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Jesse Jackson iniciou luta por igualdade racial em empresa – 19/02/2026 – Economia

O reverendo Martin Luther King liderava uma cruzada para acabar com a segregação racial legal e expandir os direitos de voto no Sul dos Estados Unidos havia mais de uma década. Mas, em 1966, ele estava perturbado com o que via no Norte, onde a pobreza permanecia enraizada nos guetos urbanos segregados.

Para expandir o que ele entendia como uma luta nacional mais ampla pela igualdade econômica, King sabia quem queria para liderar o esforço em Chicago —um seminarista de 24 anos chamado Jesse Jackson.

Em entrevistas realizadas ao longo de sua vida, aqueles que conheceram Jackson no início de sua atuação em Chicago ou trabalharam com ele depois descreveram um homem cheio de ambição, carisma e ego. Jackson morreu nesta terça-feira (17), aos 84 anos.

Reconhecendo os talentos de Jackson, King o nomeou coordenador de seu novo programa, a Operação Breadbasket. Na época, Jackson era o membro mais jovem da SCLC (sigla em inglês para Conferência da Liderança Cristã do Sul), de King.

O programa, que começou em Atlanta, utilizava confronto direto, e às vezes boicotes, para pressionar o setor corporativo a implementar práticas de contratação com igualdade de oportunidades para minorias. A iniciativa se tornou um modelo para o ativismo urbano, expandindo as lições de King do boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, e foi também o campo de treinamento para a política racial urbana na qual Jackson, um sulista, se destacaria.

“Ele aprendeu onde estão as forças nas pessoas; e aprendeu onde estão os pontos fracos, em que você pode mover alguém pelo coração, mas também com argumentos econômicos”, disse o reverendo Martin Deppe, membro fundador da Operação Breadbasket.

A primeira vez que Deppe, 90, ouviu Jackson, disse que ficou impressionado com a autoconfiança de um jovem seminarista que conseguia se apresentar diante de 300 ministros impondo respeito, mesmo que sua oratória e postura às vezes os sobrecarregassem. Originalmente trazido para coordenar a Breadbasket para a SCLC, ele rapidamente assumiu a liderança e já estava conduzindo as reuniões ao final do primeiro mês.

“Ele tinha uma ideia por minuto”, disse Deppe. “Não conseguíamos nem implementar todas as suas ideias.”

Chicago em 1966 se revelaria um campo de batalha feroz para o movimento pelos direitos civis, onde seus líderes sulistas foram confrontados com um nível de racismo violento que chocou o grupo, mesmo depois de terem sobrevivido a confrontos com cães e mangueiras de água no Alabama. Em vários protestos, alguns espectadores brancos, incluindo membros do Partido Nazista Americano, receberam King e Jackson com insultos raciais, bandeiras confederadas, pedras, tijolos, garrafas e suásticas.

“Nunca vi nada assim na minha vida”, disse King após uma marcha, segundo a biografia de Jonathan Eig, “King: A Life”. “O povo do Mississippi deveria vir a Chicago para aprender a odiar.”

Para King e Jackson, a Breadbasket era uma resposta a um problema familiar enfrentado pelo movimento pelos direitos civis, disse Taylor Branch, um cronista do movimento, em entrevista.

“Muitas pessoas diziam: ‘Os negros estão sofrendo sob uma injustiça racial de longa data'”, afirmou. “Mas como fazer alguém prestar atenção nisso?”

A solução deles se baseava em uma teoria: o escrutínio público de boicotes custaria clientes e receita às empresas, o que tornaria prejudicial discriminar na contratação para contratos ou prestação de serviços.

“Seus métodos na Breadbasket eram mais ou menos comparáveis aos sit-ins e às Freedom Rides”, inovações que tentavam “chamar atenção para a desigualdade generalizada que sempre existiu”, disse Branch.

Os métodos de Jackson não estavam isentos de controvérsia ou críticas. Alguns questionavam se ele havia se aproximado demais das corporações, oferecendo-lhes relações públicas favoráveis às custas dos trabalhadores pobres. Executivos e alguns conservadores políticos se opunham ao que chamavam de campanhas de pressão que resultavam em contratos para amigos de Jackson.

Mas os organizadores da Operação Breadbasket não se intimidaram.

