
A sociedade retratada no noticiário parece aprisionada pelo vírus da morbidez. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam diariamente na passarela da mídia. A notícia positiva, tão verdadeira quanto a negativa, chega ao leitor como surpresa – quase como um fato exótico. O negativismo sistemático tornou-se uma lente distorcida que mascara algo essencial: nossa incapacidade de reconhecer a grandeza silenciosa que pulsa no cotidiano.
Guimarães Rosa lembrava com sabedoria: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Certo jornalismo, porém, insiste em enxergar apenas o lado sombrio, como se o Brasil real coubesse inteiro no inventário de tragédias diárias. O cotidiano do brasileiro médio seria, afinal, tão inóspito assim? A resposta é rotunda: não.
Tomemos como exemplo a juventude. O noticiário privilegia o avanço da violência, a escalada das drogas, o drama do desemprego e a angústia econômica que castiga milhões de famílias. É verdade: muitos adolescentes vivem anos perigosos, marcados por riscos sociais e culturais. Mas esta é apenas uma parte da história. A outra metade – luminosa, fecunda e transformadora – permanece ofuscada por uma mídia obcecada pela síndrome da informação sombria.
A juventude, ao contrário do estereótipo disseminado por uma indústria cultural isolada em sua própria bolha, não está à deriva. Ganha corpo uma procura sincera por valores familiares, éticos e até religiosos
A delinquência está longe de representar a maioria estudantil. Denunciar a violência é dever ético. Mas igualmente ético é iluminar o vasto território do bem: iniciativas de voluntariado, gestos de solidariedade, ações sociais, projetos culturais e uma surpreendente disposição para o trabalho. Há uma juventude generosa, disciplinada e responsável que constrói a cidadania sem alarde, sem marketing, sem pirotecnia ideológica.
Essa juventude, ao contrário do estereótipo disseminado por uma indústria cultural isolada em sua própria bolha, não está à deriva. Há em curso profundas mudanças comportamentais. O relacionamento descartável perde espaço para o compromisso. Ganha corpo uma procura sincera por valores familiares, éticos e até religiosos. Não se trata de opinião: é um fato demonstrado por pesquisas. Mesmo jovens que enfrentam ambientes domésticos difíceis continuam atribuindo à família um papel decisivo em suas escolhas, formação moral e horizonte de vida.
Também no campo afetivo sopra um vento novo. A cultura da fidelidade substitui, pouco a pouco, a síndrome do relacionamento efêmero. Há uma redescoberta do valor dos vínculos, elemento civilizatório que muitas agendas “modernas” insistem em desprezar.
Outro fenômeno notável emerge nas universidades e no mercado de trabalho: o ocaso das velhas ideologias e o florescimento de um profissionalismo vigoroso. A juventude atual acredita no mérito, na excelência e no esforço pessoal como instrumentos legítimos de transformação. Defende o pluralismo e o debate de ideias. Recusa a imposição de dogmas. Busca liberdade de pensamento, não catecismos travestidos de ciência.
Impressiona – e muito – o número crescente de jovens que abraçam o estudo da filosofia, da literatura e da história com espírito livre. Não são reféns da matriz marxista que dominou a academia durante décadas. Estão abertos ao diálogo, ao contraditório, à busca honesta pela verdade. Valorizam as humanidades porque intuem que não há inovação verdadeira sem formação sólida; não há tecnologia transformadora sem raízes culturais profundas. Há uma inquietação saudável nas novas gerações. Uma rebeldia sadia. Uma sede que não se sacia com promessas vazias, com entretenimento raso ou com ideologias enganosas.
Mas o fenômeno mais promissor é o avanço do empreendedorismo juvenil. Em comunidades, centros urbanos, escolas técnicas, universidades e plataformas digitais, floresce uma geração ousada, criativa, disciplinada, capaz de transformar problemas em oportunidades. Jovens que montam negócios, lideram projetos sociais, criam startups, desenvolvem soluções em tecnologia, revitalizam tradições regionais e constroem impacto social real. Não esperam a tutela do Estado. Preferem agir.
A juventude atual acredita no mérito, na excelência e no esforço pessoal como instrumentos legítimos de transformação. Defende o pluralismo e o debate de ideias
Essa juventude – empreendedora, culturalmente interessada, moralmente enraizada e ideologicamente livre – será protagonista de uma revolução silenciosa no Brasil. Uma revolução sem barricadas, sem gritos histéricos, sem radicalismo. Uma revolução de atitudes, valores e trabalho. Uma revolução que começa na família, floresce na escola, ganha densidade na cultura e se consolida na vida profissional.
O mundo está mudando. O Brasil também. Quem não enxergar essa virada cultural perderá conexão com a nova geração – inclusive no mercado editorial, cada vez mais sensível às demandas de leitores que buscam sentido, profundidade e verdade. A juventude brasileira não é um problema. É uma oportunidade extraordinária. E será, queiram ou não os profetas do pessimismo, o motor de uma transformação duradoura e decisiva. Os ventos estão mudando.
O desafio do jornalismo – e da sociedade – é simples e urgente: olhar para a realidade inteira. Não apenas para a sombra, mas também para a luz. Porque é na luz, e não na escuridão, que nascem os projetos capazes de renovar um país.
Autor: Gazeta do Povo





