segunda-feira, fevereiro 16, 2026
28.7 C
Pinhais

Mortes em prisões do Equador quase quadruplicam – 16/02/2026 – Mundo

Após centenas de detentos equatorianos terem sido mortos em rebeliões prisionais em 2021 e 2022, o presidente Daniel Noboa tornou a restauração da ordem nos presídios um dos pilares centrais de sua estratégia de segurança quando assumiu o cargo, em 2023.

Embora o governo tenha reduzido drasticamente o número de rebeliões, números revelados em uma investigação da Reuters mostram que as mortes em prisões estão atingindo níveis não vistos desde o auge dos distúrbios.

Em 2025, as mortes de detentos quase quadruplicaram em relação ao ano anterior, devido tanto à violência quanto a causas naturais, incluindo um surto de tuberculose, de acordo com os dados obtidos pela Reuters por meio de um pedido de acesso à informação ao Ministério do Interior. As mortes atribuídas apenas à violência também aumentaram quatro vezes em relação ao ano anterior.

Dos 1.220 detentos que morreram em 2025, pelo menos 206 foram vítimas de confrontos entre gangues e outros atos de violência, muito acima dos 46 no ano anterior. Foi o número mais alto desde 2021, quando 328 detentos morreram.

As outras mortes no ano passado foram atribuídas a doenças, suicídio e outras causas indeterminadas — um aumento de 256% em relação às 285 registradas em 2024. O governo não divulgou números comparáveis para 2021, 2022 ou 2023.

Nem o gabinete de Noboa nem a agência penitenciária SNAI responderam aos pedidos de comentário sobre o aumento das mortes. Em sua resposta ao pedido de acesso à informação, o Ministério do Interior disse que o aumento acentuado nas mortes “mesmo comparado a períodos historicamente críticos como 2021” poderia, “sem o devido contexto técnico”, criar “percepções distorcidas da gestão institucional”.

O ministério não respondeu a um pedido separado pedindo para explicar o contexto técnico.

Rebeliões prisionais com mortes eram ocorrências quase mensais no Equador em 2021 e 2022, na medida em que as cadeias do país se tornaram um microcosmo de um aumento mais amplo na violência relacionada às drogas que abalava a nação.

Colocar as prisões sob controle é dos principais pontos da agenda de segurança de Noboa. O conservador apostou seu legado no combate ao narcotráfico e ao crime, que aumentaram na América Latina nos últimos anos, tema que levou à eleição de presidentes de linha dura contra o crime, da Costa Rica ao Chile.

Noboa pôs militares no comando de certas penitenciárias, está construindo novos presídios que ele diz serem mais bem equipados para lidar com criminosos violentos e transferiu alguns prisioneiros de maior periculosidade. Seu governo afirma que as medidas reduziram a violência em comparação a anos anteriores.

SUPERLOTAÇÃO E TUBERCULOSE

O governo reconhece a superlotação nas prisões e afirma que está respondendo a questões de saúde com triagens de doenças e atendimento médico.

Mas os números de mortes contam uma história sombria sobre as condições das prisões, enquanto parentes de detentos e organizações de direitos humanos destacam violência, abuso, tuberculose agravada pela superlotação, assistência médica insuficiente e falta de alimentação adequada. Segundo eles, tudo isso foi exacerbado pelas condições estritas impostas como parte da intervenção militar.

O governo diz que as operações militares desmantelaram operações criminosas dentro das prisões, coibindo envio de drogas, extorsão e planejamento de ataques contra políticos e autoridades, e que fecharam boates e até uma piscina privada dentro das prisões que antes eram usadas por líderes de gangues.

Mas as autoridades também enfrentam uma superlotação de 30,6% nas penitenciárias para adultos. As instalações juvenis não estavam superlotadas em 2024, segundo dados oficiais, mas atingiram um nível de superlotação de 15,3% em 2025.

O governo diz que um aumento de 7,6% na população carcerária nacional no ano passado, para 35.454, deve-se a mais prisões e penas mais longas. Autoridades afirmam que muitas celas estão inutilizáveis por causa dos danos causados por rebeliões, forçando os detentos a se amontoarem em espaços menores.

“Estamos enfrentando agora uma crise de saúde, alimentar e queixas de parentes sobre supostos maus-tratos e tortura por pessoal militar”, disse Rodrigo Varela, secretário-geral da Defensoria Pública do Equador. Ele disse que seu gabinete encaminhou várias denúncias ao Ministério Público sobre as condições dos detentos.

Embora Noboa tenha resistido a comparações com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele — famoso por uma estratégia linha-dura que grupos de direitos humanos denunciaram como abusiva —, Noboa postou imagens semelhantes a muitas compartilhadas pelo líder centro-americano: de detentos com cabeças raspadas, vestidos de laranja e sentados enfileirados, enquanto soldados mascarados e fortemente armados observam.

“Não estamos seguindo nem o manual de Bukele nem o manual do (presidente argentino Javier) Milei — estamos lidando com a realidade do Equador”, disse Noboa à CNN en Español em uma entrevista no ano passado, acrescentando que novas prisões são a resposta para a superlotação.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos pediu ao Equador em dezembro para melhorar as condições para os 7.000 detentos na Penitenciária Litoral, a mais perigosa do país, citando um relatório do governo que lista 564 mortes no local de janeiro a setembro de 2025, incluindo 550 classificadas como naturais ou indeterminadas. O ministro do Interior, John Reimberg, vinculou o aumento à superlotação, mas não forneceu dados.

SEM TRAVESSEIROS

Seis parentes de detentos entrevistados pela Reuters disseram que a presença militar tornou as condições, que já eram precárias, ainda piores.

“Muitas vezes não são rebeliões, são detentos levantando suas vozes porque estão morrendo ou em agonia”, disse Ana Morales, uma coordenadora ativista de parentes cujo filho está detido na Penitenciária Litoral. “É uma falta de humanidade por parte dos militares e desumanização pelo Estado equatoriano”.

Todos os parentes denunciaram a falta de comida e revistas nas celas em que os militares destroem bens pessoais.

“Estamos vendo não apenas o ressurgimento da tuberculose, mas, também, do abuso militar”, disse Stefany Salinas, cujo marido está preso por homicídio na prisão de El Rodeo, em Manabí. “Nós nos opomos aos maus-tratos — eles quebram tudo, jogam fora os pertences pessoais”.

O SNAI e o Ministério da Defesa não comentaram as acusações. Reimberg disse que todas as prisões recebem comida, mas muitos detentos preferem trocar suas refeições por drogas.

O governo começou a transferir centenas de prisioneiros para reduzir o poder das gangues em certas instalações no fim de 2025, e cerca de 900 detentos foram transferidos apenas em janeiro, disse o SNAI em um comunicado recente.

Detentos considerados altamente perigosos —incluindo líderes de gangues e o ex-vice-presidente Jorge Glas, condenado por corrupção— foram transferidos para El Encuentro, uma nova prisão de segurança máxima construída por Noboa, com capacidade para 800 pessoas. O governo planeja construir uma instalação semelhante para mais de 15.000 detentos, com conclusão prevista para 2027.

Ele elogiou a El Encuentro, que não permite visitas de advogados ou parentes e onde membros de diferentes gangues são misturados e mantidos em quatro por cela.

Os prisioneiros não podem ter travesseiros porque podem ser usados como armas, disse Reimberg ao canal de televisão Ecuavisa.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas