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Como Wall Street virou as costas para o clima – 17/01/2026 – Economia

Em janeiro de 2020, Larry Fink, diretor executivo da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, surpreendeu o mundo dos negócios ao declarar que pretendia usar os trilhões de dólares administrados por sua empresa para enfrentar o aquecimento global.

“Cada governo, empresa e acionista deve enfrentar as mudanças climáticas”, escreveu Fink, pedindo “uma reformulação fundamental das finanças”.

Alguns dias depois, Fink chegou a Davos, na Suíça, para o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, usando um cachecol com um design das “listras de aquecimento”, um padrão que representa 150 anos de aumento das temperaturas globais.

O apelo apaixonado de Fink para enfrentar as mudanças climáticas foi o início não oficial de um movimento. Logo, quase todas as principais instituições financeiras estavam se comprometendo a reduzir emissões, aderindo a alianças nobres projetadas para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e prometendo apoiar energia limpa.

Fatores ambientais, sociais e de governança, conhecidos como ESG, se tornaram uma característica definidora dos investimentos de Wall Street.

Mas seis anos depois, muitas dessas instituições de Wall Street recuaram ou abandonaram seus compromissos.

As alianças —como a Net-Zero Banking Alliance e a Net-Zero Asset Managers— que deveriam direcionar investimentos para energia limpa e afastá-los dos combustíveis fósseis praticamente se desfizeram. Investidores retiraram dezenas de bilhões de dólares a cada trimestre dos fundos ESG.

Embora o investimento dos Estados Unidos em energia limpa tenha crescido nos últimos anos —atingindo US$ 279 bilhões no ano passado— muitas grandes corporações silenciaram sobre as mudanças climáticas. Nas teleconferências de resultados das empresas, menções a palavras como clima e sustentabilidade caíram 75% no último ano, segundo análise da Bloomberg.

E com o presidente Donald Trump de volta ao cargo e usando a presidência para promover combustíveis fósseis e atacar a indústria de energia limpa, o recuo de Wall Street da ação climática coincidiu com os bancos americanos redobrando seus investimentos em projetos de carvão, petróleo e gás.

Essas dinâmicas estarão em plena exibição na próxima semana, quando Fink, agora copresidente do Fórum Econômico Mundial, receber Trump em Davos, onde as questões climáticas cederam lugar à inteligência artificial e à geopolítica.

A história de como Wall Street virou as costas para as mudanças climáticas começou quase assim que Fink e seus aliados anunciaram suas ambições de usar o capitalismo como ferramenta para salvar o planeta.

Políticos republicanos se uniram a ativistas conservadores, incluindo grupos financiados pela indústria de combustíveis fósseis, para organizar uma ampla reação ao que viam como uma tentativa do setor empresarial americano de promover políticas liberais.

Suas táticas envolveram entrar com processos judiciais, aprovar leis, retirar fundos de contas de Wall Street e usar as redes sociais para manchar a reputação de executivos individuais, incluindo Fink.

Em pouco tempo, seus esforços conseguiram derrotar um movimento ambiental em Wall Street, que desde seu início foi definido mais por uma retórica idealista do que por mudanças substantivas nas práticas de negócios.

“Essas instituições aderiram sem ter a menor ideia do que estavam assinando”, disse Paddy McCully, analista da Reclaim Finance, uma organização sem fins lucrativos que pressiona Wall Street a enfrentar as mudanças climáticas. “Eles estavam seguindo o rebanho e queriam parecer bem, mas nunca tiveram qualquer inclinação para mudar seu modelo de negócios.”

A ASCENSÃO DO ESG

Foi o dinheiro, mais do que qualquer outra coisa, que fez Wall Street se importar com as mudanças climáticas em primeiro lugar.

Em 2019, muitos dos maiores clientes da BlackRock, incluindo importantes fundos soberanos japoneses e europeus e fundos de pensão, começaram a pedir mais fundos com foco ambiental. Se a BlackRock criasse produtos que prometessem beneficiar o planeta, fundos de pensão e fundos soberanos disseram que confiariam à empresa ainda mais de seu dinheiro.

Fink atendeu. A BlackRock começou a desenvolver novos fundos ambientais e logo ele estava em Davos, usando o cachecol climático.

“Larry decidiu ser um líder na tendência”, disse Mindy Lubber, diretora executiva da Ceres, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com empresas para enfrentar as mudanças climáticas. “Funcionou até deixar de funcionar.”

