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Etanol de 2ª geração é aposta para transição energética – 28/11/2025 – Seminários Folha

Com matriz de geração limpa, o Brasil tem características únicas na corrida pela transição energética. Uma das tecnologias promissoras é o etanol de segunda geração, o E2G, produzido a partir de resíduos da cana-de-açúcar.

A questão, assim como no caso de outras vantagens competitivas nacionais, é como garantir ao país a liderança global desse processo sem perder terreno e, consequentemente, receita, para outros países.

Esses pontos tiveram destaque no seminário Mudanças Climática e Transição Energética, promovido pela Folha na última quarta-feira (26), com apoio do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Além de discutir maneiras de diversificar e modernizar a geração de energia, o evento teve foco também em como acelerar o processo e transformar pesquisa em uma cadeia que retroalimente a busca por uma transformação ecológica e uma “indústria verde”.

José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, abriu o evento cravando que o Brasil tem todos os requisitos para liderar a agenda da transição energética.

Para tanto, Gordon mencionou o Fundo do Clima, que pode chegar a R$ 18 bilhões em recursos, em 2026, para apoiar uma indústria mais verde e a descarbonização do setor industrial.

“O etanol, o biocombustível, é a bola da vez para poder descarbonizar a aviação, descarbonizar o setor marítimo. É o mais rápido, é o mais fácil, com menor custo e com menor impacto de mudança”, exemplificou.

Com mediação do repórter especial Fernando Canzian, três debatedores trataram do assunto no primeiro painel. Artur Yabe Milanez, gerente setorial no Departamento do Complexo Alimentar e Biocombustíveis do BNDES, juntou-se à diretora de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Euler, e à professora titular e diretora da Coppe/UFRJ, Suzana Kahn.

Sob o tema “Pesquisa e produção de etanol”, a conversa tratou primordialmente do etanol de segunda geração.

Suzana Kahn destacou o aumento mundial da demanda por energia e disse que o desenvolvimento de biocombustíveis não deve ser visto como uma ameaça à produção de combustíveis fósseis, mas sim como tecnologia complementar.

“Não é colocar um versus o outro. São combustíveis que podem se complementar. O próprio biocombustível pode dar origem também ao uso de hidrogênio, uma outra possibilidade que vai fazer parte de todo esse cardápio energético de que a gente vai precisar”, explicou.

Ana Euler, da Embrapa, reforçou a liderança do Brasil na produção do etanol convencional, pontuando que o país tem possibilidade de assumir o mesmo posto quanto ao de segunda geração.

“O etanol de segunda geração é produzido dentro de uma ideia economia circular, já que são aproveitados o bagaço e os resíduos da cana. E tem mais eficiência energética, inclusive, para geração desse combustível. A grande oportunidade que vemos disso é exatamente o fato de ser uma segunda safra para a mesma área produzida.”

Euler também falou dos esforços do governo para recuperar 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, que poderão ser utilizadas para o cultivo de matéria-prima para geração de biocombustível.

Por meio do programa “Caminho Verde”, a Embrapa mapeou áreas com alta, média e baixa aptidão para os diferentes cultivos a partir de uma política de zoneamento de risco climático.

“Existe não só a capacidade de dobrar a produção de etanol hoje nos cerca de 8 milhões de hectares já plantados de cana, que é de 30 bilhões de litros, mas é também possível aumentar a produção anual sem pressão sobre as áreas, muito pelo contrário, só trabalhando ganhos tecnológicos de eficiência”, disse.

Segundo ela, a Embrapa vem diversificando os produtos geradores do etanol de primeira e segunda geração, como, por exemplo, o capim elefante, o sorgo e o eucalipto. A variedade de consórcios e cultivos é essencial para a agricultura regenerativa.

Artur Yabe Milanez relembrou que o BNDES sempre foi um dos maiores apoiadores do Proálcool, programa do governo criado na ditadura militar para diminuir a dependência do país em relação ao petróleo e que completou 50 anos em 2025.

Além disso, ele mencionou o fato de muitos países não importarem etanol de primeira geração devido a particularidades e regulamentações locais. Tais restrições não acontecem com o etanol de segunda geração, o que confere mais uma vantagem ao produto.

“Os combustíveis de resíduos acessam esses mercados, como o europeu, e o americano, por exemplo. Pelo menos, acessavam, antes da [imposição da] tarifa [pelo Trump]. Tanto por conta do mandato federal, quanto pelo da Califórnia. Ambos premiam esses combustíveis de menor pegada, que usam resíduos”, pontuou.

A respeito da competitividade de mercado, Suzana Kahn, da UFRJ, apontou a dificuldade de concorrer com o petróleo, que tem diversas de possibilidades de uso.

Por outro lado, Milanez destacou como a indústria do etanol de segunda geração pode ser catalisadora de outros avanços tecnológicos correlatos. Como exemplo citou a produção de enzimas, itens de alto valor que hoje são importados pelo Brasil.

“A demanda pela enzima, o principal insumo do etanol de segunda geração e o que converte a celulose em açúcar, vai aumentar. Então, vai abrir oportunidade de investimento para a produção de enzimas no Brasil”, disse.

Sobre o mesmo tema, no entanto, Suzana Kahn chamou atenção para a necessidade de integrar inovação tecnológica e exploração comercial.

Ela exemplificou, com uma história recente, como o Brasil tem de estar atento para não perder oportunidades que lhe assegurariam uma posição melhor na transição energética.

Um projeto da Coppe/UFRJ, junto a uma parceria acadêmica com a Universidade de Tsinghua, na China, desenvolveu uma enzima para o processo de produção de biodiesel de soja.

Enquanto os pesquisadores brasileiros usaram a descoberta para publicação de papers e trabalhos acadêmicos, os chineses buscaram uma exploração comercial. Hoje, a China já é exportadora da substância.

“Eu acho que de alguma forma precisaria estimular nossos alunos que estão entrando, e nas empresas brasileiras também, um pouco desse espírito empreendedor de ir atrás e de fazer.”

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