segunda-feira, janeiro 19, 2026
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juros altos exigem gestão eficiente

Responsável por cerca de 30% do PIB brasileiro, o agronegócio brasileiro vai entrar em 2026 com uma dinâmica completamente diferente. Os últimos anos foram marcados por recordes de preços, mas o cenário mudou: os próximos vão exigir cautela e eficiência operacional milimétrica de produtores rurais, investidores e empresas que atuam no setor.

Análises de instituições financeiras que atuam no agronegócio, como o Itaú BBA e o Rabobank, indicam um cenário paradoxal: a produção física continuará atingindo níveis recordes, mas a rentabilidade enfrentará pressão de juros elevados, custos pressionados e um ambiente macroeconômico mais desafiador.

O Brasil continuará alimentando o mundo com eficiência e volume recordes. Mas a conta para fazer isso virou mais complexa — e quem não dominar gestão financeira rigorosa e proteção de risco ficará para trás. “O mercado ficou muito mais desafiador”, lembra César de Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA.

O fim da festa: cenário econômico fecha comportas para o agronegócio em 2026

A estrutura macroeconômica que sustentou a expansão agrícola nos últimos anos sofre transformação profunda. A robustez na produção física não se traduz em rentabilidade financeira imediata. “Não há expectativa de melhoria no preço das commodities dado que se espera aumento na safra e um consumo mais equilibrado”, avalia Monica Araujo, economista-chefe da InvestSmart XP.

O crescimento da economia vai ser mais tímido. Segundo o boletim Focus do Banco Central (BC), 2025 será o primeiro ano depois de quatro seguidos em que a atividade econômica não vai ter um aumento próximo a 3%. A mediana das projeções do mercado financeiro aponta que o PIB deve crescer 2,3% neste ano e 1,8% no próximo.

Custo de capital e risco de crédito são ameaças ao agronegócio em 2026

O custo de capital é a maior pressão sobre os investimentos do agronegócio em 2026. O Banco Central mantém a Selic (taxa básica de juros) em patamares elevados, com projeções do mercado indicando permanência na casa dos 15% até o primeiro trimestre e encerramento do ano a 12%.

Para produtores rurais acostumados a usar crédito para expandir suas atividades, isso significa capital proibitivo. O reflexo é imediato: as recuperações judiciais no setor estão em alta. Segundo a RGF Consultores, 25 em cada mil produtores de soja e nove em cada mil bovinocultores estavam em recuperação judicial no terceiro trimestre de 2025. São duas das dez atividades com maior proporção de reestruturações no país.

A fragilidade fiscal brasileira, agravada pela proximidade das eleições presidenciais de 2026, mantém o real sob pressão. Uma eventual desvalorização pode favorecer a receita de exportações em reais, mas encarece insumos importados e prejudica o controle da inflação. O Rabobank é direto: o real não poderá mais contar com o diferencial de juros favorável do passado. Agora vai refletir, cada vez mais, as incertezas das contas públicas.

Esse ambiente macroeconômico desafiador — combinado a juros elevados, fragilidade fiscal e volatilidade cambial — afeta diretamente os custos de produção, como evidenciado pela pressão no mercado de insumos.

Insumos na encruzilhada: geopolítica e preços travam produção

Com o cenário macroeconômico estabelecido, o impacto mais direto recai sobre os insumos. O mercado de fertilizantes apresenta um paradoxo: o produtor brasileiro mantém investimento em tecnologia para aumentar produtividade, e as importações batem recordes. No entanto, os preços permanecem em níveis historicamente altos.

“O Brasil atravessa um período de menor importação de fosfatados em 2025, reflexo dos preços elevados e das relações de troca pouco favoráveis”, observa Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX. A resposta dos produtores foi pragmática: migraram para fertilizantes menos concentrados, como o superfosfato simples (SSP), que oferece melhor relação custo-benefício.

A dependência de potássio e fosfatados coloca o Brasil à mercê de decisões de Rússia, China e Oriente Médio. Restrições de exportação pela China forçaram maior recurso ao SSP e ao Super Triplo (TSP). Um indicador expressivo: pela primeira vez na história, a importação de Sulfato de Amônio (SAM) superou a de MAP (fosfato monoamônico, fertilizante de alta concentração de fósforo). Produtores buscam reduzir custos via substituição de produtos.

