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Mascarar comportamentos afeta pessoas neurodivergentes – 08/12/2025 – Equilíbrio

Quando Amara Brook estava se formando como psicóloga clínica, um supervisor ofereceu um conselho antes de uma importante reunião sobre um paciente: Fique quieta e escute seus superiores.

No campo médico hierárquico, acatar figuras de autoridade e navegar por grandes egos é normal. Mas para Brook, que tem TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e autismo, as regras sociais não escritas eram difíceis de seguir.

Então, Brook prendeu uma bala na boca. O doce formou um tipo de cimento entre os dentes — uma “mordaça”, disse ela; sem isso, o forte impulso de se manifestar teria prevalecido e “definitivamente irritado os ânimos”.

A psicologa estava usando uma habilidade de enfrentamento chamada mascaramento: ocultar pensamentos ou comportamentos para se encaixar.

“Às vezes temos que fazer o que é eficaz, sabe?”, diz Brook, mas há um lado negativo —quando você está “encenando o tempo todo, é exaustivo”.

O mascaramento pode ajudar qualquer pessoa a navegar por ambientes desafiadores, como o local de trabalho. Mas para pessoas com autismo e TDAH, encobrir comportamentos sociais não convencionais pode se tornar uma estratégia de sobrevivência constante. E quando o mascaramento parece constante e inevitável, pode criar ou agravar problemas de saúde mental.

O que é ‘mascaramento’ e de onde veio o termo?

Mascaramento, às vezes chamado de camuflagem, é uma forma de gerenciar como nos apresentamos, escondendo coisas que outros podem achar questionáveis para criar uma impressão mais positiva.

Na academia, a ideia ganhou força pela primeira vez nos anos 60, quando o psicólogo social Erving Goffman revelou como o estigma levava as pessoas a esconder certas partes de sua identidade, como orientação sexual ou afiliação religiosa, que não eram imediatamente visíveis.

Mas o termo “mascaramento” não foi usado de forma proeminente até mais tarde, nos anos 70, quando os psicólogos Paul Ekman e Wallace V. Friesen o usaram para se referir ao ato de esconder emoções.

Mais recentemente, membros da comunidade autista começaram a usar a expressão “mascaramento autista” online para descrever a maneira como escondiam comportamentos como agitar as mãos, ou como estudavam e imitavam normas sociais como manter contato visual.

E em 2013, o manual usado por profissionais de saúde mental fez referência ao conceito, dizendo que os sintomas autistas “podem ser mascarados por estratégias aprendidas na vida adulta”.

O mascaramento autista é agora uma área emergente de pesquisa, e em 2019 pesquisadores desenvolveram uma medida de mascaramento chamada Questionário de Camuflagem de Traços Autistas.

Quando o mascaramento é útil?

Todos, sejam neurodivergentes ou não, precisam mascarar às vezes. Isso ajuda as pessoas a se sentirem aceitas por um grupo. E acreditar que você pertence é “um dos melhores preditores de bem-estar”, disse Mark Leary, professor emérito de psicologia e neurociência da Universidade Duke, que estudou motivação social.

O mascaramento pode ser empoderador quando é feito de acordo com os próprios valores de uma pessoa e por escolha, diz Iris Mauss, professora de psicologia e diretora do Instituto de Personalidade e Pesquisa Social da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Por exemplo, se você valoriza ser gentil e paciente, pode optar por evitar expressar tédio e frustração durante uma reunião de trabalho aparentemente interminável, explica Mauss.

Dessa forma, acrescentou ela, o mascaramento pode permitir “uma compreensão mais profunda e matizada do que a autenticidade realmente significa”, ajudando as pessoas a aderir aos seus princípios fundamentais.

Quando o mascaramento é problemático?

Às vezes, o mascaramento vai longe demais. Esconder partes importantes de nós mesmos pode prejudicar relacionamentos próximos e causar vergonha ou culpa, diz John Pachankis, professor de ciências sociais e comportamentais na Escola de Saúde Pública de Yale.

O mascaramento pode levar à depressão, ansiedade, esgotamento, diagnósticos de saúde mental perdidos e até comportamento suicida.

Mascarar o tempo todo “sugere que a maneira como você fundamentalmente é constitui um problema”, diz Sara Woods, psicóloga clínica no Centro de Autismo da Universidade de Washington e em clínica privada na Discover Psychology. Ela acrescentou: “Há muito esforço que vai nisso diariamente”.

Algumas pessoas podem temer, com razão, consequências sociais ou profissionais por mascarar menos, diz Woods, e essas preocupações podem ser intensificadas se estiverem em risco de discriminação por outros motivos, como racismo.

Se você está se perguntando se está mascarando demais, Mauss sugeriu perguntar a si mesmo: O mascaramento me ajuda em geral? Ajuda meus relacionamentos? Ou está causando mais danos?

Se os contras estiverem superando os prós, então você pode querer explorar mascarar com menos frequência, diz Mauss.

Como começar a desmascarar?

Devon Price, psicólogo social da Universidade Loyola de Chicago e autor de “Unmasking for Life”, recomendou encontrar “bolsões de segurança” e gradualmente abandonar sua máscara com familiares ou amigos que ofereçam apoio.

Price, que tem autismo, aconselhou testar as águas primeiro com a ajuda de um profissional de saúde mental, como os listados no diretório Neurodivergent Therapists.

Encontrar um grupo que corresponda à sua identidade é particularmente importante para desenvolver a autoaceitação, seja um grupo de autodefesa para pessoas autistas ou um clube de quadrinhos. Quando você olha ao redor, pode pensar: “Bem, não há nada de errado com eles, talvez não haja nada de errado comigo”, diz Price.

E se você abandonar sua máscara e não receber o apoio que esperava, considere tentar novamente mais tarde —as coisas podem mudar para melhor.

“É importante lembrar que as pessoas podem se tornar mais aceitadoras com o tempo, especialmente se puderem entender a questão através da perspectiva de uma pessoa importante em suas vidas”, diz Pachankis.

Este texto foi publicado originalmente aqui.

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