“Começamos com o leite”, lembrou Deppe. Os organizadores pediram às empresas de laticínios que compartilhassem dados anuais de emprego categorizados por raça. “O CEO da Country Delight disse: ‘Não vamos deixar pastores negros nos dizerem o que fazer'”, lembrou Deppe.

Então os pastores subiram em seus púlpitos e disseram aos fiéis para pararem de beber Country Delight.

“Depois de três dias, eles voltaram à mesa e concordaram com 44 vagas de emprego, incluindo 15 vagas de motorista de caminhão”, disse ele. Esse acordo colocou US$ 300 mil nos bolsos de pessoas negras por ano, segundo a estimativa de Deppe.

Jackson aplicaria essas lições à política quando ajudou a organizar um boicote em 1982 a um festival da cidade depois que a prefeita de Chicago, Jane Byrne, preteriu vários candidatos negros para cargos de chefia em departamentos e removeu dois membros negros do conselho escolar.

“O pastor Jackson liderou as marchas na orla do lago, onde a prefeita queria realizar o grande ChicagoFest”, lembrou Jane Ramsey, que era membro da coalizão Rainbow PUSH de Jackson. Como o festival era uma fonte de receita importante para a cidade, as marchas atingiram a prefeita onde doía, disse ela, “e trouxeram visibilidade para as questões”.

Ramsey, 75, afirmou que o boicote ajudou a preparar o terreno para a eleição de Harold Washington no ano seguinte como o primeiro prefeito negro de Chicago, administração da qual ela participou.

A Operação Breadbasket influenciaria pessoas como Marc Morial, o veterano diretor executivo da National Urban League, que, como Jackson, fundiu política e advocacia e via uma ligação entre direitos civis e questões econômicas.

“Ele sabia que era preciso falar sobre a América corporativa, e era preciso falar sobre políticas públicas”, disse Morial sobre Jackson, “e que essas não são questões individuais”.

“Ele conseguiu trazer alguma pressão e responsabilização”, acrescentou Morial, que também foi prefeito de Nova Orleans por oito anos. “Na época, as corporações se beneficiavam muito do poder dos consumidores negros, mas não contratavam afro-americanos e não tinham nenhum afro-americano nas diretorias.”

As demandas de King e Jackson podem ser consideradas precursoras do que viria a ser conhecido como iniciativas de DEI (diversidade, equidade e inclusão), que atingiram seu auge após os assassinatos de George Floyd e outras pessoas negras pela polícia em 2020.

Agora, esses esforços estão majoritariamente paralisados em meio ao ataque do presidente Donald Trump ao que ele chama de preconceito antibranco. Trump disse que as proteções dos direitos civis levaram os brancos a serem “muito maltratados”.

O deputado Kweisi Mfume, democrata de Maryland e ex-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), chamou o sucesso do presidente de “surpreendente e alarmante ao mesmo tempo”.

O governo Trump e seu movimento político “estão tentando encontrar uma maneira de acabar com qualquer semelhança ou mesmo expectativa de diversidade ou inclusão”, disse Mfume.

Os sucessos de Trump não passam despercebidos pela mais nova geração de líderes dos direitos civis que assumem o manto da geração de Jackson que está partindo.

“É de partir o coração perder nossos anciãos do movimento pelos direitos civis, nossa ‘geração de Moisés’, em um momento em que tanto de seu trabalho e legado está sob ataque”, postou Justin Jones, um jovem legislador estadual do Tennessee, nas redes sociais.

Justin Pearson, outro jovem do Tennessee que saltou para o cenário nacional com Jones quando ambos foram expulsos da legislatura do estado, chamou Jackson de “inabalável e inflexível em sua busca por justiça”.

“E esse é o tipo de espírito que precisamos reviver em nossa política e em nossas comunidades e em nosso país agora”, disse ele.

Mas os tributos que chegaram após a morte de Jackson não se limitaram a seus aliados ideológicos.

A Black Conservative Federation, uma rede de ativistas republicanos, postou: “Embora nem sempre tenhamos concordado com o reverendo Jackson em política ou políticas públicas, reconhecemos e respeitamos a profundidade de seu compromisso com o avanço dos americanos negros e com a consciência moral desta nação.”

Autor: Folha

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