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O caso Epstein e a reciclagem do antissemitismo abjeto

O antissemitismo – preconceito milenar contra o povo judeu – não é um fenômeno do passado, superado com a derrota do nazismo ou restrito a episódios isolados da história europeia. Ele ressurge, periodicamente, adaptando-se à linguagem e às tensões de cada época. No Brasil, temos assistido a uma escalada de preconceito que rompe a tradição de convivência plural, marcada pela diversidade religiosa, étnica e cultural.

Uma das mais recentes declarações públicas a associar judeus ou o chamado “lobby judaico” a teorias conspiratórias globais reacendeu um alerta necessário. E tais declarações não partiram de pessoas desinformadas. Foram perpetradas pelo sociólogo, advogado, escritor e professor universitário Jessé Souza, um intelectual de quem esperaríamos um movimento na direção oposta à dos estereótipos e preconceitos. De quem se esperaria um movimento alinhado ao conhecimento, à honestidade intelectual e ao respeito.

Generalizações sobre ‘lobby judaico’, ‘supremacismo judaico’ ou ‘controle judaico’ ecoam séculos de perseguição. Da Idade Média na Europa às teorias raciais do século 19, do caso Dreyfus na França às leis de Nuremberg na Alemanha nazista, a ideia de uma ameaça judaica difusa sempre precedeu violência concreta

Deu-se o avesso. Ao vincular o caso do criminoso Jeffrey Epstein a uma suposta conspiração judaica mundial, Souza reciclou um dos mais antigos e perigosos estereótipos da história: o de que judeus controlariam a política, a economia ou os rumos do mundo por meio de articulações secretas.

Esse imaginário não é novo. Está documentado, por exemplo, no panfleto fraudulento conhecido como Os Protocolos dos Sábios de Sião, produzido na Rússia czarista no início do século 20, que difundia a ideia de uma conspiração judaica global para dominar o planeta. Embora amplamente desmascarado como falsificação histórica, o texto alimentou perseguições, pogroms e serviu de combustível ideológico para o nazismo. A lógica conspiratória ali contida continua a ecoar, com novas roupagens, em discursos contemporâneos.

Em análise publicada em seu perfil no Instagram, o jornalista Pedro Doria chamou atenção para esse aspecto histórico. Ele lembrou que o antissemitismo existe há milênios, antecedendo muitos outros tipos de prejulgamentos organizados. Ao comentar as declarações recentes, afirmou: “O que o Jessé faz com o caso Epstein é dizer que ele fazia mal a crianças para chantagear políticos e ajudar uma grande conspiração judaica mundial. Ele juntou todos os piores estereótipos do antissemitismo numa história só e ancorou no caso Epstein. É uma das coisas mais abjetas que alguém pode fazer.” E concluiu: “Que ele ainda seja respeitado por qualquer pessoa é perturbador.”

A contundência das palavras do jornalista revela a gravidade do tema. O problema não reside em críticas políticas ao governo de Israel, tampouco em debates legítimos sobre geopolítica – discussões que fazem parte da esfera democrática. O que ultrapassa a linha é a atribuição coletiva de culpa a judeus enquanto grupo religioso ou étnico, bem como a utilização de termos historicamente associados à desumanização e à demonização desse povo.

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Generalizações sobre “lobby judaico”, “supremacismo judaico” ou “controle judaico” ecoam séculos de perseguição. Da Idade Média na Europa às teorias raciais do século 19, do caso Dreyfus na França às leis de Nuremberg na Alemanha nazista, a ideia de uma ameaça judaica difusa sempre precedeu violência concreta. Palavras não são neutras: carregam memórias históricas e consequências reais.

Combater o antissemitismo não é uma causa setorial, mas um compromisso civilizatório. O ataque aos judeus, como já demonstrou a história, costuma ser o primeiro passo em uma espiral de intolerância que atinge toda a sociedade. Onde o preconceito é tolerado contra um grupo, nenhum outro está verdadeiramente seguro.

Faz toda a diferença distinguir crítica política de discurso de ódio. Democracias maduras protegem a liberdade de expressão, mas também reconhecem que essa liberdade não pode servir de escudo para a propagação de teorias conspiratórias que imputam a um povo inteiro intenções malignas ou projetos secretos de dominação.

Neste tempo de comunicação instantânea e ampla, em canais que reverberam narrativas simplificadoras e inflamadas, cabe às instituições, à imprensa e à sociedade civil reafirmar princípios básicos: responsabilidade no uso da palavra, rigor na análise dos fatos e respeito à dignidade humana. A banalização de estereótipos não é um detalhe retórico; é a reativação de estruturas mentais que já produziram tragédias.

O antissemitismo não começa com campos de extermínio. Começa com insinuações, com teorias conspiratórias, com a naturalização da ideia de que judeus formam um bloco empenhado em manipular o mundo. Começa quando se aceita, como argumento legítimo, aquilo que historicamente serviu para justificar exclusão e violência.

A defesa da memória, da verdade histórica e da convivência plural é uma responsabilidade coletiva. Rechaçar discursos que reciclam preconceitos seculares é um passo indispensável para preservar o tecido democrático e garantir que o Brasil recobre sua vocação histórica de nação na qual diferentes identidades possam coexistir com respeito.

Silenciar diante do preconceito é permitir que ele avance. Nomeá-lo e enfrentá-lo, com firmeza e serenidade, é afirmar os valores que sustentam uma sociedade livre.

Alexandre Knopfholz e Fernando Brodeschi são, respectivamente, presidente e vice-presidente da Federação Israelita do Paraná.

Autor: Gazeta do Povo

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