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Boom do cinema nacional corre risco por hiato em políticas – 18/01/2026 – Ilustrada

Ainda Estou Aqui“, “O Agente Secreto”, “Manas”, “O Último Azul”, “Baby”. Fora elogios da crítica, do público e de prêmios nos festivais de Cannes, Berlim, Veneza e em Hollywood, como o Globo de Ouro e o Oscar, esses filmes têm outra coisa em comum —todos foram aprovados para receber recursos de um programa de desenvolvimento de roteiros da Ancine, a Agência Nacional do Cinema.

O problema é que essa linha do Prodav, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro, foi interrompida pela agência, em 2020, após o lançamento de seu último edital em 2017. Ao todo, foram seis chamadas desde 2013, e 608 contratos, num valor total de R$ 163,5 milhões, provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA. Os dados foram compilados por uma pesquisa da Associação Brasileira de Autores Roteiristas, a Abra.

Há quem diga que a boa safra deste biênio representa uma era do ouro, coroando o processo de retomada do cinema nacional, iniciada nos anos 1990, com o marco de “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil“.

Alguns produtores, porém, alertam para a possibilidade de um apagão no cinema nacional nos próximos anos, e a interrupção do Prodav ajuda a explicar o receio. Este e outros mecanismos foram interrompidos durante o governo Jair Bolsonaro (PL) e, segundo pessoas do meio, a gestão atual demorou para entender o estrago feito.

Além da frente de roteiro —essencial para o início de um projeto—, foram interrompidas, em 2019, as linhas de financiamento para a distribuição, fase que define a chegada do filme ao público, e para a ida de profissionais a festivais e rodadas de negócios pelo mundo.

Desde o final de 2024, porém, a Ancine tem recalculado a rota, buscando retomar parte desses fomentos, exceto o ligado à ida de profissionais a eventos internacionais. No caso dos roteiros, uma linha foi aprovada pelo comitê gestor do FSA, para este ano, no valor de R$ 25 milhões.

Esse hiato, porém, pode dificultar que as próximas safras de filmes nacionais estejam à altura de “O Agente Secreto”, o exemplo mais recente de sucesso internacional. “O cinema é feito de ciclos no mundo inteiro, inclusive no cinema americano. O nosso problema aqui no Brasil é que os nossos ciclos são interrompidos”, diz Leonardo Edde, presidente da Riofilme. “Seja pela ausência da política pública, ou por um governo que é contra a cultura e aí trava tudo, ou a falta de cota de tela, falta de regulação.”

O fato é que o tempo de maturação de um longa-metragem de peso costuma ser demorado. O longa de Kleber Mendonça Filho estrelado por Wagner Moura, por exemplo, foi aprovado no fomento de roteiro em 2014, mas só estreou no ano passado.

As filmagens aconteceram ao longo de dez semanas em 2024, e parte do dinheiro para a etapa da produção —cerca de R$ 7,5 milhões dos R$ 27 milhões estimados do orçamento— veio do FSA, após aprovação de um edital no ano anterior.

Mas as interrupções no Prodav aconteceram num período de turbulências, atingindo a Ancine e a cultura brasileira. Tiveram início na gestão de Bolsonaro, quando o governo federal e parte da sociedade se mostravam hostis ao setor. Em 2019, o ex-presidente apresentou um projeto de lei ao Poder Legislativo prevendo um corte de quase 43% do orçamento do FSA.

Pesou ainda o período de uma pandemia sem precedentes em termos de medidas efetivas de distanciamento social, o que afetou diretamente os sets de filmagem, os festivais, as rodadas de negócio e as salas de cinema.

Recentemente, também, a Ancine ficou marcada por uma crise na agência envolvendo prestações de contas em aberto. O Tribunal de Contas da União ficou na cola da cola agência, que chegou a ter um passivo de 5.358 projetos que ficaram anos em aberto —hoje o número é de 971 projetos.

Em 2021, por exemplo, a Agência estava empacada com a análise de projetos de filmes que haviam sido lançados 15 anos antes, como “Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida”, de 2004, e “Didi, o Caçador de Tesouros”, de 2006.

Procurada, a Ancine afirma que investimentos em projetos de roteiro seguiram acontecendo, mesmo não tendo sido lançada uma chamada pública exclusiva para desenvolvimento desde 2017. Mas o Comitê Gestor do FSA só autorizou a destinação de recursos para projetos do tipo a partir do fim do ano retrasado.

Desde então, foram 43 projetos contratados, com R$ 20,3 milhões em investimentos. Outros 20 projetos estão em processo de contratação, para outros R$ 18 milhões em investimentos.

Em paralelo, a Ancine afirma que 2025 foi um dos anos de maior volume operacional da história do FSA e da agência, com um total aproximado de R$ 2 bilhões em investimentos do fundo no setor, registrando também um aumento nos pedidos de coproduções internacionais e no patrocínio de mostras e festivais.

Vale lembrar que agência é uma autarquia comandada por uma diretoria colegiada, na qual os mandatos não coincidem com os dos presidentes do Brasil. Dos quatro da diretoria atual, dois estão lá desde o governo Bolsonaro —o diretor-presidente Alex Braga e Vinícius Clay. Os outros, Paulo Alcoforado e Patrícia Barcelos, foram nomeados já no governo Lula.

Hoje, produtores criticam o governo e a atual gestão pela demora no retorno dos fomentos e pela demora na regulamentação do streaming, que ajudaria a alimentar o FSA.

“As coisas até andaram”, diz o pesquisador Pedro Butcher. “Mas não andaram o suficiente para garantir que daqui a cinco anos vai ter uma safra boa. Talvez nem no ano que vem. Não sei se teremos algo que tenha a mesma capacidade de gerar interesse de uma forma geral.”

