Quatro pessoas ocupam uma pequena sala de estar, mas não interagem. Dois homens e uma mulher estão sentados em cantos diferentes do cômodo, todos com o olhar perdido, dispersos em pensamentos tristonhos. É difícil dizer o gênero do quarto indivíduo que, deitado no sofá com pálpebras roxas e boca aberta, parece adoentado e dorme profundamente.
“Interior de Pobres II” é uma das telas mais emblemáticas de Lasar Segall, pintor lituano radicado no Brasil em 1923, onde se tornou um expoente do modernismo. O quadro estava rasgado e há algum tempo fora da parede do Museu Lasar Segall, mas recentemente foi restaurado em parceria com o Museu Judaico, onde agora é exposto na mostra “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”, dedicada a apresentar um panorama amplo do artista.
Os personagens de rostos alongados, traços simples e expressivos marcariam seu estilo. A cena melancólica, pintada em tons de marrom e cinza, é um retrato de uma Alemanha empobrecida pela Primeira Guerra Mundial.
Não muito longe de “Interior de Pobres II” é exibido também “Eternos Caminhantes“, um dos muitos quadros classificados como “arte degenerada” pelos nazistas e confiscado do Museu da Cidade de Dresden em 1933. A tela foi encontrada por um marchand francês em 1954, no sótão de um ex-oficial. Na tela, cinco figuras angulosas e sombrias representam a angústia daqueles que são obrigados a deixar suas casas para escapar da guerra ou da discriminação.
As duas obras elucidam bem o escopo artístico de Segall, comprometido a retratar a condição humana diante dos conflitos e desigualdades que moldavam uma nova sociedade no século 20. Quando chegou ao Brasil, por exemplo, pintou o cotidiano no Mangue carioca, região conhecida pela prostituição. “Rua de Erradias” e “Figura com Reposteiro”, presentes na exposição, mostram mulheres de peito nu caminhando por vias estreitas e espiando por janelas de casebres.
“Segall tem a intenção de dignificar essas mulheres, no sentido de entender que elas estão ali por uma condição de vida”, diz Patricia Wagner, curadora da mostra no Museu Judaico. A empatia do artista, segundo ela, parte de sua experiência pessoal —judeu, Segall foi discriminado em uma Europa de antissemitismo crescente e, no Brasil, por ser estrangeiro.
Em 1943, quando expôs suas obras no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, foi atacado por críticos conservadores. Na época, Vinicius de Moraes partiu em sua defesa e chegou a escrever um poema ao pintor, “Soneto a Lasar Segall”. “Segall foi muito hostilizado no Brasil. A crítica o via como um artista estrangeiro, moderno, degenerado”, diz Wagner.
No Brasil, a paleta de cores de Segall se tornou mais exuberante, consequência da obsessão do artista com a incidência da luz tropical. Exemplo é “Morro Vermelho”, obra de coleção particular e raramente exposta, também presente na mostra. Nela, uma mulher negra segura um bebê no centro da tela, com o semblante sério, rodeada por uma paisagem de cores vívidas e alegres.
Os anos de experimentação, porém, foram interrompidos pela eclosão da Segunda Guerra Mundial na Europa e pela perseguição aos judeus. Retratou, em uma série de desenhos feitos em um caderno, os horrores da guerra que acompanhava à distância, quase como um diário. Em “Pogrom”, de 1937, vários corpos aparecem amontoados sobre escombros de uma cidade. Segall pintava o genocídio.
São telas brutais e sensíveis, recheadas de violência, muito diferentes de seus retratos de um cotidiano judaíco sereno, talvez um tanto inocentes, feitos antes da guerra. Filho de um escriba da Torá, Segall cresceu em uma família ortodoxa.
Wagner lembra, porém, que sua cidade natal, Vilnius, na Lituânia, esteve sob domínio do Império Russo por mais de um século, até 1918, antes de ser tomada pelos alemães em 1941.
“Era um lugar de disputa e alvo dos pogroms”, diz, referindo-se a como eram chamados os ataques violentos contra judeus e suas comunidades também no período de domínio russo. “Mas há uma beleza naquela espiritualidade judaica onde ele cresceu, uma relação com a memória de infância.”
Ainda na vertente mais intimista de seu trabalho, sua mulher, a escritora Jenny Klabin Segall, aparece com frequência. Os dois se casaram em 1925 e seguiram juntos até a morte do pintor, em 1954. Depois, ela documentaria a obra do marido e idealizaria o museu com seu nome.
Outras figuras recorrentes nas telas do pintor são Lucy Ferreira, aluna de Segall e sua modelo por mais de uma década —em especial para estudos sobre o olhar— e Mira Perlov, que também posava para o artista.
Em seus últimos anos, Segall deixou um pouco de lado sua obsessão pelas expressões humanas e se voltou para paisagens campestres. É o caso de “Floresta com Galhos Entrelaçados” e “Gado ao Luar”, em que vacas descansam, sem rosto, sob a luz da Lua —este astro que, como descreveu o pintor em uma carta para Vinicius de Moraes, continua sempre o mesmo.
Autor: Folha








.gif)











