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Por que mais mulheres estão se divorciando após os 40 anos – 18/01/2026 – Equilíbrio

“Eu precisava me escolher”, diz a cantora Lily Allen no seu mais recente álbum mais recente, “West End Girl”, o primeiro após um hiato de sete anos. As 14 faixas falam sobre o divórcio com o ator David Harbou e o reencontro com a própria identidade. A britânica contou que escreveu o disco em dez dias, após sair de um estado depressivo.

A separação de Lily Allen após quatro anos de casamento é exemplo de uma tendência crescente: mulheres que se divorciam por volta dos 40 anos e usam o fim do casamento como ponto de virada.

No Brasil, segundo dados de 2023 do IBGE, a média de idade no divórcio é de 41,4 anos para mulheres. Ao mesmo tempo, enquanto em 2003 somente 8,2% das mulheres que se casavam tinham 40 anos ou mais, 20 anos depois esse número saltou para 25,1%.

Carla Bal, 40, relações públicas, conta que ficou casada por 17 anos. “Ele me apoiava, aceitava quem eu era.” Até que nos últimos dois anos tudo mudou. “Eu vivia a vida que ele queria. Saía quando ele deixava. Foi um cárcere privado que eu não vi.”

Ela então pediu o divórcio e decidiu construir novas memórias que não incluíssem o ex. No último ano, fez grandes viagens: Aruba, Paris, Londres, Chile e Peru. “Vou construir histórias que sejam independentes da história dele. Porque o resto todo é com ele.”

A produtora de conteúdo de bem-estar Rose Rodrigues, 43, conta que, após um casamento de 12 anos, o divórcio foi fundamental para o início de um ciclo muito mais alinhado com a mulher que ela gostaria de ser. “Depois dos 40 eu ganho muito mais intimidade com o meu corpo, muito mais autoconfiança. A expressão da identidade ganhou mais força.”

Manuela Borges, psicóloga pelo Centro Universitário de Brasília, afirma que, “quando a pessoa se casa, a identidade do indivíduo se altera e se relaciona com a do cônjuge”. “Com a separação, essa identidade conjugal vai precisar se desfazer. A pessoa vai precisar se redescobrir”, diz ela.

A psicóloga é autora da pesquisa Divórcio na terceira idade: implicações nas relações familiares, sociais e pessoais à luz da abordagem sistêmica. O trabalho investigou o divórcio de pessoas com mais de 60 anos (chamado de gray divorce, ou divórcio grisalho). Coordenado pela professora Izabella Melo, o estudo entrevistou quatro pessoas entre 61 e 90 anos que se divorciaram após os 60. Os resultados, elas dizem, evidenciam que, apesar da solidão inicial, o divórcio tardio também promove redescoberta pessoal.

“Hoje uma pessoa de 60 anos sabe que tem uma vida pela frente. Então, por que permanecer num local onde ela não está feliz?”, questiona Manuela. Quando olhamos para as mulheres, “quanto mais autonomia, quanto mais independência, mais difícil fica permanecer numa relação de infelicidade”, pontua.

“Quando acontece o divórcio, esse é um capítulo novo que vai demandar uma reescrita da história”, acrescenta Izabella. Sobretudo porque “são pessoas que podem ter dedicado uma vida inteira ao casamento, aos filhos, e não puderam investir em uma carreira”.

Roseli Aparecida de Almeida, 60 anos, técnica de enfermagem, conhece bem essa realidade. Ficou casada por 26 anos com um homem que a proibia de trabalhar. “Eu era aquela dona de casa analfabeta, tinha só até a quinta série. Não podia trabalhar. Não podia tomar anticoncepcional.” Restrita ao ambiente doméstico e familiar, conta que também era vítima de violência física, sexual e psicológica.

Ela diz que aguentou a situação até os 42 anos, quando começou a fazer terapia e participar do grupo Mulheres que Amam Demais. O processo de ouvir outras mulheres e repensar comportamentos a fez dar um basta no relacionamento abusivo. Pediu o divórcio.

Ela conta que recomeçou fazendo faxina e, conforme o dinheiro entrava, voltou a estudar. Fez cursos de cuidadora, manicure, cabeleireira. Aos 51, entrou no curso de enfermagem. Hoje é concursada em Diadema, mora sozinha, tem carro, dirige.

O divórcio carrega uma longa história de desigualdade de gênero, e no Brasil o direito ao divórcio só foi conquistado em 1977. Antes disso, as mulheres estavam fadadas a casamentos de todo tipo, fossem eles infelizes ou violentos. O cenário começou a mudar com o avanço dos movimentos feministas e da discussão sobre os direitos das mulheres.

Como aponta o pesquisador Colson em Gray Divorce: The Complete Guide, o crescimento dos números de divórcio tardio está diretamente relacionado ao aumento da autonomia feminina. “Quanto mais independentes são as mulheres, maior é o número de divórcios.”

Izabella ressalta que a separação “não é o fim da linha, não é sinônimo de insucesso”. Para Roseli, o divórcio foi a possibilidade de viver a vida que gostaria pela primeira vez. “Agora estou em paz. Paz é ninguém te cobrando, ninguém te acusando. É ficar bem comigo mesma. Não quero nada que venha tirar essa paz.”

Autor: Folha

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