Outros titãs de Wall Street rapidamente seguiram o exemplo da BlackRock.

Todos os principais bancos americanos disseram que não financiariam mais perfurações no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico.

O JPMorgan disse que estava “adotando um compromisso de financiamento alinhado aos objetivos do Acordo de Paris”, o acordo de 2015 assinado pela maioria dos países da Terra para tentar manter o aquecimento global abaixo de 1,5º Celsius.

Era um compromisso da moda, e o movimento logo passou a abranger tudo, desde investimentos em pacotes de ações ambientalmente amigáveis até empréstimos para empresas de energia limpa e redução das emissões de carbono corporativas.

Mas, na prática, atingir as metas estabelecidas no Acordo de Paris significaria promover uma rápida mudança mundial dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpa como eólica e solar.

Para um banco como o JPMorgan, que regularmente figura como o maior financiador americano de projetos de combustíveis fósseis, isso significaria reduzir rapidamente uma linha de negócios lucrativa. O JPMorgan não respondeu a um pedido de comentário.

Sentindo o momento, Fink foi ainda mais ambicioso em sua carta anual aos investidores de 2021. Nela, ele prometeu relatar o impacto climático de todos os fundos da BlackRock, criar produtos de sustentabilidade personalizados, produzir novas formas de medir o risco climático e usar o poder de voto das participações de sua empresa para pressionar as empresas a enfrentarem as mudanças climáticas.

Nos meses seguintes, JPMorgan, Citigroup e Bank of America coletivamente se comprometeram a destinar US$ 5 trilhões em financiamento sustentável até 2030 por meio de empréstimos e investimentos.

As ambições continuaram crescendo na cúpula anual do clima das Nações Unidas em 2021. Conhecida como COP26, o evento em Glasgow, Escócia, seria o primeiro encontro desse tipo desde a pandemia, e seus organizadores queriam algo concreto para mostrar por seus esforços.

Mark Carney, que na época acabara de deixar o cargo de governador do Banco da Inglaterra e agora é primeiro-ministro do Canadá, foi trazido para convocar um novo grupo apoiado pela ONU que incentivaria o setor privado a reduzir as emissões.

O resultado foi a Aliança Financeira de Glasgow para o Net Zero, que disse que aproveitaria o poder coletivo de seus membros —cerca de US$ 130 trilhões em ativos— para tentar deter o aquecimento global.

Mais de 450 grupos financeiros, incluindo BlackRock, Bank of America e Citi, aderiram. Além do grupo principal, a aliança passou a abranger um punhado de associações específicas do setor, incluindo a Net-Zero Banking Alliance, a iniciativa Net-Zero Asset Managers e a Net-Zero Asset Owners Alliance.

Essas alianças eram uma forma de as empresas financeiras sinalizarem seu apoio à meta altamente ambiciosa de eliminar novas emissões que aquecem o planeta até 2050. E aderir era fácil, exigindo pouco mais do que uma expressão de boas intenções. Sem expectativas de que bancos ou investidores precisassem mudar seus modelos de negócios, as empresas aderiram às alianças em massa.

Ao convencer executivos financeiros de que deveriam se juntar aos grupos, Carney e seus aliados enfatizaram a chance de gerar lucros.

“Mark Carney apresentou isso como uma oportunidade de ganhar dinheiro”, disse Evan Guy, ex-conselheiro da aliança. “Havia trilhões a serem ganhos.” Carney não respondeu a um pedido de comentário.

Celebrando o lançamento da aliança bancária, John Kerry, então enviado presidencial especial dos EUA para o clima, disse: “Os maiores players financeiros do mundo reconhecem que a transição energética representa uma vasta oportunidade comercial, além de um imperativo planetário.”

No entanto, mesmo enquanto as empresas de Wall Street corriam para promover suas credenciais climáticas, alguns executivos estavam céticos em relação aos novos produtos.

Terrence Keeley, um alto executivo da BlackRock que supervisionava fundos soberanos, pensões e bancos centrais na época, estava entre os dissidentes mais vocais.

“Todos esses fundos ESG estão errados”, disse Keeley, que deixou a BlackRock em 2022 e agora administra uma empresa de investimento de impacto. “Eles não iriam gerar melhores retornos. Eles não vão tornar o mundo um lugar melhor. O ESG como tese de investimento deveria ser completamente encerrado.”

