Hytalo (nome fictício), 29, não usa preservativos. Sente que o sexo não fica tão prazeroso. “Acaba sendo tão desconfortável que eu prefiro nem transar se for com camisinha”, diz ele, que se identifica como um homem cis homossexual e preferiu preservar a sua identidade.
Ele faz parte dos 17,1% da população brasileira que afirmou usar preservativo às vezes nos 12 meses anteriores à entrevista. Outros 22,8% disseram usar em todas as relações sexuais. A maior parte dos brasileiros, 59%, disse que não usa nenhuma vez.
Os dados —os mais recentes disponíveis— são da última PNS (Pesquisa Nacional de Saúde), realizada em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar de antigos, os números, muito provavelmente, seguem a mesma tendência nos dias atuais, segundo Draurio Barreiro Neto, diretor do departamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) do Ministério da Saúde.
“Pela nossa grade de distribuição, esperávamos aumento na demanda, mas não observamos isso há dez anos. A procura nos postos de distribuição não cresce. Há estabilidade, até leve declínio. Temos percebido uma diminuição no uso, principalmente entre os mais jovens”, afirma.
Como um esforço para ampliar a adesão ao uso de preservativos, o SUS (Sistema Único de Saúde) começou a distruibuir duas novas versões em 2025, a texturizada e a ultrafina, além da versão de látex tradicional.
“Estamos tentando sensualizar o uso do preservativo. Ele é fundamental. Protege contra todas as infecções sexualmente transmissíveis e previne gravidez. É um método super eficaz que não podemos abandonar”, diz Neto.
Nos últimos três meses, foram distribuídos 138 milhões de preservativos pelo Ministério da Saúde para reforçar os estoques e atender a demanda de Carnaval. Do total, cerca de 132 milhões são externos, texturizados e ultrafinos, e 3,8 milhões são preservativos internos femininos. Nesta sexta-feira (13), vésperas do início do Carnaval, é celebrado o Dia Internacional do Preservativo, data criada para promover o uso responsável.
A queda no Brasil segue uma tendência mundial. Em 2024, a OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou o relatório “Comportamento de saúde em crianças em idade escolar”, feito em diversos países europeus, mostrando que cada vez menos adolescentes usam preservativos ou contraceptivos.
O levantamento mostrou que 30% dos adolescentes não usaram preservativos ou não estavam tomando pílulas anticoncepcionais durante a última relação sexual. Já o percentual de adolescentes que usaram preservativos durante a última relação sexual caiu de 70% para 61% entre os meninos e de 63% para 57% entre as meninas, de 2014 a 2022.
Marcas de preservativos brasileiros não estão vendo o mercado em queda, mas enxergam uma curva estável de consumo. Os esforços também miram em produtos que exploram mais a sexualidade e o prazer, numa tentativa de reconquistar os atuais clientes e atrair novos.
Uma pesquisa da marca de preservativos Durex, mostra que o Brasil ocupa o 14º lugar global no ranking de uso de preservativos, com apenas 32% dos entrevistados afirmando terem utilizado o método nos últimos 12 meses, índice inferior aos vizinhos Peru (41%) e México (33%).
“Nos últimos dois anos, o volume de vendas não mudou. No ano passado, cresceu cerca de 1%, mesmo com mais da metade dos preservativos sendo consumidos sendo distribuídos pelo governo”, afirma Mariana Bueno, diretora de marketing de saúde e bem-estar sexual da Reckitt, dona dos preservativos Jontex e Olla no Brasil.
Uma pesquisa da empresa mostra que a adesão aos preservativos cai com a idade. O uso entre os jovens de 18 a 24 anos é de 61%, número que cai para 50% entre pessoas de 25 a 34 anos e 49% entre os adultos de 35 a 39. Dos que têm de 50 a 64 anos, apenas 37% usam. Acima dos 65, somente 30%.
Bruno Dormien Koudela, vice-presidente da LifeStyles na América Latina, dona dos preservativos Blowtex e Skyn, afirma que há estabilidade no volume de vendas nos últimos três anos. Na tentativa de reverter o platô, a marca tem investido em produtos com materiais texturizado, com sabor e que oferecem uma sensação “pele com pele”.
Para Rico Vasconcelos, médico infectologista e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), a baixa adesão tem relação com o impacto na qualidade sexual. “Pacientes citam que essa camada de látex reduz intimidade, tesão e sensibilidade. Isso tem um impacto para muita gente”, afirma.
Segundo Vasconcelos, a camisinha é efetiva para prevenir ISTs e gravidez, mas depende integralmente do uso consistente, algo que nunca funcionou bem na prática.
“Achar que todo mundo vai conseguir usar a camisinha em todas as relações, sem atrapalhar vida sexual e se mantendo dessa forma bem protegida é uma utopia.”
Com ele concorda Américo Calvazara, médico infectologista da Afya São João Del Rei. Ele afirma que o preservativo não oferece o mesmo nível de proteção contra todas as infecções sexualmente transmissíveis.
“Estudos demonstram que o uso consistente reduz de forma substancial a transmissão sexual do HIV. Mas para infecções transmitidas por contato pele a pele, como HPV e herpes, a proteção é parcial, uma vez que áreas potencialmente envolvidas na transmissão nem sempre ficam totalmente cobertas”, explica.
Os infectologistas defendem uma prevenção combinada de métodos adaptada à realidade de cada um, como PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-exposição), DoxiPEP (“pílula do dia seguinte” para sífilis e clamídia), anticoncepcionais, DIU e outros contraceptivos.
“Quanto mais opções, menor o risco de alguém ficar de fora”, diz Vasconcelos.
Desde 2017, o SUS (Sistema Único de Saúde) começou a distribuir a PrEP, inicialmente para populações sob maior risco de infecção pelo HIV, com expansão gradual em todo o país a partir de 2018. Já a PEP está disponível no SUS desde 1999. Já a DoxiPEP está em avaliação para incorporação nacional no SUS, após encerramento de consulta pública em janeiro.
Em dois anos, o número de pessoas que tomam PrEP diariamente saltou de 55 mil para 150 mil, segundo o Ministério da Saúde. Outros 30 mil tomam sob demanda, esquema em que usam dois comprimidos antes da relação sexual e mais dois após, em intervalos definidos. A pasta prevê que 200 mil pessoas farão uso do medicamento até o fim de 2026.
“A PreEP é indicada para pessoas com chances relevantes de exposição. Já a PEP é uma medida de urgência indicada após risco significativo de exposição ao HIV, como relação sexual sem camisinha, rompimento do preservativo, status sorológico desconhecido ou situações de violência sexual, devendo ser iniciada o quanto antes e no máximo até 72 horas após a exposição”, afirma Calvazara.
Testagem e vacinação também entram no combo de prevenção. Para os usuários de PrEP entre 15 e 45 anos, por exemplo, a vacinação contra o HPV é indicada, bem como a vacina contra a Hepatite A e Hepatite B.
O Brasil apresentou uma queda de 13% no número de óbitos por Aids entre 2023 e 2024, registrando 9.100 mortes no último ano. O número ficou abaixo de 10 mil óbitos pela primeira vez em três décadas.
Autor: Folha








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