Em uma cadeia de montanhas no centro de Minas Gerais, plantas que não existem em nenhum outro lugar do mundo sobreviveram a milhões de anos. A Serra do Cipó, parte da Serra do Espinhaço, reúne um dos maiores níveis de endemismo vegetal — quando uma espécie existe apenas em uma área específica do planeta — do Brasil.
A região abrange áreas dos municípios de Congonhas do Norte e Santana do Pirapama, ao norte; Conceição do Mato Dentro, Jaboticatubas e Santana do Riacho, no centro-sul; Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro, a leste; além de Nova União e Taquaraçu de Minas, ao sul.
O território é protegido pelo Parque Nacional da Serra do Cipó. A Unidade de Conservação (UC) federal criada em 1984, é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O parque e a Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira somam campos rupestres e matas, além de rios, cachoeiras, cânions, cavernas e sítios arqueológicos. É nesse conjunto de ambientes que se concentra uma flora altamente especializada e, em muitos casos, restrita a pequenas áreas da serra.
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O que favorece o surgimento de espécies únicas?
De acordo com o professor e pesquisador do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Projeto Flora da Serra do Cipó, José Rubens Pirani, o alto número de espécies exclusivas está diretamente ligado ao isolamento típico de ambientes montanos.
“Em geral abrigam muitas espécies endêmicas por serem isoladas no topo de elevações. Esse isolamento, ao longo de milhares e milhões de anos, reduz o fluxo gênico entre populações. Isso favorece o acúmulo de diferenças genéticas e morfológicas, levando à formação de novas espécies”, explica.
Segundo o pesquisador, esse processo é ainda mais intenso em regiões tropicais. As montanhas tropicais, como os campos rupestres da Serra do Cipó, apresentam uma flora notoriamente mais rica em espécies do que cadeias montanhosas de regiões extra-tropicais.

Solo extremo e pressões seletivas
As condições ambientais da Serra do Cipó ajudam a explicar como essa biodiversidade se formou. De acordo com Pirani, os campos rupestres se desenvolvem sobre solos arenosos e pedregosos, rasos, ácidos e pobres em nutrientes, frequentemente associados a afloramentos rochosos expostos.
“Esses ambientes estão sujeitos a intensa radiação solar, inclusive ultravioleta. Isso impõe fortes pressões seletivas às plantas”, afirma. Segundo ele, essas condições resultam em taxas de especiação — medidas que indicam com que rapidez novas espécies surgem — do que em outros ambientes, como florestas ou cerrados mais típicos.
O clima também exerce influência decisiva. Embora seja tropical, a região enfrenta uma estação seca de três a quatro meses. No entanto, devido à altitude, é comum a formação de neblina durante a noite. “Muitas plantas do campo rupestre aproveitam essa umidade na época sem chuvas”, explica.

A própria configuração geológica da Serra do Cipó contribui para o isolamento. Situada no setor meridional da Cadeia do Espinhaço, a serra é mais estreita e apresenta superfícies intensamente erodidas ao longo do tempo geológico. Segundo Pirani, isso resultou em um relevo mais acidentado do que áreas como o Planalto de Diamantina, favorecendo ainda mais o isolamento das populações vegetais.
Estudos recentes indicam que a maioria das espécies dos campos rupestres surgiu nos últimos 4 milhões de anos. Em alguns grupos, porém, o processo é mais antigo. “Em famílias como a Velloziaceae, o surgimento das linhagens se estendeu por mais de 25 milhões de anos”, afirma o pesquisador.
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Espécies raras simbolizam a Serra do Cipó
De acordo com Pirani, entre os grupos mais emblemáticos da flora local estão as canelas-de-ema, da família Velloziaceae, e as sempre-vivas, da família Eriocaulaceae. O pesquisador explica que essas plantas apresentam morfologia muito peculiar e têm seu principal centro de diversidade nas montanhas do centro de Minas Gerais e da Bahia. “O número de espécies endêmicas é especialmente alto na Serra do Cipó”, destaca.
