Prestadores de serviço de uma das maiores agências de influência digital do país, a Mynd, negociaram a publicação, em páginas de fofoca nas redes sociais, de conteúdos favoráveis ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e críticos ao Banco Central.
A Mynd afirma que não teve relação com essas negociações e que seus prestadores de serviço não trabalham exclusivamente para a agência. O Governo de São Paulo, por sua vez, diz que não houve qualquer investimento público nas publicações.
Mensagens obtidas pela Folha mostram que Kamilla Cunegundes, 30, relações públicas que atua como representante da Mynd junto a páginas de fofoca nas redes, procurou uma delas para orçar a divulgação de conteúdos pró-governador no fim do ano passado.
Em uma das conversas, Kamilla escreveu ao dono de uma página: “Eles querem orçar 4 feeds (1 por semana). Me passa seus valores?”. Antes disso, havia enviado imagens e links como referência para as publicações desejadas.
Entre os materiais encaminhados estavam uma foto de Tarcísio acompanhada de texto sobre a redução de roubos e assassinatos no estado, além de uma notícia sobre pesquisa segundo a qual o governador teria rejeição menor que a do presidente Lula (PT) e a de integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Também foi enviado um link sobre a aprovação de um projeto de lei apresentado pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).
Uma das tentativas de negociação ocorreu em 29 de outubro. O dono do perfil abordado encaminhou o pedido de Kamilla à agência que o gerencia, e um representante solicitou a ela a identificação do anunciante, citando regras internas de compliance.
Kamilla não respondeu, afirmando que havia apenas feito a “ponte” para um cliente. “Por aqui a gente acaba não fazendo, mas lembrei que talvez ele [o dono da página] fosse topar, aí indiquei”, escreveu.
No mês passado, a revista piauí revelou que uma empresa chamada Submarino Lab havia orçado publicações favoráveis a Tarcísio. A Folha obteve prints que confirmam essas negociações e mostram ainda uma sondagem de valores para a divulgação de críticas ao Banco Central.
A empresa foi fundada em dezembro e se apresenta como agência de publicidade, tendo como única sócia formal Vanessa Aparecida Ribeiro Soares. Em reclamação trabalhista apresentada em 2023, Vanessa afirma ter trabalhado como recepcionista, com salário de cerca de R$ 2.000, em jornada 6×1.
A Folha levantou a certidão de registro do imóvel e identificou que ele foi alugado no fim do ano passado por Artur Moreno Martins. Vanessa aparece como uma das moradoras, assim como familiares dele.
Artur é dono da Fofoquei, uma das maiores páginas de fofoca do país, com 7,5 milhões de seguidores, negócio que toca com seu companheiro, Radamés Barbosa Silva, conhecido nas redes como Radamés Keller. Eles atuam na mesma equipe de Kamilla Cunegundes, prestando serviços para a Mynd.
A agência recebe demandas do mercado publicitário e as repassa à empresa Deu Buzz, aberta por Artur e Radamés, responsável por intermediar a veiculação de conteúdos em perfis de entretenimento e fofoca.
No fim do ano passado, publicações sobre a inauguração de trecho do Rodoanel, uma das principais bandeiras da gestão Tarcísio, passaram a aparecer com frequência no feed dessas páginas, ao lado de postagens sobre subcelebridades.
Já as críticas ao Banco Central se intensificaram durante a crise envolvendo o Banco Master, o que levou à abertura de um procedimento na Polícia Federal.
Parte das contas que publicaram conteúdos positivos sobre o governador aparece em um mapeamento incluído em relatório da PF, no âmbito da investigação conhecida como “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A apuração investiga indícios de mobilização coordenada nas redes sociais contra o Banco Central durante o processo de liquidação da instituição financeira
O Código de Defesa do Consumidor exige que conteúdos publicitários nas redes sociais sejam identificados como tal, o que não ocorreu nos posts analisados pela reportagem. Advogados eleitorais ouvidos pela Folha afirmam que, a depender da extensão e da gravidade dos fatos e de seu potencial de desequilibrar a disputa de 2026, a Justiça Eleitoral pode avaliar se o caso configura abuso de poder econômico.
A reportagem tentou contato com Kamilla Cunegundes, Artur Moreno e Radamés Keller por telefone, WhatsApp, email e por meio de advogados, mas não obteve resposta.
No fim do ano passado, o governo paulista firmou contrato de R$ 19 milhões com a agência Jotacom, braço da FSB Comunicações, para ações em mídias digitais e monitoramento de influenciadores.
Em nota, o Governo de São Paulo disse que “não houve qualquer investimento público, direto ou indireto, nas publicações mencionadas”. “A gestão estadual realiza apenas campanhas institucionais e de utilidade pública, sempre com o objetivo de dar transparência às ações da gestão e divulgar informações de interesse público.”
O governador não é o único nome da direita que tem aparecido nesses perfis. Há também publicações favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, e ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
“Flávio Bolsonaro deve derrotar Lula de forma histórica em 2026”, afirmou publicação da Babadeira, em conjunto com a página Notícias, distorcendo levantamento do Paraná Pesquisas. “Em família! Deputado Nikolas Ferreira reencontra as filhas após dias fora de casa”, escreveu a Alfinetei, em publicação com fotos do parlamentar sorrindo ao lado da família.
Nas últimas semanas, a Fofoquei também fez publicações positivas para o governo federal. A maioria das vezes em que Lula aparece nessas páginas, porém, é sob um viés crítico.
Em nota, Flávio afirmou que não mantém relacionamento com esses perfis e que não sabe o que motivou as publicações. Nikolas disse, por meio de sua assessoria, que não houve qualquer pagamento e que desconhece negociações.
Também em nota, o governo federal declarou que não realizou pagamentos relacionados aos conteúdos citados na reportagem.
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Mynd afirmou que “jamais atuou em campanhas eleitorais e atua exclusivamente em campanhas publicitárias, seguindo sempre todas as regras estabelecidas pelo Conar [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária]”.
“A Mynd possui mais de 15 mil fornecedores cadastrados, entre eles Deu Buzz e Kamilla Conegundes, sem contrato de exclusividade. A Mynd desconhece os fatos mencionados e iniciou uma apuração sobre a conduta dos prestadores de serviço citados”, diz o texto.
Algumas das sondagens feitas por representantes ligados à Mynd foram para perfis gerenciados por outra agência do setor, a Banca Digital.
A empresa afirma possuir uma equipe para monitorar os perfis que agencia e que está elaborando uma cartilha eleitoral “para o estabelecimento de critérios mínimos de atuação de influenciadores durante o período eleitoral, com foco em responsabilidade editorial e integridade da informação”.
Colaborou José Marques, de Brasília
Autor: Folha








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