Adubação fica mais cara em 2026

O Rabobank projeta aumento de 7,4% no custo médio de adubação para 2026. A cana-de-açúcar sofre ainda mais: alta de 10,7%. O Itaú BBA aponta que essa mudança no perfil de compra é motivada pelos altos preços do MAP — e sinaliza que a busca por eficiência operacional já está em curso.

O mercado de defensivos (agroquímicos para proteção de plantas), por sua vez, projeta crescimento moderado de 1,5% em volume para 2026, mantendo-se acima de US$ 20 bilhões.

A eficiência logística brasileira garantiu abastecimento recorde, mas não blindou o produtor da inflação de custos em dólar e das pressões geopolíticas.

Para 2026, o desafio não será a falta de produto, mas a gestão de margens operacionais (lucro por unidade) diante de custos de adubação maiores em ambiente de preços de commodities estabilizados. Essa pressão de custos se materializa no complexo de grãos — o motor do agronegócio nacional.

Grãos: recorde de produção, fome de lucro

O complexo de grãos enfrenta 2026 com expectativa de volume recorde, mas lucratividade sob pressão. A dinâmica de cada cultivo, porém, diferencia oportunidades e riscos.

Soja: 178 milhões de toneladas, mas margens que encolhem

O Brasil deve atingir de 177 milhões a 178 milhões de toneladas na safra 2025/26, consolidando liderança global, apontam estimativas do Itaú BBA, do Rabobank e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No entanto, a expansão desacelera: a área plantada deve crescer apenas 2%, frente à média histórica de 4%. O motivo é a fragilidade financeira do produtor, conforme o Rabobank.

O mercado global está bem abastecido, com estoques mundiais em quarto ano consecutivo de reconstrução. Isso gera pressão contínua sobre os preços negociados em Chicago, que é a referência global para soja.

Os especialistas apontam que a rentabilidade em reais dependerá de dois fatores: prêmios de exportação nos portos, quando há demanda concentrada, e câmbio favorável.

Existe cenário em que a intensificação da guerra comercial EUA-China concentre compras chinesas na América do Sul, sustentando esses prêmios. Sem esse fator geopolítico, o cenário-base é de margens estreitas, exigindo máxima eficiência operacional.

Milho: de commodity global a aposta interna

A produção total de milho para 2025/26 é projetada em 137 milhões de toneladas, uma redução de 5 milhões ante o ciclo anterior. Há um crescimento de 2,2% na área cultivada, destaca o Rabobank.

Há uma mudança estrutural: a explosão da demanda doméstica. A demanda de etanol de milho deve crescer 18%, atingindo 23 milhões de toneladas em 2025 e caminhando para 28 milhões em 2026. Esse vetor cria um piso de preços (nível mínimo de remuneração) no mercado interno, especialmente no Centro-Oeste, alterando a vantagem tradicional de exportar versus vender internamente.

O lado vulnerável é a safrinha. O atraso no plantio de soja em Goiás e Minas Gerais pode deslocar a semeadura de milho para fora da janela ideal, aumentando risco climático. Produtores também enfrentam queda de produtividade em regiões como Sorriso (MT): passou de 125 para 115 sacas por hectare, uma baixa de 8%, segundo o Itaú BBA.

A decisão de plantio será tomada economicamente: preço da commodity versus risco climático e custo de insumos. O milho segue como opção mais atrativa pela maior facilidade de venda no mercado interno (liquidez), mas a margem de viabilidade diminui.

Enquanto grãos enfrentam pressão de oferta, a pecuária vive dinâmica completamente inversa em 2026.

Pecuária: o prêmio vai para quem criar

Boi em alta: retração de 5% na oferta

A pecuária de corte brasileira encerra um ciclo de abate intenso e entra em fase de retenção. A melhora nos preços dos bezerros, combinada com menor oferta de animais, incentiva criadores a reter fêmeas para reconstrução de rebanhos, conforme o Rabobank. Resultado: retração de 5% a 6% na produção de carne em 2026.