Keeley disse que, mesmo enquanto a BlackRock promovia fundos ESG, ele estava dizendo aos seus próprios clientes que não deveriam investir neles.

A dissidência interna mal importava. Fink havia entregado o que alguns clientes haviam pedido e, ao lado de Carney, havia desencadeado um movimento global.

Tudo isso resultou em um ano de sucesso para a BlackRock, que atraiu quase US$ 25 bilhões em novos ativos para seus fundos ESG em 2021.

REAÇÃO

No mesmo dia em que executivos em Glasgow promoviam seus planos de usar Wall Street como uma força para o bem, um grupo de tesoureiros estaduais republicanos estava reunido em Orlando, Flórida, fazendo planos para detê-los.

Os tesoureiros, parte de um grupo chamado State Financial Officers Foundation, discutiram maneiras de impedir que os ativos de seus estados fossem usados para apoiar o meio ambiente.

Em questão de meses, tesoureiros estaduais republicanos retiraram mais de US$ 1 bilhão de fundos da BlackRock. Políticos conservadores e comentaristas da mídia começaram a pressionar Wall Street para se distanciar da causa climática.

Apoiando esses esforços estavam organizações de pesquisa de tendência conservadora como a Heritage Foundation e o Heartland Institute, grandes financiadores e operadores conservadores, incluindo os irmãos Koch e Leonard Leo, bem como grupos comerciais de combustíveis fósseis, incluindo o American Petroleum Institute.

À medida que a oposição conservadora aumentava, as empresas financeiras se viram expostas a responsabilidades legais inesperadas.

Em 2022, um grupo apoiado pela ONU chamado Race to Zero, que era parceiro da aliança de Glasgow, atualizou suas expectativas sobre o que as empresas participantes realmente fariam. Entre as mudanças estava uma nova linguagem que pressionava as instituições financeiras a parar de fazer negócios com empresas de carvão.

Isso acendeu sinais de alerta em Wall Street, e os conservadores aproveitaram a oportunidade. Apenas um mês após a atualização, um grupo de ativistas republicanos se reuniu em um encontro do American Legislative Exchange Council em Atlanta e discutiu como poderiam processar empresas participantes da aliança com ações antitruste.

Críticos também acusaram empresas que seguiam estratégias ESG de negligenciar seu dever de maximizar lucros para os acionistas.

Respondendo às preocupações das empresas financeiras, a aliança de Glasgow rompeu seus laços com o Race to Zero no final de 2022. Mas o dano já estava feito.

Legislaturas republicanas em todo o país introduziram mais de 100 projetos de lei para penalizar empresas financeiras que apoiavam práticas ESG. Tesoureiros estaduais republicanos em todo o país começaram a retirar dinheiro da BlackRock.

Até o final do ano, legisladores conservadores no Texas haviam aberto investigações contra a BlackRock e outras empresas de Wall Street por seus compromissos climáticos e práticas ESG, e republicanos no Congresso haviam intimado a aliança de Glasgow, BlackRock e State Street.

COLAPSO

Após a reeleição do presidente Trump em novembro de 2024, quase todos os principais bancos e instituições financeiras americanas se retiraram da Net-Zero Banking Alliance, causando o colapso do grupo.

Em seguida, grandes bancos e instituições financeiras se retiraram da iniciativa Net Zero Asset Managers. Dias depois, a iniciativa disse que estava “suspendendo atividades”. O grupo agora diz que será relançado este ano.

O Bank of America, que havia dito que pararia de financiar carvão e se absteria de financiar perfuração no Ártico, recuou nesses compromissos. A empresa se recusou a comentar.

E a BlackRock reduziu drasticamente seu apoio a propostas de acionistas sociais e ambientais.
Em um comunicado, Chris Berger, porta-voz da BlackRock, disse que a empresa construiu a maior plataforma do setor para investir em práticas empresariais sustentáveis e na transição energética, com mais de US$ 1 trilhão em ativos sob gestão.

Mas na carta mais recente de Fink aos investidores, não havia menção às mudanças climáticas. Em vez disso, ele enfatizou a necessidade de “pragmatismo energético”.

“Foi um monte de promessas vazias de um monte de tipos de Wall Street que abandonaram seus compromissos quando não era mais conveniente”, disse um ex-executivo da BlackRock que pediu anonimato para falar livremente sobre seu ex-empregador. “Marchamos colina acima e marchamos de volta para baixo.”

Autor: Folha

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