
É uma fila de pessoas. Muita gente, um atrás do outro, esbarrando-se e às vezes empurrando-se, vão caminhando para a frente, num longo caminho, numa longa via. Estão todos inebriados de uma alegria airada, muitos vestidos com roupas coloridas ou fantasias, o corpo coberto de brilhos. Ressoa no ar uma música alta e festiva, batidas de percussão condicionam o ritmo do corpo. É carnaval.
É uma fila de pessoas. Muita gente, um atrás do outro, num passo lento e com a cabeça baixa, vão caminhando para a frente, num longo caminho, numa longa via. Estão todos circunspectos, vigilantes, mas alegres interiormente de uma doce esperança. Se os antigos se vestiam de sacos, os penitentes de hoje revestem-se apenas de um propósito, enquanto ouvem ressoar no ar as palavras “Lembra-te de que és pó, e em pó te hás de tornar”, até que chegue sua vez de ter a testa marcada por um punhado de cinzas. É Quaresma.
São as mesmas pessoas aquelas que, dias antes, festejavam nas ruas ou nos salões, e que então adentram o templo para o início da caminhada quaresmal? Atualmente, a intersecção entre esses grupos é certamente menor do que antigamente. Isso só revela que, assim como foram-se perdendo, evanescendo no ambiente cultural, o sentido verdadeiro das festas cristãs do Natal e da Páscoa – reduzidas, como todos sabem, a um “espírito” genérico de bondade e paz, a um Papai Noel mágico e à compra de presentes no comércio, ou, no segundo caso, ao consumo de muito chocolate, trazido, quem sabe, por um grande coelho mágico –, do mesmo modo perdeu-se também o sentido dessa data de carnaval.
Ouvi outro dia um comentário fortuito, que me fez refletir a respeito. O genro dizia à sogra que, infelizmente para os filhos e para os programas divertidos que poderiam ter programado, trabalharia normalmente, afinal, pelo calendário oficial os dias de carnaval não são dias de feriado. E a mulher, desapontada, atribuiu o ocorrido – a “não celebração” do carnaval – ao fato de a empresa onde o genro trabalha ter donos de religião católica. Que sintomática confusão! Ela compreende que o carnaval é uma festa inimiga da religião, inimiga da Quaresma que vem em seguida, que é algo oposto e contrário ao calendário da Igreja.
Assim como foram-se perdendo, evanescendo no ambiente cultural, o sentido verdadeiro das festas cristãs do Natal e da Páscoa, do mesmo modo perdeu-se também o sentido da data de carnaval
Infelizmente, ela não está de todo errada. O fato de a intersecção entre os grupos que pula carnaval com vigor e que ingressa na Quarta-Feira das Cinzas com semelhante interesse ser pequeno e decrescente tem muito que ver justamente com o fato de o carnaval estar sendo, já de muito tempo, transformado numa festa anticristã. No início da semana passada, muita gente ficou ofendida e chocada com a representação da “família conservadora” na escola de samba de Niterói. Notem que a ideia é fraca, a piada é boboca, e a execução do figurino, pobre (não sei dizer que nota tiraram, mas, se foi boa, deve-se apenas a apoio ideológico). Mas quem tem boa memória há de lembrar-se de que, perto do que já viu em anos anteriores, essa bobagem pueril quase não chega a ser uma ofensa. Já vimos demônios gigantes tentando curar, na avenida, o recalque milenar que ainda sentem por terem perdido a parada para o Salvador. Não é impróprio dizer que vivemos já numa civilização “pós-cristã” ou “neopagã”, como chamava Bento XVI.
E esses grupos e partidos fazem mesmo o que podem para ligar, historicamente, o carnaval a ritos báquicos e outras celebrações pagãs. Bem, não deveria ser novidade para ninguém que, antes do cristianismo, a humanidade vivia em situações culturais e rituais de imensa degradação, que incluíam desde o sacrifício aos ídolos até o canibalismo e a pedofilia. Isso só não deveria ser orgulho para ninguém. Mas este não é o carnaval.
Na época em que não existia geladeira – nem máquina de lavar, nem ferro elétrico, nem micro-ondas, nem automóvel, nem computador, nem internet, nem inteligência artificial… –, a carne nas casas era armazenada no sal ou na gordura animal, e assim era preservada, para que o abate de um mesmo animal pudesse ser consumido ao longo do tempo.