Apesar da proteção legal, as espécies endêmicas da Serra do Cipó enfrentam ameaças constantes. Conforme Pirani, o uso dos terrenos para pastagem, a mineração extensiva, as queimadas e o aquecimento climático representam riscos diretos à sobrevivência dessa flora altamente especializada.
A extinção dessas espécies teria consequências profundas. “Perde-se uma diversidade genética e morfológica muito restrita e ainda pouco estudada”, alerta. Segundo ele, a perda também afeta a fauna associada, uma vez que polinizadores dependem das flores como fonte de néctar e pólen, além de frutos e sementes.
“Além disso, perdem-se oportunidades de obtenção de novos fármacos, fibras, óleos, resinas e outros produtos potencialmente úteis, antes mesmo que essas plantas tenham sido devidamente estudadas”, afirma.
Grande parte do conhecimento acumulado sobre a região vem do Projeto “Flora da Serra do Cipó”, iniciado em 1972 pelo botânico Aylthon Brandão Joly. Motivado pela riqueza da flora e pela singularidade da paisagem, o projeto resultou na primeira publicação de cunho geral em 1987, com uma listagem preliminar de cerca de 1,6 mil espécies.
O projeto reúne pesquisadores, estagiários e pós-graduandos de instituições brasileiras e internacionais. Os estudos incluem levantamentos florísticos, pesquisas anatômicas, ecológicas, quimiotaxonômicas e faunísticas, além da formação de novos especialistas em taxonomia.
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Turismo de natureza em um território estratégico
Além da relevância científica, a Serra do Cipó tornou-se um território estratégico para o turismo de natureza em Minas Gerais. Conhecida como o “Jardim do Brasil”, a região integra a Cordilheira do Espinhaço, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera.
Reúne alta biodiversidade, paisagens singulares e extensas áreas protegidas. De acordo com a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, esse conjunto de atributos consolidou a serra como um dos principais destinos de ecoturismo do estado.
Cachoeiras, rios de águas transparentes, trilhas, campos rupestres e paredões rochosos atraem visitantes interessados em caminhadas, ciclismo, escalada, canoagem e observação de aves. A visitação ocorre, em grande parte, dentro de unidades de conservação e áreas com regras específicas de uso, com estímulo a experiências guiadas e de baixo impacto, o que contribui para reduzir pressões sobre ambientes sensíveis.
No último ano, o Parque Nacional da Serra do Cipó e o Parque Natural Municipal do Tabuleiro receberam cerca de 100 mil visitantes. O fluxo é acompanhado por ações de gestão compartilhada entre o estado, os municípios e as unidades de conservação.
Rotas estimulam o turismo na Serra do Cipó
Nos últimos anos, a estruturação do turismo na região ganhou impulso com políticas públicas voltadas à sustentabilidade. Lançado em 2024, o Plano Diretor do Turismo Verde estabelece diretrizes para conciliar a promoção turística com a preservação de campos rupestres e espécies endêmicas.
De acordo com a secretaria estadual, entre as ações previstas estão a definição da capacidade de carga dos atrativos, o uso de dados e tecnologia para controle de acesso e a valorização de um perfil de visitante interessado na conservação e no turismo regenerativo. Nesse contexto, surgiram iniciativas como as Rotas do Cipó, resultado de uma parceria entre o governo estadual, o Sebrae Minas e empreendedores locais.
O projeto reúne 30 experiências distribuídas entre Jaboticatubas e Santana do Riacho e organiza a visitação em três vertentes. Uma delas é a “Rota Jardim”, voltada à contemplação da biodiversidade.
A “Rota Fôlego” é dedicada a esportes e ecoturismo;e a “Rota Origens” conecta cultura, história e ancestralidade da ocupação humana na serra. Outras iniciativas ampliam essa lógica de integração territorial, como a Estrada Cênica da Cordilheira do Espinhaço. Ela conecta atrativos naturais, históricos e culturais de 11 municípios ao longo da rodovia MG-010, além de investimentos diretos no fortalecimento da governança regional.
Nas ações de promoção turística, os órgãos responsáveis apresentam a biodiversidade da Serra do Cipó como patrimônio natural central do destino, reforçando a imagem da região como referência nacional em turismo de natureza qualificado.
Autor: Gazeta do Povo






