domingo, novembro 30, 2025

A urgência do crescimento – 29/11/2025 – Ana Paula Vescovi

A Europa discute um dos temas mais relevantes desde a criação da União Europeia. O relatório Draghi e o estudo da London School of Economics recolocaram no centro da agenda uma pergunta que deveria ser simples, mas que raramente recebe respostas claras: o que precisa ser feito para que o continente volte a crescer de forma sustentada? A partir disso, formou-se algo novo: os movimentos em busca de um consenso de longo prazo, capaz de sobreviver a governos, orientar investimentos estratégicos e manter a coesão entre os países.

O diagnóstico europeu claramente é que, sem crescimento, não há como financiar a transição energética, a defesa do continente, lidar com o envelhecimento populacional e garantir autonomia tecnológica em um mundo mais competitivo. Tudo passa por produtividade e inovação, integração de padrões industriais e segurança institucional. A região escolheu discutir um novo projeto; se vai prosperar, a história há de contar.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil permanece preso a debates rasos. Desde o Consenso de Washington, cujos princípios inspiraram a estabilização monetária, falta-nos um conjunto mínimo de prioridades para orientar políticas e conferir previsibilidade aos negócios. E, principalmente, engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo sustentado, com melhoria contínua do bem-estar social.

Nosso problema é conhecido e mensurável. A produtividade brasileira está estagnada há quatro décadas e, desde 2010, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o crescimento potencial do país desacelera de forma contínua, refletindo limitações em tecnologia, educação e eficiência. A taxa de investimento permanece ao redor de 18% do PIB, nível insuficiente para sustentar uma modernização econômica mais profunda.

Somam-se desafios igualmente conhecidos: no país onde regras, burocracia e litígios abundam, faltam previsibilidade no ambiente de negócios, aprendizagem e inovação. Sobra consumo, nem sempre responsável; faltam poupança e alocação eficiente dos recursos escassos.

Ao mesmo tempo, o Brasil carrega oportunidades reais: energia limpa, agronegócio eficiente, ativos ambientais de grande valor, disponibilidade de recursos naturais que se tornam cada vez mais escassos no planeta. Possuímos infraestrutura digital pública como poucos países, com grande escala e qualidade: Pix (5 bilhões de transações mensais), e-Social (mais de 80 milhões de vínculos ativos), Cadastro Único (39% da população) e identidade digital (mais de 150 milhões). O SUS chega a pelo menos 160 milhões de brasileiros. Estudos internacionais mostram que digitalização e interoperabilidade podem reduzir em até 30% o custo administrativo dos serviços públicos. Para o Brasil, onde o “custo regulatório” é estimado em cerca de 1,5% do PIB, os ganhos potenciais seriam expressivos. Um Estado capaz de prover dados seguros, padronizados e auditáveis diminui fricções, desvios, reduz o custo de servir e melhora a qualidade das políticas públicas.

Mas o que nos falta, até agora, não é diagnóstico; é consenso.

A discussão europeia destaca que crescimento sustentável não nasce de iniciativas isoladas, mas de projetos mobilizadores, ancorados em princípios que atravessam governos. Draghi e a LSE convergem para três pilares essenciais: 1) estabilidade institucional e regulatória; 2) agenda contínua de produtividade, tecnologia e inovação; 3) investimentos estratégicos com governança sólida —um foco seria a área de defesa.

Nada disso ocorre de forma espontânea. São escolhas políticas, baseadas em maturidade institucional, capacidade de financiamento, articuladas por lideranças comprometidas com uma visão de futuro.

O Brasil precisa construir um movimento semelhante. Isso exige definir um núcleo mínimo de objetivos nacionais, reconhecidos pela sociedade como indispensáveis, com métricas claras: elevar a produtividade; aumentar a previsibilidade no ambiente de negócios; simplificar regulações e reduzir o custo de investir; modernizar o Estado; qualificar a força de trabalho para uma economia digital; e aprofundar nossa inserção no comércio internacional. Atualizar o desenho de programas em função das dinâmicas sociais, especialmente a demografia, aprofundando as políticas em segurança pública.

Países que superaram a armadilha da renda média fizeram isso com continuidade, clareza de prioridades, compromissos institucionais duradouros e avaliação de resultados. Não há outro caminho. Sem esse tipo de convergência, a política se reduz a disputas sobre meios, enquanto o país segue sem discutir os fins.

A sociedade —trabalhadores, empresas, academia, governos— precisa voltar ao centro desse debate. O Brasil já construiu consensos importantes para combater a inflação, que nos seus piores momentos parecia ser um problema sem solução. É possível construir diretrizes para desenvolver o país.

Crescer exige uma agenda institucional consistente, capaz de reduzir incerteza, trazer de volta o equilíbrio fiscal, elevar a produtividade, atrair poderes e instituições, reconectar o Brasil ao futuro. E fazer brilhar os olhos dos jovens quando mirarem suas oportunidades e o seu próprio país.

Crescer é fazer escolhas e construir consensos para avançar. Se não dermos conta, continuaremos alternando avanços pontuais com retrocessos frequentes, enquanto desperdiçamos oportunidades históricas.

É preciso ter senso de urgência para progredir.


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