaliação contra ataques com drones ucranianos contra o território russo. O foco foi novamente o sistema energético, com falta de luz também nas regiões de Odessa, Sumi e Dinpropetrovsk.
Ao menos dois drones violaram o espaço aéreo da Romênia ao tentar atingir o porto do Danúbio de Ismail, levando o país da Otan a mobilizar caças Eurofighter alemães lá estacionados e F-16 domésticos para interceptar as ameaças. Ninguém foi ferido.
Já os ucranianos disseram ter atingido com mísseis de cruzeiro de produção local Netuno uma refinaria em Tuapse e um terminal de embarque de petróleo no porto de Novorossisk, ambos na costa do mar Negro. Imagens de redes sociais mostraram ações frenéticas de defesa aérea na região.
Sites de monitoramento e checagem também confirmaram um ataque da Ucrânia à estratégica base aérea de Taganrog, no sul russo, com pelo menos um grande avião atingido na pista —provavelmente um modelo de transporte.