Essa redução, combinada com forte demanda externa, desenha cenário altista. Os EUA enfrentam fase de menor oferta bovina até 2026/27, abrindo espaço para o Brasil no mercado internacional e sustentando preços em dólar. Para o criador que sobreviveu aos anos de baixa rentabilidade, 2026 promete recuperação de margens.

O desafio estrutural: terminadores – produtores de gado para abate – e frigoríficos enfrentarão matéria-prima mais cara e dificuldade de repassá-la ao consumidor doméstico com poder de compra limitado. Os cortes que mais aumentaram de preço em 12 meses para o consumidor, segundo o IBGE, foram a capa de filé (13,68%), o peito (12,91%) e o cupim (11,46%).

Frango e porco ganham a aposta

Avicultura e suinocultura vivem um momento oposto ao da bovinocultura. Com milho e farelo de soja em preços estabilizados, custos de produção caem e margens operacionais disparam.

A avicultura deve crescer 2% em 2026, sustentada por custos de ração controlados e competitividade frente ao boi (mais caro), segundo o Rabobank e Itaú BBA. Mercados como México abrem oportunidades, apesar de limitações na oferta de genética (matrizes de criação).

A suinocultura vive momento particularmente forte: margens em níveis não vistos desde os anos 2000. A diversificação de mercados — reduzindo dependência da China e abrindo frentes em Filipinas e México — trouxe solidez estrutural.

A oferta deve crescer 2% a 3% em 2026, com exportações avançando até 4%, conforme o Rabobank. O mercado interno se beneficia da competitividade frente ao boi e de eventos como Copa do Mundo e eleições, que aumentam o consumo de carne.

A tentação do crescimento desordenado

O risco é real: a melhor rentabilidade em décadas pode induzir expansões descontroladas, repetindo ciclos de excesso de oferta e queda de preços do passado.

O Itaú BBA recomenda cautela estratégica. Apesar do bom momento, produtores devem priorizar eficiência operacional e disponibilidade de caixa em vez de crescimento agressivo.

Enquanto a pecuária demonstra oportunidades claras, o complexo sucroenergético enfrenta dilema estrutural diferente.

Açúcar e etanol: do preço recorde ao dilema da escolha

O setor de cana-de-açúcar transita de déficit global para excedente. Após ciclo de preços de açúcar extremamente remuneradores, o mercado global sinaliza superávit de 2,6 milhões de toneladas em 2025/26, impulsionado pela recuperação da oferta asiática (Índia e Tailândia) e a produtividade dos canaviais brasileiros.

As cotações em Nova York (mercado internacional de açúcar) recuaram 32% desde setembro do ano passado, intensificadas por apostas de queda de preço feitas por fundos de investimento.

Usinas blindadas e o dilema do etanol

As usinas ingressam em 2026 com estrutura de capital robusta. Aproveitaram o ciclo de alta para reduzir endividamento, sanear balanços e criar colchão de disponibilidade de caixa.

Investimentos em eficiência operacional (renovação de canaviais, irrigação, cristalização) conferem flexibilidade industrial para alternar composição de produtos (açúcar versus etanol). Essa resiliência será essencial no ciclo mais apertado que se aproxima.

Para a próxima safra de cana, o Rabobank projeta moagem robusta — entre uma base de 600 milhões e um cenário otimista de 640 milhões de toneladas — sustentada por investimento amplo em canaviais e clima favorável. O grande dilema será a alocação: com açúcar em queda, o etanol ganha atratividade relativa pela primeira vez em três anos.

Porém, a oferta de etanol crescerá significativamente. A produção do Centro-Sul deve alcançar recorde próximo de 36 bilhões de litros, resultado da recuperação dos canaviais (aproximadamente 4 bilhões de litros adicionais) combinada com expansão do etanol de milho (1,5 bilhão a 2 bilhões de litros adicionais).

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou elevação da mistura obrigatória de etanol na gasolina para 30%, com vigência desde 1.º de agosto. A medida criou piso de demanda (nível mínimo garantido), mas é insuficiente para absorver o volume projetado. Com produção próxima de 36 bilhões de litros e consumo adicional limitado aos 30% de mistura, a oferta superará a demanda, destaca a consultoria do Itaú BBA.