O nome da festa, carnaval, tem raiz no latim clássico: carnem levare ou carnis levale, que, em tradução literal, quer dizer “abstenção da carne”. No latim medieval se dizia carnelevarium, carnilevaria ou carnilevamen. A palavra foi criada com a junção dos termos carnis, “carne”, e o verbo levare, que quer dizer “tirar”, “levar” ou “afastar”. Outros estudiosos sustentam a hipótese de que a palavra tenha se formado, na verdade, a partir de vale, que significa “adeus” ou “tchau”: Bye, bye, churrasco. Por um caminho ou por outro, fica rapidamente patente que o carnaval é a festa em que se retirava toda a carne da conserva, em que se consumia toda ela – o que é, sem dúvida, uma delícia, uma festança, uma pequena alegria mundana –, e em que se dizia “adeus” à sua presença, ao seu consumo, visto que se entra, logo em seguida, no período do Grande Jejum, o da Quaresma. Isso é assim no Ocidente e no Oriente, com a única diferença que, no Oriente, o carnem levare não é festa na terça-feira, e sim na sexta, visto que lá a Quaresma tem início no próprio domingo, com a segunda-feira de cinzas. Por isso a verdade é que, em sua origem, o carnaval é uma festa da Igreja.
Mas, como dizem tantas canções, o carnaval acaba, assim como a nossa vida neste mundo acaba, e há de acabar, e tornaremos ao pó de onde viemos. Nós, ao pó? Não, apenas este nosso corpo mortal – por ora –, e todas, todas, todas as nossas vaidades. É por isso que fazemos, todo ano, uma salutar caminhada quaresmal.
É por isso que um dos três pilares da Quaresma é o jejum: ele marca, de maneira inequívoca e inescapável, o contraste entre o pó e a vida, entre o que morrerá e o que permanecerá vivo; ele realça o que não é pó, e que por isso sobreviverá ao pó. Quando dizemos “não” à solicitação mais básica e necessária do corpo, o alimento, sublinhamos, com a ação da vontade, que não somos o nosso corpo, que somos mais do que ele; que é ele quem serve à nossa vida, a qual não virará pó com ele. Ao lado do jejum estão, como os outros dois tripés, a esmola e a oração, que confluem no mesmo sentido. Quando tomamos do bolso o que é nosso – que seria para nosso sustento, ou para nossa segurança, ou para o nosso conforto – e damos àquele que pede ou que precisa mais, esta ação material e concreta faz com que morra, de antemão, um pouquinho de nós, um pouquinho do que somos neste mundo. Esse gesto faz contrastar o homem do pó.
Essa marca de quarenta dias se repete muitas e muitas vezes na Bíblia, tantas que é fácil compreender o seu sentido, sempre relacionado ao arrependimento e à expiação, ao retiro e à provação, a uma renovação que passa pelo pó, como o de uma fênix. Tempo de purificação das paixões, conversão – para dentro, em primeiro lugar, e então para o caminho ascendente. Quarenta dias ficaram Noé e a família na arca, quando as águas lavavam o mundo; quarenta dias ficou Moisés no alto da montanha, até que recebesse as tábulas com a lei; os israelitas tiveram de suportar a audácia de Golias a desafiá-los por quarenta dias, até que Davi o pusesse por terra; Elias, o grande profeta, foi sustentado quarenta dias no deserto pelo alimento que recebera do anjo; e os habitantes da cidade de Nínive, quando ouviram a pregação do projeta Jonas (o que ficou três dias na barriga do peixe), revestiram-se de sacos e cinza e jejuaram por quarenta dias. Era o tempo de purificação da mãe que havia dado à luz, depois do qual o menino Jesus, como todos os meninos judeus, foi apresentado no Templo. E foi também, muito especialmente, o tempo pelo qual o mesmo Cristo jejuou no deserto, para vencer as tentações do Demônio e só então dar início à sua pregação do Reino de Deus.
E por isso nós o repetimos ritualmente todos os anos, cumprindo esse período de jejum do alimento corporal, em benefício do alimento espiritual; em que se dá atenção ao próximo e especialmente ao pobre, dando do que é nosso como esmola; e sobretudo é o período em que se foca na oração, que é a elevação de nossa alma, de nossos pensamentos e afetos, a Deus.
