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Saxofonista Roberto Sion e as jam sessions das Folhas – 20/02/2026 – Música em Letras

Na última quinta-feira (19), a Folha completou 105 anos. Acesse folha, 105, página que reúne textos históricos dos 105 anos do jornal, além de eventos, vídeos, bastidores das notícias e debates sobre o futuro do jornalismo.

A coluna Música em Letras não ficou de fora da festa e publica cinco entrevistas realizadas com músicos que participaram das jam sessions das Folhas.

No dia 5 de dezembro de 2025 completou-se 65 anos da primeira Jam Session das Folhas, evento que realizava audições musicais nos anos 1960, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no auditório do jornal. O evento inaugural teve grande repercussão, com o espaço lotado, e sua primeira apresentação foi registrada, ao vivo, no álbum “Jam-Session das Folhas“, no formato de Long Play (LP), lançado em 1961.

Entre os artistas que se apresentaram nas jam sessions das Folhas estavam o pianista e cantor Farnésio Dutra e Silva, conhecido como Dick Farney (1921-1987), Eliana Leite da Silva, 80, conhecida pelo nome artístico de Eliana Pittman, seu pai, o clarinetista e saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909-1969), e a cantora e compositora Rita Lee (1947-2023), além de vários músicos excepcionais, alguns ainda na ativa.

Entre esses exímios instrumentistas, que ainda brilham na arte de amealhar os sons, figuram o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, 90; o trompetista Magno D´Alcântara, 88, o Maguinho; o saxofonista, arranjador e compositor Roberto Sion, 79; o pianista e compositor Edmundo Villani-Côrtes, 95; e o pianista Luiz Mello, 88.

Leia, a seguir, a entrevista concedida por Roberto Sion à coluna Música em Letras.

Foi em Santos, cidade do litoral paulista onde nasceu, que o professor, saxofonista, flautista, maestro, compositor e arranjador Roberto Sion, 79, teve seu primeiro contato com o jazz. Seu pai e alguns amigos fundaram o Jazz Clube de Santos, sem endereço fixo, para trocar figurinhas sobre o gênero, sempre ao som de discos de vários artistas que já encantavam Sion ainda muito novo.

Sion já havia estudado piano no conservatório, quando seu primo, meses mais velho, o trompetista Claudio Roditi (1946-2020) foi morar em Santos, o que levou o primo mais novo a apaixonar-se pelo trompete. Isso tudo antes de flertar com o clarinete e depois, finalmente, chegar ao saxofone sob influência de músicos excepcionais como os saxofonistas Ferreira Godinho Filho (1932-1978), o Casé, e Hector Costita, um dos artistas que também tocou nas jam sessions das Folhas.

Sion ouvia os discos de Dick Farney (1921-1987), Paulo Moura (1932-2010), Casé, e Moacir Peixoto (1920-2003), entre outros, sempre tentando improvisar, segundo ele, “muito intuitivamente”.

“A gente tinha um grupinho lá em Santos, que era o Flávio Clemente, de piano, …e eu não lembro quem era o baterista. Naquela época, os músicos de jazz eram poucos no Brasil, jazz era uma coisa muito localizada, muito pontual, nas residências mais da classe média, quase ninguém tocava. Então nos convidaram, não sei como, a participar de umas das jam sessions das Folhas.”

Sion participou desses eventos quando tinha apenas 14 anos de idade e se lembra de ter conhecido o pai da cantora Eliana Pittman, o saxofonista Booker Pittman (1909-1969), os dois também atrações das jam sessions das Folhas.

“Meu pai conheceu o Booker Pittman e levou ele lá em casa. A gente ficou superfeliz de ter tocado na Folha, né? Eu tenho uma foto do jornal guardada até hoje. Lembro de, no dia de ter tocado, ter visto as máquinas enormes [rotativas] do jornal ali na entrada da Folha. Também lembro da gente ter tocado só jazz, mas antes de algum grupo profissional, que eu não sei qual era. A gente deve ter tocado ‘There Will Never Be Another You’ e outros standards americanos, porque nem se sonhava tocar música brasileira improvisando naquela época”, disse o músico.

Instrumentista de gosto apurado, Sion naquela ocasião adorava o cool jazz das composições do pianista Dave Brubeck (1920-2012), com o som do sax alto de Paul Desmond (1924-1977), da bateria de Joe Morello (1928-2011) e da condução precisa do contrabaixo de Eugene Wright (1923-2020).

“O jazz era puramente americano. Nos discos de jazz do Dick Farney e do Casé, ainda não existia essa concepção de jazz. Sabe quando começou isso? Nos anos 1970, com o Hermeto [Pascoal]. Quando ele foi para os Estados Unidos, ele começou a abrir um caminho para a nossa geração. Ele, o Egberto [Gismonti] e o Victor Assis Brasil [saxofonista (1945-1981)] que também começou a compor pensando em jazz.”

Entre os outros artistas a que Sion se recorda de ter assistido nas jam sessions das Folhas figuram apresentações do pianista Pedrinho Mattar (1936-2007) e do saxofonista Paul Winter, 85.

“As jam da Folha são muito importantes na minha vida. Eu ouvia discos e, de repente, foi pela primeira vez que eu ouvi uns americanos tocando jazz ao vivo. Lembro que fiquei sem ar, porque foi uma coisa tão forte. São alguns momentos que a gente toma uma pancada emocional, né? E isso é muito importante. Sempre lembro, com muito carinho das jams, porque foi uma tremenda força, né? Eu era muito novo, recebi alguns elogios e isso me motivou muito a estudar sax. Foi graças a essa possibilidade da Folha, né?”, falou o artista.

Na sua apresentação na Folha, o músico não se lembra se o contrabaixista era Luiz Chaves (1931-2007) ou seu irmão, Sebastião Oliveira da Paz (1927-2010), o Sabá. “Foi um dos dois, porque precisava ter um baixo, para não ficar aquela coisa vazia, né? E um deles nos deu uma força. O baterista era o Elton e o pianista, o Flávio Clemente.”

De seus 14 anos aos dias atuais, Sion percorreu um longo caminho, durante o qual cursou uma faculdade de psicologia, participou de inúmeras bandas e grupos com várias formações, gravou muitos discos, alguns próprios, escreveu inúmeros arranjos, regeu várias orquestras, big bands e continua a se dedicar à arte de amealhar os sons, mas em compasso de espera.

“Estou aguardando um convite para formar uma orquestra, mas está muito demorado. Não sei se vai dar certo, né? E aí, estou na espera. É ruim isso. O que eu faço então? Atualmente, ou faz uns anos, ou melhor, faz muitos anos, eu tenho um duo com o Itamar Colaço [contrabaixista] e, às vezes, nos apresentamos por aí. Na verdade, tenho estudado muito, né? Além de enviar sempre projetos para serem aprovados, não estou fazendo nenhuma atividade fora dessas quatro paredes. Então eu tô esperando…Assim, eu estou esperando, não um milagre, espero que o destino faça pintar alguma coisa fixa, para que eu possa me realizar nessa área orquestral, de arranjador, compositor, e ao mesmo tempo não perder meu papel de solista. Enfim, hoje, eu estudo barroco, bebop, choro, e muito piano”, disse o artista de seu estúdio, montado em seu apartamento, no bairro do Sumaré, em São Paulo.

Autor: Folha

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