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Rafa, o menino que sentia saudade do Céu

“Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.”
(Jo 11, 25)

Há dez anos, um amigo perdeu seu filho único para o câncer. Ao abraçá-lo, no velório, eu só consegui dizer: “Meu velho, me dê um pouco da tua dor”. Lembrei-me dessa história nos últimos dias por causa do Rafa.

O sofrimento de um pai ou de uma mãe que perdeu seu filho é um dos temas que assombram este cronista de sete leitores. Essa dor inconcebível está no centro da fé cristã com a imagem da Pietà: a mulher que tem o filho morto em seus próprios braços. Um padre certa vez me disse que São José morreu antes de seu filho nutrício porque era bondoso e gentil demais para suportar a visão de Jesus torturado e crucificado. Somente a Virgem Maria teria essa força.

No meu retiro de Carnaval, voltei a meditar sobre esse mistério dos filhos que morrem antes de seus pais ao ler O Evangelho Vivo de Rafa — Uma Jornada de Fé e Santidade, de Ricardo Benvenhu.

O livro, que acaba de ser publicado pela Editora E.D.A., dos meus queridos amigos Cláudia e Edson Piovezan, conta a história de Rafael, filho de Ricardo e Alessandra, irmão mais velho de Léo. Em 2024, aos dez anos, Rafa foi diagnosticado com um glioma infiltrado de grau IV, tipo de câncer agressivo e incurável. Seu prognóstico de vida era de seis meses; ele viveu mais um ano e meio. Maravilhoso, porém, é o que aconteceu nesse período.

Muito mais do que a descrição de uma luta contra a doença, O Evangelho Vivo de Rafa é o relato emocionante de um milagre da fé.

Assim que recebeu o diagnóstico do glioma, o pequeno Rafa se transfigurou em um mensageiro de Deus

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Com uma serenidade e uma lucidez impressionantes, o menino inspirou uma onda de conversões que começou por sua família, espalhou-se rapidamente entre os amigos e, por fim, arrebatou um sem-número de corações nos mais diversos lugares. Impossível ler a história de Rafa e não pensar em outros meninos de Deus, tais como São Domingos Sávio, São Carlo Acutis e os meus queridos Karol e Luan.

Ao narrar os passos de seu filho amado, o autor Ricardo Benvenhu apresenta-nos os personagens vivos que os acompanharam na jornada de dor e redenção: o padre Jefferson Bassetto, o padre Marcelo Cruz, o padre Marcelo Rossi, o frei Gilson, as missionárias católicas Adrielle Lopes e Adma Augusta, os dedicados médicos e profissionais de saúde que cuidaram do Rafa.

Todos eles se comoveram e se inspiraram com o exemplo do jovem guerreiro. Mas essa história tem os seus maiores protagonistas naqueles que, do Céu, enviaram força e apoio sobrenatural: São Pio de Pietrelcina, São Bento, a Virgem Maria e, acima de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo.

O livro todo é muito intenso, mas algumas passagens são particularmente arrebatadoras. Pouco antes de fazer a sua Páscoa pessoal, Rafa confessou-se com um velho sacerdote da Paróquia Santa Generosa, em São Paulo. Após ouvir a confissão do jovem fiel, o padre septuagenário chamou Ricardo e Alessandra para uma conversa a sós e disse: “Ele me ensinou muitas coisas em pouquíssimas palavras. As respostas que ele me deu são as que busquei durante toda a minha vida sacerdotal”.

Durante uma missa em Londrina, já bastante debilitado pela doença, com grandes dificuldades para ouvir e se expressar, Rafa mantinha os olhos fixos em um ponto da parede próximo ao ostensório. Ao fim da celebração, Rafa agitou-se em sua cadeira de rodas e disse com uma clareza surpreendente: “Estou vendo Jesus”. Repetiu a frase mais de dez vezes. Levado pelo pai até o lugar do ostensório, o menino estendeu a mão e tocou a parede que, para ele, tinha a imagem do Cristo.

Nos últimos dias, Rafa pedia para ficar sozinho em seu quarto. Por um longo tempo, lançava um olhar profundo e reflexivo para a imagem do Padre Pio na parede, dando a impressão de estar em uma conversa silenciosa com o santo.

Presente ao velório do Rafa, uma amiga me confidenciou: “Quando vi a expressão suave e serena daquele menino, nunca tive tanta certeza de que uma alma está no Céu”. Ao abraçar Ricardo Benvenhu, no lançamento do livro em Londrina, eu pensei nessa frase da minha amiga, cujo filho pequeno hoje enfrenta uma doença, e me lembrei da frase de Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, que perdeu toda a família no Holocausto: “Se a vida tem um sentido, também o sofrimento necessariamente o terá”.

Em um dos mais belos poemas da língua portuguesa, intitulado “Sôbolos rios que vão”, Camões fala sobre um tipo de sentimento que acomete as almas humanas em seus padecimentos terrenos. Trata-se de uma espécie de nostalgia do eterno, que o grande poeta assim define:

Não é logo a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas do Céu,
Daquela santa Cidade,
Donde est’alma descendeu.

Os versos de Camões, escritos em seu exílio em Goa, iluminam o mistério da partida de Rafa. Ele sentia saudade do Céu e, por isso, partiu tão cedo. Mas, ao retornar para Deus, deixou a porta aberta para que todos nós possamos seguir o mesmo caminho. Eis a boa notícia — o Evangelho vivo — desse menino de Deus: a nossa verdadeira casa é o Céu.

Certamente não é por acaso que o nome Rafael significa a cura de Deus.

Autor: Gazeta do Povo

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