Nossa vida interior deve ser como um tronco repleto de uma seiva robusta, da qual nossas obras não sejam mais que as flores
Na verdade, é este pilar da oração o que sustenta as outras duas obras de piedade, ou, dito inversamente, as outras duas obras de piedade, o jejum do alimento e a esmola, servem para contribuir, para fortalecer a união com Deus que almejamos na oração. Sobre este ponto, a saber, sobre a prevalência da chamada “vida contemplativa” sobre a “vida ativa”, ou ainda, sobre a transformação das nossas obras num transbordamento ou numa expressão da vida interior, muitos e muitos sábios, santos e doutoras já falaram. Mas valeria a pena vermos juntos umas pinceladas sobre o tema, para que essa reflexão nos orientasse e guiasse na caminhada quaresmal a que somos convidados pela Igreja.
Guardadas todas as proporções, o modo como o próprio Deus opera deve ser o critério, a regra da nossa vida interior e exterior. E já sabemos que Deus é abundantemente generoso, espalhando com profusão seus benefícios sobre todos os seres, e ainda mais especialmente sobre o ser humano – sem, contudo, perder ou diminuir nada de Si mesmo ou de seu esplendor. Nossa vida interior deve ser assim: como um tronco repleto de uma seiva robusta, da qual nossas obras não sejam mais que as flores. As nossas ações, mesmo as mais nobres, nossos gestos de piedade, nossas obras de caridade, devem proceder da vida contemplativa, do interior, do crescimento do amor dentro de nosso coração; a vida ativa deve traduzir a vida interior, continuá-la do lado de fora, por assim dizer, separando-se dela o menos possível.
São Bernardo dizia sempre um mesmo conselho àqueles que pretendiam ser apóstolos: “Si sapis, concham te exhibebis, non canalem”, o que quer dizer, “Se forem sábios, sejam como reservatórios, e não como canais”. O canal transporta a coisa de um lado para o outro, até é capaz de fazer muito bem. Mas nada nele permanece, nada daquilo que ele veicula enriquece o próprio canal. Já o reservatório, não. O reservatório deve primeiro encher-se inteiramente, para que, quando transbordar, a superabundância do seu bem se expanda e alastre para os outros que estiverem próximos, sem que ele perca nada da sua riqueza, pois continua sempre cheio até o topo. Como a mãe só pode amamentar seu filho na medida em que também se alimenta primeiro, assim todas as nossas obras de bondade têm de ser um transbordamento da bondade que primeiro encheu nosso interior.
Como fazer isso, então? Como viver desse modo, sempre, mas especialmente no período forte da Quaresma, em que somos chamados à conversão? Um dos mestres mais famosos sobre esse assunto é o abade trapista dom Jean-Baptiste Chautard. Numa passagem de seu famoso livro, ele diz que, para empreendermos qualquer obra boa com verdadeiro proveito e sucesso, é preciso tomarmos uma série de precauções comumente negligenciadas. E aqui vou reproduzi-las em forma de lista, para que nos possam ajudar e guiar.
Nada empreender além de suas forças.
Ver em tudo, habitualmente, mas simplesmente, a vontade de Deus.
Comprometer-se apenas com as obras que Deus deseja, e na medida exata em que lhe agrada ver-nos dedicados a elas, e pelo único desejo de exercer a caridade.
Desde o início, oferecer-lhe nosso trabalho e, ao longo de nossos labores, reanimar constantemente, com pensamentos e orações breves, nossa resolução de agir somente para Ele e por Ele.
Não obstante toda a atenção que devemos dar a nossos trabalhos, conservar-nos sempre na paz, perfeitamente senhores de nós mesmos.
Para o sucesso, entregarmo-nos unicamente a Deus, e só aspirar a sermos libertos de toda preocupação que não nos unirmos a ele, numa profunda e amorosa oração.
Assim se chega, promete ele, apoiado em mestres espirituais ainda mais antigos, ao sucesso na união da vida ativa e da contemplativa, quer dizer, à vida interior que dá origem às boas obras (e às boas obras de piedade, como a esmola e o jejum quaresmais), que aprofunda e vivifica a oração que nos une a Deus. Assim poderá um dia ser dito de nós o que foi dito certa vez sobre aquele mesmo São Bernardo:
“Ele mudava de lugar, mas não mudava de coração, nem seu coração de amor, nem seu amor de objeto… Ao contrário do camaleão, que recebe as cores dos lugares onde se encontra, ele não recebia as cores dos assuntos e das conversas, mas permanecia sempre unido a Deus, sempre branco em pureza, sempre vermelho de caridade e sempre cheio de humildade.”
Boa caminhada na direção da Páscoa!
Autor: Gazeta do Povo








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