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Villani-Côrtes relembra jam sessions das Folhas – 21/02/2026 – Música em Letras

Na última quinta-feira (19), a Folha completou 105 anos. Acesse folha, 105, página que reúne textos históricos dos 105 anos do jornal, além de eventos, vídeos, bastidores das notícias e debates sobre o futuro do jornalismo.

A coluna Música em Letras não ficou de fora da festa e publica cinco entrevistas realizadas com músicos que participaram das jam sessions das Folhas.

No dia 5 de dezembro de 2025 completou-se 65 anos da primeira Jam Session das Folhas, evento que realizava audições musicais nos anos 1960, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no auditório do jornal. O evento inaugural teve grande repercussão, com o espaço lotado, e sua primeira apresentação foi registrada, ao vivo, no álbum “Jam-Session das Folhas“, no formato de Long Play (LP), lançado em 1961.

Entre os artistas que se apresentaram nas jam sessions das Folhas estavam o pianista e cantor Farnésio Dutra e Silva, conhecido como Dick Farney (1921-1987), Eliana Leite da Silva, 80, conhecida pelo nome artístico de Eliana Pittman, seu pai, o clarinetista e saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909-1969), e a cantora e compositora Rita Lee (1947-2023), além de vários músicos excepcionais, alguns ainda na ativa.

Entre esses exímios instrumentistas, que ainda brilham na arte de amealhar os sons, figuram o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, 90; o trompetista Magno D´Alcântara, 88, o Maguinho; o saxofonista, arranjador e compositor Roberto Sion, 79; o pianista e compositor Edmundo Villani-Côrtes, 95; e o pianista Luiz Mello, 88.

Leia, a seguir, a entrevista concedida por Edmundo Villani-Côrtes à coluna Música em Letras.

O pianista, compositor, professor e arranjador Edmundo Villani-Côrtes, 94, é um dos músicos que participou das jam sessions das Folhas, nos anos 1960. “Não me lembro exatamente do ano, mas participei. Os músicos que tocavam lá eram todos muito bons. Eram os donos da praça”, disse o artista referindo-se a instrumentistas experientes que se revezavam na noite de São Paulo, tocando de bar em bar, em formaturas, bailes, gravando discos, participando de programas de TV e rádio, além de viajarem acompanhando orquestras, cantoras e cantores.

Uma das muitas cantoras que Villani acompanhou foi Maysa (1936-1977). “Fizemos uma turnê pela Argentina. Eu chegava nos lugares e selecionava os músicos para nos acompanhar e fazíamos os shows. Ela tinha muitos problemas e na hora de cantar, cada dia era de um jeito.” Jeito certo ou errado? “Sempre cada vez melhor. Ela era muito musical e tinha muito bom gosto.”

Villani nasceu em Juiz de Fora (MG), no dia 8 de novembro de 1930. Aos 22 anos, ingressou no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, para estudar piano. Tocou na noite da então capital do país e na orquestra da Rádio Tupi, sob a regência do maestro Orlando Costa, o maestro Cipó (1922-1992).

Nos anos 1960 veio para São Paulo e passou a atuar em orquestras de rádios e TVs. Entre elas, na TV Gazeta, Bandeirantes e na Tupi, onde escreveu mais de mil arranjos para obras musicais de diversos gêneros. Nas rádios, foi pianista na Record, Bandeirantes e Gazeta. Em 1970, ingressou para a Orquestra da Rádio Tupi.

“Cinco Miniaturas Brasileiras” é talvez sua peça de maior destaque, composta três anos depois de ter ingressado na Academia Paulista de Música, em 1973. Em 1982, lecionou as disciplinas contraponto e composição na UNESP.

Em 1988, concluiu o mestrado em composição na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Para tal teve de sacrificar seu emprego de pianista na banda do programa de entrevistas Jô Onze e Meia, no SBT. Na ocasião, resolveu optar por terminar o mestrado que estava fazendo. “Eu tinha de ir uma vez por semana para o Rio de Janeiro. Eram aulas com vários materiais em outras línguas. Tudo muito difícil e eu tive de deixar o programa para me dedicar a isso”, contou.

Villani lembra com exatidão que Jô Soares (1938-2022) gostava muito de jazz, assim como o público que lotou várias vezes o auditório da Folha nas jam sessions, nos anos 1960. “As pessoas gostavam muito, porque o jazz era a música que estava em voga. A gente tocava músicas de filmes famosos, que depois viravam standards de jazz”, disse.

Tocar na jam sessions das Folhas era uma boa? “Sem dúvida, sem dúvida.”

Em uma dessas jam sessions, Villani, ao piano, tocou as músicas: “I’ve Got You Under My Skin”, “You Go To My Head”, “Something’s Gotta Give”, “Cheek to Cheek” e “Love For Sale”. Todas com as participações do cantor Bob Fallon, além de Bolão no saxofone, Rafael D’Aquino na bateria, e Tibor no contrabaixo. “Essas eram as músicas que a gente tocava, né? Essas e muitas outras. Tocávamos muito nessa época. Em todo lugar, casas [boates e bares] em que havia um piano. Havia pianista e músicos muito bons na noite de São Paulo. Esse Bob [Fallon, cantor] era de fora e tinha um repertório bem rico, bem variado. Eram músicas de musicais, de filmes e dessas coisas todas”, disse.

Perguntado se apenas o jazz predominava, Villani disse que não. “Tinha compositores brasileiros como o Jobim. Jobim, infalivelmente, né? O pessoal que tocava jazz tocava Jobim, porque ele tinha essa influência do jazz, né?”

O grande aprendizado vinha, segundo Villani, de ir a um local, na noite, para ouvir alguém tocar. “Eu ouvia dizer que tinha um cara que dava uns acordes diferentes, eu já ia lá ouvir o cara tocar. Quer dizer, aprendia, né? Eu não fazia cerimônia, não. Eu ia para todo lado ouvir os outros. Era outro mundo, né?”

Era o mundo de quem inaugurou como atração a boate Stardust, no início dos anos 1960, na praça Roosevelt, em São Paulo, tocando jazz, blues, MPB e o que viesse. “O Alan [Gordin, pai de Lanny Gordin e dono da Stardust] era pianista e o Hugo [Landwer, sócio de Alan], baterista. Eles me ouviram tocar um boggie-woogie e me convidaram para inaugurar e trabalhar na Stardust. Era para alternar com eles, né? Alternei muito com o Hermeto Pascoal também.”

O senhor está aposentado? “Estou aposentado, não toco mais profissionalmente, mas é o seguinte: eu sempre toco para mim mesmo.”

Autor: Folha

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