No dia em que recomeçam as tensas negociação entre Estados Unidos e Irã sobre o programa nuclear persa, o líder da teocracia disse que Donald Trump “não será capaz de depor a República Islâmica”, em referência ao regime instalado pelos religiosos radicais em 1979.
A fala do aiatolá Ali Khamenei em uma audiência com representantes da província do Azerbaijão do Leste, nesta terça-feira (17), veio após o presidente americano dizer que a queda do regime “seria a melhor coisa que poderia acontecer”.
Segundo Khamenei, a armada montada por Trump nas últimas semanas, que em breve terá um segundo grupo ataque de porta-aviões, não o impressiona. “Mais perigosa que os navios de guerra americanos é a arma que poderá mandá-los para o fundo do mar”, afirmou.
Enquanto o líder praguejava, uma delegação liderada pelo seu chanceler, Abbas Araghchi, se reunia de forma indireta com um grupo americano que tinha o negociador Steve Witkoff e o genro presidencial Jared Kushner à frente.
Os mediadores novamente eram os omanis, mas desta vez o encontro ocorre na casa do embaixador do sultanato em Genebra. A primeira rodada de conversas, há uma semana e meia, havia ocorrido no país do Golfo Pérsico.
Os americanos vão, após as reuniões nas quais cada grupo se reporta a diplomatas de Omã, participar de outro processo de paz, nas conversas entre delegações da Rússia e da Ucrânia na mesma cidade.
Na mesa do Oriente Médio, o próprio escopo das conversas é objeto de polêmica. Oficialmente, o debate será acerca de um acordo para que os aiatolás renunciem às armas nucleares em troca do fim de sanções asfixiantes contra seu país.
Isso valeu de 2015 a 2018, quando o mesmo Trump deixou o arranjo, apontando falhas no processo de verificação da produção de urânio enriquecido por Teerã: até certo nível, o material tem fins pacíficos, mas depois as aplicações são militares.
Agora, os iranianos dizem aceitar negociar a diluição dos 60% de enriquecimento atingidos em cerca de 400 kg de urânio, o que dá para fazer talvez 15 artefatos atômicos rudimentares e de baixa potência. Os EUA querem o fim do programa todo.
Mas os americanos querem também incluir no acordo um fim ou limitação do arsenal de mísseis balísticos do Irã, que é sua principal arma de retaliação e foi usado, com ogivas convencionais, amplamente na guerra de 12 dias com Israel no ano passado.
Os iranianos dizem que só topam falar de energia nuclear, e Araghchi encontrou-se em Genebra com o chefe da agência da ONU do setor, o argentino Rafael Grossi. Israel insistiu com os aliados americanos sobre o ponto, cientes de que mesmo tendo sido bastante dominados em 2025, os iranianos mantém capacidades para fustigar o Estado judeu.
Ao falar também de queda do regime, Trump aludiu aos protestos que desafiaram a teocracia em janeiro, que foram reprimidos duramente mas mostraram a fragilidade do poder dos aiatolás. Seja como for, o americano abandonou a retórica de que iria em socorro aos manifestantes.
Na segunda (16), Trump havia dito que o acordo interessava ao Irã. “Eu não acho que eles querem as consequëncias. Nós podemos ter um acordo em vez de mandar os B-2 para acabar com o potencial nuclear deles. E nós já mandamos os B-2”, afirmou.
Ele se referia ao ataque de junho passado em apoio à ação de Tel Aviv, quando os EUA atingiam centrais nucleares iranianas com bombas destruidoras de bunkers lançadas por bombardeiros furtivos ao radar B-2, além de mísseis de cruzeiro.
Para enviar um sinal de força durante as conversas, o Irã iniciou na segunda uma série de exercícios navais no estreito de Hormuz, por onde passam 20% do petróleo e do gás consumidos no planeta. As manobas haviam sido adiadas antes da primeira rodada de conversas, e sua retomada insinua o estado de espírito em Teerã.
Mais ao sul, no mar da Arábia, o grupo do porta-aviões USS Abraham Lincoln treinava sob condições difíceis o lançamento de missões sob ataque. Os iranianos têm mísseis antinavios eficazes, mas usualmente a escolta dessas embarcações pode dar conta de defendê-la.
Problema maior são os drones. Teerã tem um estoque estimado de 80 mil modelos Shahed-136, cuja cópia russa cai todo dia sobre a Ucrânia. O envio de grandes enxames contra um grupo de navios pode saturar sua defesa, ainda que os aviões-robôs não consigam afundar uma embarcação, mas sim abrir caminho para uma barragem com mísseis.
Autor: Folha








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