Retomando outros sucessos recentes, “Manas” foi aprovado no Prodav de 2013 e só foi estrear em Veneza 11 anos depois —agora, o filme disputa o Goya de melhor filme ibero-americano. Já “O Último Azul”, como “O Agente Secreto”, foi aprovado no fomento de 2014 e estreou no ano passado.

“Cinco Tipos de Medo”, que ganhou o Kikito no Festival de Gramado de 2025, obteve o fomento do edital dez anos antes. Já “Oeste Outra Vez”, vencedor do festival gaúcho em 2024, e que estava entre os pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar deste ano, foi aprovado no Prodav de 2013.

“Ainda Estou Aqui”, após de ter sido aprovado no programa para roteiros de 2016, recalculou a rota e devolveu o dinheiro. O projeto seguiu um caminho de financiamento com parceiros privados e investidores internacionais, o que inviabilizou sua classificação como obra brasileira independente, como regulamentava o edital, diz Walter Salles, diretor e um dos donos da produtora VideoFilmes, em nota.

O projeto nasceu no núcleo criativo do Prodav e foi desenvolvido até o terceiro tratamento de roteiro nessa chamada pública. Em julho de 2022, o longa devolveu os recursos. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Autores Roteiristas, a Abra, mostrou que o tempo médio de realização dos longa-metragens que participaram do programa é de cinco anos e oito meses.

A presidente da associação, Thaís Olivier, conta que percebia, tanto dos gestores públicos quanto de outros produtores audiovisuais, uma crença de que os editais de desenvolvimento de roteiro não tinham funcionado, “que foi um desperdício”. “De 2018 até 2023 a gente teve um apagão completo [do fomento a roteiro], mas mesmo agora, esses editais de apoio vão levar um tempo até gerar algum resultado”, diz.

Entretanto, após os recentes sucessos de bilheteria, um estudo da PwC prevê que o cinema nacional pode arrecadar cerca de R$ 3,6 bilhões em 2029, aumento de 34% em relação a 2024. Ainda assim, há quem alerte para o risco de o país estar perdendo uma janela de oportunidade única para o cinema. “Se tem um momento para ocupar espaço é agora. Está todo mundo louco para ver cinema brasileiro”, diz Josephine Bourgeois, do Projeto Paradiso.

A iniciativa de caráter privado surgiu em meio a esse cenário e tem apoiado novos talentos do audiovisual, se concentrando sobretudo em financiar a ida de profissionais do país a festivais, eventos de negócios, workshops e laboratórios no exterior, se preocupando menos com o que acontece nos sets de filmagem e mais nas pontas da produção —isto é, no roteiro, na distribuição e na internacionalização.

“Não faz sentido o governo não investir nisso. Estamos esperando essa política voltar. Isso é uma tecla que a gente tem que bater fortemente”, diz Bourgeois.

Este momento de grande visibilidade internacional é, afinal, reflexo de anos de políticas públicas, não apenas do acaso ou de um esforço individual de um ou outro realizador.

“Claro que há todo o trabalho do Kleber Mendonça Filho como diretor, da Emilie Lesclaux como produtora, mas tem esse contexto”, afirma o pesquisador Pedro Tinen. “São construções de carreira realizadas por políticas públicas do setor, em diferentes momentos.”

“Em 2025, tivemos ‘Ainda Estou Aqui’, ‘O Auto da Compadecida 2’ [lançados no final de 2024, terminaram o ano como as maiores bilheterias nos cinemas] e ‘O Agente Secreto’. Em 2026, não sei o que a gente vai ter. E o público também não. E quando você tem um ‘gap’ de filmes brasileiros na sala, o público volta a ver o filme americano e perde o hábito. Depois, para ele recuperar, a curva é muito mais longa”, diz Edde, da Riofilme. “A gente precisa ter recorrência.”

A Ancine, apesar de protagonista, não é a única fonte de fomento para o audiovisual nacional. Ao longo desses últimos anos de apagão no Prodav, surgiram mecanismos como a Política Nacional Aldir Blanc, a Lei Paulo Gustavo, além de iniciativas da iniciativa privada como o Projeto Paradiso.

Bourgeois também destaca a importância da atuação de agências municipais, como a Spcine e a Riofilme. Ou seja, houve, sim, uma interrupção de políticas, mas houve oportunidades laterais para que o produtor pudesse se apoiar, ainda que não da mesma magnitude que os fomentos da Ancine. Por isso, se não um apagão, pode haver um tropeço nas próximas safras.

Cabe lembrar lembrar que o processo de financiamento de obras audiovisuais é complexo. “O Agente Secreto”, por exemplo, não foi beneficiado somente pelo Prodav-desenvolvimento. O filme também contou com com investimento de R$ 7,5 milhões do FSA para a etapa da produção e R$ 750 mil para a etapa de distribuição. A distribuição no Brasil teve patrocínio da Petrobras.

“Esse hiato fragiliza o crescimento ainda maior do nosso cinema, além de prejudicar a diversidade de gêneros e linguagens do nosso audiovisual”, diz Felipe Lopes, da Andai, a Associação Nacional das Distribuidoras Audiovisuais Independentes. “Pensar a cadeia como um todo, até a exibição e sem esquecer a preservação e a formação, é fundamental.”

“É grave interromper um desenvolvimento de política pública, porque isso pode deixar marcas”, diz Eduardo Valente, crítico e programador de cinema. “Mais que uma interrupção total, vivemos atualmente o risco do desperdício de um potencial enorme.”

“O futuro pode não ser tão brilhante se não houver planejamento inteligente e consistente na formulação e gestão das políticas, do desenvolvimento de projetos à sua chegada ao mercado.”

Autor: Folha

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