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Dívida pública global encosta em 100% do PIB – 07/12/2025 – Mercado

A dívida pública global se aproxima de corresponder a 100% do PIB mundial e a ultrapassar em poucos anos o nível do pós pandemia, quando os governo se endividaram rapidamente para enfrentar a crise sanitária. O endividamento em relação ao PIB é o principal indicador de solvência de um país.

Déficits orçamentários crescentes em algumas das principais economias têm levado governos a encurtar os prazos dos títulos que emitem para rolar a dívida a fim de tentar pagar menos juros no curto prazo. O perigo, porém, é torná-los mais vulneráveis a mudanças repentinas na percepção de risco dos investidores —que é crescente.

Outro ponto é que, diante de dívidas em elevação, investidores podem passar a exigir juros maiores. Países emergentes como o Brasil teriam que praticar taxas ainda mais altas a fim de atrair investidores que poderiam migrar para outros países mais seguros.

Ao final do segundo trimestre deste ano, a dívida pública global atingiu US$ 101,3 trilhões. Em apenas um ano, houve aumento de 9% —levando o endividamento ao equivalente a 97,6% do PIB mundial, segundo o IIF (Instituto de Finanças Internacionais, na sigla em inglês, que reúne 400 instituições financeiras).

Os países que registram os maiores crescimentos na dívida são China, França, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão. A situação dos EUA é notável. Embora desfrute de status de porto seguro, a dívida federal está projetada para subir a 145% do PIB até 2050 sob as políticas vigentes. O Tesouro americano estima em 5,9% do PIB o déficit orçamentário do país para o ano fiscal de 2025.

No Brasil, houve aumento de mais de 6 pontos percentuais no endividamento público em pouco mais de dois anos e meio de governo Lula (PT). O incremento chegaria a 9 pontos ao final de 2026, o que é considerado insustentável por muitos economistas.

Pelos critérios do FMI (Fundo Monetário Internacional), a dívida pública bruta brasileira atingiu 89% do PIB ao fim do segundo trimestre. É a maior entre os emergentes (média de 72,7%), atrás apenas da China, com 93,4%. O FMI inclui títulos públicos na carteira do Banco Central para calcular a dívida, enquanto o órgão brasileiro não os considera. Pelo critério do BC, a dívida equivalia a 78,1% do PIB em setembro.

Em comum, todos os países com crescimento acentuado no endividamento operam com déficits fiscais (despesas maiores que as receitas) significativos. Eles são impulsionados sobretudo por políticas de gastos estatais para sustentar o ritmo da economia (caso brasileiro), maiores despesas com saúde (devido ao envelhecimento populacional) e investimentos em defesa.

O IIF destaca que ondas populistas em vários países têm impedido que governos adotem medidas amargas para corrigir desequilíbrios fiscais e diminuir o déficit. O resultado é que a necessidade de financiamento de várias economias hoje é maior do que durante a pandemia, quando o endividamento global atingiu 105% do PIB. Depois, recuou —e agora volta a crescer.

Há alguns dias, Pablo Hernández de Cos, presidente do BIS (Banco de Compensações Internacionais, o BC dos bancos centrais) se disse angustiado com o aumento descontrolado das dívidas soberanas e a forma como estão sendo financiadas. Antes da crise global de 2008, o BIS alertara para o grave risco de endividamento privado em vários países, e não foi ouvido.

Segundo o relatório Monitor Fiscal do FMI, em um cenário adverso, o endividamento público global pode chegar a 117% do PIB em 2027, o maior nível desde o final da Segunda Guerra, quando os países se endividaram muito.

Não há um indicador preciso do percentual relativo à época, pois poucos países têm séries tão longas de endividamento e contas nacionais que permitam o cálculo. A estimativa, no entanto, é de 132% do PIB para 1948.

“Não há sinais de reversão significativa na tendência de alta do endividamento. Muitos países continuam operando com déficits fiscais persistentes”, afirma Marcello Estevão, diretor-gerente e economista-chefe do IIF.

No caso brasileiro, diz, reduções da taxa básica do BC (Selic) vão depender de como as contas fiscais se comportarem olhando mais à frente. “O Brasil precisa de um ajuste fiscal para aliviar a pressão de demanda agregada nos níveis de preços. Uma dinâmica ruim da dívida pública implica um prêmio de risco mais elevado para que os compradores de dívida aceitem comprá-la”, afirma.

Alguns economistas considerados heterodoxos afirmam que o Brasil não deveria se preocupar tanto com seu nível de endividamento, pois outros países têm dívidas maiores, como o Japão (214,1% do PIB), e demais países avançados (112,5% na média).

O argumento contrário é que essas economias são ricas, e têm condições de aumentar impostos sobre a população em uma emergência fiscal —algo difícil no caso brasileiro. Outro ponto, segundo o economista Samuel Pessôa, do FGV-Ibre e colunista da Folha, é que muitos deles têm taxas de poupança bem maiores que a brasileira, o que leva governos a incorrer em déficits (e se endividar) para ocupar o espaço de demanda que famílias e o setor privado não ocupam.

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