É raro ter algo para elogiar da gestão Trump, mas a nomeação de Jared Isaacman para chefiar a Nasa –ainda que tardia e cheia de reviravoltas– parece ter sido uma rara boa escolha, a julgar por sua mais recente atitude com relação a um dos episódios mais dramáticos da história recente da Nasa. Na última quinta-feira (19), o novo administrador apresentou um relatório e enviou uma carta aberta à agência comunicando a decisão de reclassificar a missão tripulada de teste da cápsula Starliner como uma falha do “tipo A”– grave, que envolve perdas de mais de US$ 2 milhões, destruição ou perda de controle do veículo ou perda de vida.
Não houve meias-palavras. E Isaacman decerto se viu mais à vontade para dar a real pelo fato de a crise ter sido fortemente politizada por Trump, que acusou seu antecessor, Joe Biden, de ter abandonado os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams no espaço, sem meios de voltar para casa. Como de costume, isso era mentira. Mas não muda o fato, semicamuflado pela Nasa por meses, de que houve muitos problemas durante a missão de teste.
Os dois astronautas subiram ao espaço em junho de 2024, no primeiro voo tripulado da Starliner, desenvolvida pela empresa Boeing para fornecer serviços de transporte de astronautas. Depois de uma dramática crise durante a acoplagem à Estação Espacial Internacional (em que, depois se soube, o comandante Wilmore contemplou a possibilidade real de perder o controle da nave tanto para concluir a manobra como para retornar à Terra), a agência passou meses analisando as falhas.
Ao contrário do que disse Trump, a dupla jamais esteve presa ou abandonada e, uma vez que ficou determinado que não seria seguro trazê-los de volta na Starliner, os dois foram realocados para a cápsula Crew Dragon, da concorrente SpaceX, então acoplada à estação.
A Starliner voltou vazia, e inteira (embora novamente apresentando falhas de propulsores), em setembro de 2024, e a dupla de astronautas voltou em 18 de março do ano seguinte (seguindo um plano estabelecido pela própria Nasa no ano anterior, antes de Trump assumir).
“Estamos assumindo nossas próprias limitações”, escreveu Isaacman, ao apresentar o resultado final da análise e ao se comunicar, ao mesmo tempo, com a agência e com o público. “A Starliner tem deficiências de design e engenharias que precisam ser corrigidas, mas as falhas mais perturbadoras reveladas por essa investigação não são de hardware. São o processo decisório e a liderança que, se não revisados, poderiam criar uma cultura incompatível com voo espacial humano.”
Em suma, o relatório mostra que as chefias da Nasa hesitaram o tanto quanto puderam em reconhecer os problemas da Starliner, não só no voo tripulado, mas nos testes anteriores sem tripulação, todos problemáticos, e não foram fundo o suficiente na investigação das causas e na busca por soluções. Isaacman promete “responsabilização de liderança”, um jeito não muito sutil de dizer que cabeças rolarão. É o tipo de declaração que traz consigo um certo choque de cultura que a agência de fato precisa, após décadas de complacência. As escolhas da Starliner são similares às que foram tomadas com os ônibus espaciais, com os resultados já conhecidos.
Agora, uma coisa é falar, outra é fazer. Vamos ver o que será da Starliner, que deve realizar um novo teste sem tripulação. Em coletiva realizada após o anúncio, Isaacman não se comprometeu com um cronograma e diz que o voo só acontecerá “se pudermos implementar muitas das recomendações do relatório”. A Boeing sonha com um novo voo tripulado em 2027.
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Autor: Folha



















