Nunca foi tão rápido migrar uma dívida no Brasil — e nunca foi tão caro carregá-la. A nova fase do Open Finance, que começou na primeira semana de fevereiro, permitirá a portabilidade do crédito pessoal em cinco dias.
A mudança, entretanto, aterrissa em um cenário hostil: juros para pessoas físicas acima de 60% ao ano, os mais altos desde 2017 segundo levantamento realizado pelo Banco Central (BC). A tecnologia resolve a burocracia, mas não apaga o custo proibitivo do dinheiro, que tem como um dos seus motivadores o descontrole fiscal do governo.
O Open Finance representa uma evolução do sistema bancário tradicional para um modelo de dados abertos. Na prática, ele devolve ao cliente a propriedade sobre seu histórico financeiro. Antes, essas informações ficavam trancadas nos cofres digitais de cada banco.
Agora, com o consentimento do usuário, esses dados circulam livremente entre instituições, permitindo que concorrentes ofereçam produtos melhores para quem tem bom perfil pagador.
Um cliente endividado que paga juros altos no crédito pessoal, por exemplo, em poucos cliques poderá autorizar o compartilhamento dos seus dados no Open Finance e receber ofertas de outros bancos para assumir a dívida, com a transferência concluída em menos de uma semana, em vez de quase um mês como acontecia até então.
Neste cenário, a portabilidade de operações de crédito sem garantia surge como uma válvula de escape para o devedor, permitindo migrar dívidas para onde o custo for menor, com menos burocracia.
O diretor de regulação do Banco Central, Gilneu Vivan, disse em dezembro que a simplificação no compartilhamento de dados irá “remover barreiras artificiais e promover a competitividade real”.
“Leilão” entre bancos pode beneficiar o cliente
A Associação Open Finance Brasil lançou o produto com 27 instituições pioneiras com um objetivo claro: reduzir a ineficiência gerada por prazos. Atualmente, o consumidor enfrenta uma espera de 20 a 25 dias para concluir uma portabilidade no sistema convencional. O novo modelo comprime esse prazo para apenas cinco dias úteis. A digitalização total elimina erros manuais que antes inviabilizavam a migração.
“É uma construção feita com o mercado, levando em conta o princípio da experiência do cliente. Toda essa construção foi pensada para o cliente estar no controle, de ponta a ponta da jornada”, diz o diretor de tecnologia e operações da entidade, Élcio Calefi.
A competição é o motor dessa engrenagem. No ambiente do Open Finance, a troca de informações deve ser concluída em até três dias úteis. Além disso, a regra prevê um período de três dias para que a instituição credora original apresente uma contraproposta. Cria-se um leilão reverso em benefício do cliente.
Próxima etapa do Open Finance incluirá empréstimos consignados
O mercado respondeu com confiança. Os consentimentos registrados já somam 130 milhões, e o tráfego de dados saltou de três bilhões para quase dez bilhões de chamadas semanais. Para os bancos, a eficiência operacional vira trunfo: a redução de custos com observância e a mitigação de erros permitem melhores margens financeiras mesmo em um ambiente de juros altos.
A expansão do Open Finance tende a seguir um ritmo gradual de crescimento. O crédito pessoal sem garantia é apenas o laboratório inicial das mudanças. O cronograma prevê a inclusão de empréstimos consignados federais (INSS) para novembro deste ano e o consignado privado para 2027.
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Autor: Gazeta do Povo








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