O capitão Wilson Luís Chaves Machado passeava livre pelas ruas do Rio, seis meses depois que uma bomba explodiu em seu colo dentro de um carro, no estacionamento do Riocentro. No espaço de convenções, 20 mil pessoas assistiam a um show comemorativo do Dia do Trabalho com artistas da MPB.
A bomba que ele e o sargento Guilherme Pereira do Rosário levavam para explodir no evento detonou antes da hora. O sargento morreu. O capitão sobreviveu.
Janio de Freitas escreveu sobre o caso em crônica publicada na Folha em 1981. Com ironia, chamou-o de “herói” do começo ao fim.
“Não é em meu nome, herói, que saúdo a tua nova e feliz liberdade”, disse o jornalista. O capitão ia para a reserva remunerada, “aposentadoria limpa” antes de chegar ao generalato. E o povo continuaria trabalhando para sustentá-lo.
A mesma gente que ia ao Riocentro “para ouvir canções que falam de liberdade, de amor entre as pessoas e de outras coisas que desconheces porque só te ensinaram a ficar à espreita nos estacionamentos, a lidar com armas e bombas”.
Janio contrapôs o capitão a Mário Pedrosa, crítico de arte e intelectual que morreu naquele mesmo ano. “De armas só conheceu aquelas de policiais ou militares que o perseguiram. Em cujo enterro não houve salvas de fuzil, porque ele foi na vida aquilo que os homens de tua formação mais abominam: um pensador.”
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Do herói ao anti-herói (11/11/1981)
Não é em meu nome, herói, que saúdo a tua nova e feliz liberdade. Faço-o por todos aqueles que, nestes dias, têm passado por ti e não te veem senão como mais um deles, também vulgar, também anônimo. Desculpa-os, eles não fazem por mal. Não digo que entre eles não haja um ou outro perdidamente distraído pelas gentilezas anatômicas de uma escultura morena que desliza na calçada —essa, afinal, é a última promessa otimista disponível no mercado. Mas a maioria de nossa gente, herói, anda muito preocupada e muito aturdida com os bem-sucedidos esforços do governo em fazer-nos infelizes e tristes, como se não bastasse a desgraça de nascer brasileiro sem herança. Além do mais, não temos o hábito de conviver com heróis, embora deles necessitemos tanto que os inventamos, à falta de melhores e mais autênticos, ao simples acaso de um gol.
Não leva a mal, herói, que não te reconheçam nos livres passeios ao ar livre que voltas a dar, no gozo desta esplêndida liberdade que recuperas agora, após seis meses de dor. Não te reconhecem, mas não te ignoram nem te esquecem. Teu nome é algo tão preservado em nossa memória, capitão Wilson Luís Chaves Machado, que nos ocorre à mera menção de nomes tão ingênuos quanto Puma ou Riocentro, para não falarmos de certas instituições que se aplicaram em confundir-se com tua própria história.
Consta que estão te destinando à reserva remunerada, aliás, muito bem remunerada. Ou seja, à aposentadoria limpa prevista antes de chegares ao generalato, à chefia do SNI ou ao Ministério, e quem sabe mesmo, por uma espécie de ordem natural da brasilidade, ao posto ainda mais alto. Não importa: pelo que se vê de tua recuperação física, em que apenas uma pequena queimadura se revela no bração desinibidamente exposto pela elegante camisa de mangas curtas, sempre poderás voltar a dirigir um “Puma”, o Riocentro continua lá mesmo e o povo, se lá não estiver, sempre estará ao teu alcance nos estádios, nos desfiles, no Carnaval. E se acaso aí não estiver, espera-o um pouco, porque estará trabalhando para pagar-te o soldo da reforma tranquila, como te pagou os cursos em que aprendeste a usar armas e bombas, pagou-te o tratamento e te sustenta a vida e a família.
Passeia livre e à vontade, capitão Wilson, por esta pracinha algo melancólica da Tijuca, e penetra mais nos subúrbios e visita a Zona Sul, passeia livre e à vontade para que possas ver, pela amostra carioca, esta gente generosa que trabalhará para sustentar-te. E que às vezes, para recompor-se, vai a lugares como o Riocentro para ouvir canções que falam de liberdade, de amor entre as pessoas e de outras coisas que desconheces porque só te ensinaram a ficar à espreita nos estacionamentos, a lidar com armas e bombas, a extrair a fogo respostas ou vidas. Indiferentemente.
Não te falo em meu nome, já te disse. Mas não é por preconceito ou rancor, capitão. É porque nestes dias, ainda mais do que sempre, tenho pensado mesmo é no anti-herói. Tenho pensado em Mário Pedrosa, que de armas só conheceu aquelas de policiais ou militares que o perseguiram. Em cujo enterro não houve salvas de fuzil, porque ele foi na vida aquilo que os homens de tua formação mais abominam: um pensador, ocupado por toda a vida em pensar nos modos de fazer com que o homem seja feliz e livre, um dia. Mas também é verdade que a única coisa que ele abominou — nem do câncer jamais se queixou — foram os opressores de que és símbolo e herói.
Passeia livre e à vontade, capitão Wilson, que tua presença entre nós não muda nada. Mas a ausência de Mário Pedrosa muda, muda muito.





