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Escolas de samba com poucos recursos encaram desafios – 13/02/2026 – Cotidiano

Um único barracão abriga alegorias das três últimas divisões do Carnaval do Rio de Janeiro. As séries Prata, Bronze e de Avaliação —terceira, quarta e quinta divisões — somam 64 escolas de samba, e a maioria delas (cerca de 40) realiza a montagem dos desfiles em um galpão no Campinho, zona norte.

Uma faixa na entrada do barracão avisa que é proibido fumar, ante o risco de incêndio ao redor de materiais inflamáveis, como espuma e tecidos. O uso de ferro de solda é proibido depois das 22h, pois a falta de visibilidade à noite pode causar um acidente.

São tentativas de conter riscos comuns aos profissionais da folia, especialmente os que trabalham em agremiações com pouca estrutura. Nos últimos 15 anos, ao menos oito incêndios atingiram barracões e confecções do Carnaval, em acidentes de diferentes proporções.

Três dos incêndios [em 2011, 2020 e 2026] foram na Cidade do Samba, espaço de montagem dos desfiles das escolas do Grupo Especial. O caso mais recente foi um princípio de incêndio ocorrido nesta quarta-feira (11) no barracão da Grande Rio. O fogo começou em uma escultura e foi controlado em minutos, sem prejuízo material à escola e sem feridos.

Os outros foram em barracões espalhados pelo centro e zona portuária.

O caso mais grave deste ano atingiu a Unidos do Jacarezinho, vítima de dois incêndios, o primeiro em outubro, no barracão, e o segundo no último dia (5), na quadra. De acordo com a escola, o novo acidente resultou na perda de fantasias de 12 das 17 alas.

Em publicação nas redes sociais, a escola fez apelo ao prefeito Eduardo Paes (PSD) para melhores condições.

“Foram 12 anos de espera para voltar a pisar no solo sagrado da Marquês de Sapucaí [apenas as primeiras divisões desfilam no local] . No trajeto até aqui fomos acometidos por dois incêndios”, diz a nota da escola. “A Unidos do Jacarezinho hoje não possui condições igualitárias com as suas co-irmãs de disputar esse campeonato tão almejado”.

Há um ano, uma fábrica de confecção de roupas em Ramos, subúrbio da Leopoldina, pegou fogo a menos de um mês para o Carnaval. Profissionais que faziam jornada noturna dormiam dentro do prédio e tiveram dificuldade em sair. Vinte e um foram levados ao hospital, e um deles morreu após dias internado.

A perícia inicial constatou ligações clandestinas de energia. Fantasias das escolas de samba Império Serrano, Unidos de Bangu e Unidos da Ponte eram produzidas no local e foram perdidas. Elas desfilaram em 2025 como hors concours, sem competir.

Depois do acidente, Paes disse que ia pedir celeridade nas obras na chamada Cidade do Samba 2, espaço que vai abrigar os barracões das escolas da Série Ouro, a segunda divisão.

O galpão ficará dentro da antiga estação Leopoldina, em obras.

Em nota, a prefeitura disse que estuda um cronograma de entregas parciais dos galpões a partir do segundo semestre deste ano. A previsão é de que o espaço tenha 14 barracões, cada um deles com 1.600 metros quadrados. O térreo funcionará como garagem para até quatro alegorias por escola, e o plano é ter oficinas de pintura e resinagem, ateliês e costura e depósito de fantasias.

Ainda segundo a nota, o espaço vai ter ventilação e luz naturais, e instalação de placas fotovoltaicas.

O barracão dos últimos grupos é privado e alugado em cotas entre os presidentes das escolas. O galpão tem teto, o que é vantagem em relação a outros barracões de escolas que disputam a Série Ouro. Muitos ficam expostos ao sol e chuva e não possuem ligações regulares de energia.

“Não podemos deixar a luz ligada, porque como são muitas escolas, há muitas máquinas trabalhando simultaneamente e pode dar problema”, afirma Jorge Knnawer, 42, carnavalesco do Império da Tijuca.

Além dos desafios de estrutura, carnavalescos reclamam da demora nos repasses públicos às escolas. No dia em que a Folha visitou o barracão do Império da Tijuca, Knnawer voltava da compras de materiais para fantasias. Nada do que comprou estava no planejamento.

As compras são feitas em lojas de aviamento e adereços também disputada por carnavalescos de divisões superiores.

“Quando a gente chega na loja, as outras escolas já pegaram os melhores tecidos. O repasse do Especial é muito maior, mas o tecido é vendido da mesma forma e no mesmo valor. É injusto porque aqui precisamos reciclar tudo, do carro ao retalho”, afirma o carnavalesco.

Profissionais do Carnaval afirmam que os repasses públicos chegam a um mês do Carnaval, e os preparativos para um desfile de escola de samba começam seis meses antes, pelo menos. Nas agremiações menores, a montagem do desfile é custeada com dinheiro de doações de amigos e comerciantes da região, além do empréstimo de material por outras agremiações.

Fundado em 1940, antes do Império Serrano, o Império da Tijuca desfilou em 2014 no Especial, e no ano passado caiu do acesso para a terceira liga. A agremiação recebe aportes da prefeitura e do governo estadual. O dinheiro, na prática, serve para quitar dívidas feitas nos meses anteriores. A prefeitura iniciou repasses às escolas no dia 7 de janeiro.

“Para colocar 700 componentes vestidos com boas fantasias, além de dois carros alegóricos e dois tripés [elementos alegóricos menores], você tem que começar o trabalho bem antes.”

Sem vínculo trabalhista formal, e muitos sem CNPJ, profissionais trabalham por empreitada em três, quatro e até cinco escolas. A poucas semanas do Carnaval, esticam em turnos que atravessam a madrugada. Era o caso das vítimas do incêndio na fábrica de confecções, no ano passado.

Rafael Marques, 42, trabalha com decoração e pintura para três agremiações. Sem MEI (Microempreendedor Individual), vive de acordos verbais.

“Faço o orçamento e a escola decide se aceita. Já tomei calote, mas hoje sei quem paga, e quem não paga. Não existe um sindicato de trabalhadores do Carnaval, e trabalhamos o ano todo, mas não nos enxergam. Carnavalescos e presidentes aparecem, mas quem está nos bastidores não é visto.”

Autor: Folha

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