Eu vilanizei Andreas Pereira uma vez. Foi na final na Libertadores de 2021, quando o então meia flamenguista perdeu uma bola na defesa que resultou no gol de Deyverson, o da vitória do Palmeiras. O título da coluna era “Andreas perdeu o passo, a bola, o jogo e o título“.
Andreas, para o Flamengo, fez papel de vilão futebolístico. E minha mira nele enfocou a infelicidade do escorregão que botou tudo a perder para os rubro-negros.
O tempo passa, o mundo dá voltas, e um outro escorregão apareceu na vida de Andreas, que, ironia do destino, agora veste a camisa alviverde do Palmeiras.
O escorregão desta vez, ocorrido em recente partida do Campeonato Paulista contra o Corinthians, num clássico de uma das maiores rivalidades entre clubes e torcidas no Brasil, não foi dele, mas do craque holandês Memphis Depay.
Ao cobrar um pênalti, ele patinou, caiu e seu chute na bola, imperfeito, saiu pela linha de fundo. Um lance patético. Final no Itaquerão: Corinthians 0 x 1 Palmeiras.
E o que Andreas tem a ver com isso? Assim que o pênalti foi dado, ele se posicionou sobre a marca do pênalti e esfregou a chuteira nela e em volta dela, por poucos segundos. Ninguém da arbitragem viu, a partida seguiu, e Memphis, depois que errou, reclamou de uma possível irregularidade no gramado, supostamente causada por Andreas, que teria ocasionado sua derrapada.
Os corintianos em massa, e jornalistas em boa parte, “desceram a lenha” no camisa 8 do Palmeiras. Marcelo Bechler, colega colunista desta Folha, chamou de trapaça.
Discordo. O que Andreas fez chama-se catimba, algo tão comum e antigo no futebol como a bola do jogo ser esférica, a grama ser verde e o árbitro ser assoprador de apito. É elemento integrante do esporte e uma artimanha que o torna peculiar, atrativo, vívido. É imprescindível.
Em um duelo tenso, como um clássico costuma ser, os artifícios para buscar desestabilizar os adversários são válidos. Partidas se ganham também no emocional, no psicológico, não só na tática, na técnica ou no físico.
Deixem o futebol ser futebol, ter uma dose de tensão, de provocação. Já não basta o chatíssimo e modorrento VAR (árbitro de vídeo) atravancar sem parar, querem tornar o futebol um jogo de cavalheiros, um críquete, um evento aristocrático.
Vale uma afronta verbal, desde que não seja racista, xenófoba, homofóbica ou outra que se enquadre em crime. Vale, por mais deselegante que seja e sujeito a levar cartão, cuspir na redonda antes de um pênalti ser cobrado pelo rival; chutar a bandeirinha de escanteio no campo adversário ao comemorar um gol; fazer rodinha no árbitro, pressioná-lo; conduzir a bola com a cabeça, como fazia Kerlon, o “foquinha” do Cruzeiro, 20 anos atrás.
Não gosta de nada disso? Recomendo ver tênis ou, indo além, xadrez.
É uma malandragem o que Andreas fez? É. Se a arbitragem tivesse visto (nem o VAR viu, ou teria, fugindo à sua função, alertado), seria passível de cartão amarelo. Conduta antidesportiva –assim a regra enquadra– é assim advertida. Se já tiver amarelo, vermelho: pro “chuveiro”.
Independentemente do time para o qual você torce, pode perfeitamente não gostar de uma atitude antidesportiva. Porém trapaça não é. É catimba, é malandragem. Que não são proibidas. E que historicamente fazem parte da simbologia e da cultura do futebol.
Lembra a provocação de Memphis na final do Paulista do ano passado, quando ele subiu na bola? Vibrei. Foi um deboche, uma humilhação simbólica por dois segundos. Só o futebol oferece esses deleites, enquadrados na tal atitude antidesportiva. Palmeirenses desgostaram, faz parte. Aquele empurra-empurra, segue o jogo.
Subir na bola, Memphis achou OK. O escorregão, não. Que ele mesmo poderia ter evitado.
Antes de bater o pênalti, o jogador vai à marca da cal para arrumar a bola. O camisa 10 foi. Não se direcionou ao árbitro para apontar buraco, desnível, o que fosse, no campo. Aí erra e vira um dramalhão. Se tivesse sido gol, ninguém estaria comentando a raspada de pé de Andreas.
Vilanizar Andreas é evidente exagero. Sejamos razoáveis para permitir ao futebol, enfadonho com frequência, ter um tico de graça.
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Autor: Folha








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