O banco é enfático: esse desequilíbrio forçará correção negativa de cerca de 10% nos preços do etanol hidratado, comprimindo margens mesmo em ambiente regulatório favorável. O setor chegará a 2026 preparado financeiramente, mas com pressão contínua em preços — um ciclo completamente diferente do período recente de bonança.

Para além do complexo de grãos e energia, culturas perenes enfrentam desafios estruturalmente distintos ligados à volatilidade de preços e questões sanitárias.

Café, laranja e algodão: desafios específicos

Para além do complexo de grãos e energia, outras culturas enfrentam desafios estruturalmente distintos.

Café: os últimos meses de bonança

O café viveu 2025 com preços espetaculares — muito acima dos custos, permitindo capitalização excepcional dos produtores. Para 2026, o Itaú BBA projeta safra maior, recuperada dos problemas climáticos anteriores e beneficiada pelo retorno das chuvas em novembro que favoreceram as floradas de Arábica. O Rabobank mantém cautela diante de eventos climáticos adversos no Cerrado Mineiro, recomendando monitoramento das lavouras.

Apesar de maior oferta, os estoques globais continuam apertados — o que deve evitar quedas bruscas de preço. O Rabobank projeta preços do arábica entre US$ 3,10 e US$ 3,55 por libra-peso em 2026.

Questões regulatórias como as normas antidesmatamento da União Europeia e barreiras comerciais norte-americanas adicionam variações imprevisíveis de preço ao mercado.

Com margens operacionais em 71%, conforme o Itaú BBA, a estratégia recomendada aos produtores é aproveitar os atuais níveis de preço para realizar fixações, travando custos e garantindo disponibilidade de caixa em um ano de ajustes técnicos e regulatórios.

Laranja: rumo à batalha contra a doença que não tem cura

A citricultura viveu reversão brusca. A produção de laranja saltou para 295 milhões de caixas na última safra, 28% acima do ciclo anterior, combinada com retração de demanda pelos preços altos do varejo. O resultado: reprecificação rápida dos preços do suco, que recuaram de máximas históricas registradas no início de 2025.

Para 2026, o cenário é de preços pressionados pela reconstrução de estoques de suco. A safra pode consolidar os Estados Unidos como o principal destino do suco de laranja brasileiro, ultrapassando a União Europeia.

Segundo o Itaú BBA, esse movimento é sustentado pela contínua quebra de safra na Flórida, que deve produzir apenas 60 mil toneladas de suco, e foi acelerado pela retirada de tarifas adicionais sobre o produto brasileiro.

“Essas isenções chegam num momento importante em que o setor enfrenta queda de preços devido ao efeito danoso nos consumos após recordes que elevaram o varejo”, afirma Ibiapaba Netto, diretor executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).

O desafio crônico permanece: o Huanglongbing (greening — uma doença bacteriana) avança, aumentando severidade e custos de produção. A rentabilidade extraordinária de 2025 retorna a patamares mais modestos, exigindo eficiência máxima no controle fitossanitário.

No algodão, liderança sem margem: Brasil vence EUA, mas enfrenta preço baixo

O Brasil consolidou-se como potência no algodão, superando os Estados Unidos e assumindo liderança nas exportações globais. Segundo o Rabobank, a área de algodão na safra 2025/26 ultrapassará 2,1 milhões de hectares — maior nível em 37 anos.

Contudo, o crescimento de apenas 2,5% representa forte desaceleração ante a média histórica de 11%. Produtores refletem postura mais cautelosa diante de margens mais estreitas.

O mundo está bem abastecido de fibra. A China colhe safras grandes e a demanda global por têxteis desacelera devido ao crescimento econômico fraco. O consumo global da fibra está estagnado.

Nesse cenário, a rentabilidade do cotonicultor brasileiro será testada pelos preços reduzidos. A eficiência produtiva do Brasil — baseada em escala e tecnologia — será diferencial crítico para manter competitividade num mercado de preços baixos. Para 2026, o imperativo é claro: não expandir a produção sem margem de segurança financeira.

Autor: Gazeta do Povo

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