O mês de dezembro é dedicado a promover a conscientização quanto ao risco representado pela epidemia de Aids, doença que afeta globalmente mais de 40 milhões de pessoas. No Brasil e no mundo, é possível constatar que muitos indivíduos infectados com o HIV têm conseguido preservar sua saúde e alcançar idades mais maduras, e é necessário que o tratamento acompanhe essas mudanças.
Os medicamentos antirretrovirais, introduzidos a partir de 1996 pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, asseguraram a longevidade da primeira geração de pessoas vivendo com HIV. O resultado é que os indivíduos que estão envelhecendo se veem diante de novos desafios para o cuidado com a saúde.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp, em parceria com o Center for Global Health, da Georgetown University, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas com 50 anos ou mais com HIV têm alcançado melhores resultados clínicos e qualidade de vida quando tratadas com regimes simplificados de terapia antirretroviral (TARV). Os resultados da pesquisa serão publicados na revista científica Brazilian Journal of Medical and Biological Research.
A pesquisa analisou 1.018 pacientes atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2020 e 2023. O grupo com idade mais avançada, de 50 anos ou mais, representou 56,6% da amostra total, enquanto os mais jovens (18 a 49 anos), 43,4%. De acordo com os resultados do estudo, praticamente 90% do grupo 50+ apresentaram carga viral indetectável, frente a 83,3% dos mais jovens, e uma taxa de falha virológica (quando o vírus volta a se multiplicar no sangue) quatro vezes menor (2,5% vs. 10,1%).
Os 50+ também mostraram melhor recuperação imunológica, medida pela contagem de linfócitos T CD4, células essenciais para a defesa do organismo e alvos diretos do HIV. Apenas 7% dos pacientes acima de 50 anos tinham menos de 350 células/mm³, contra 13,3% dos mais jovens, indicando resposta imunológica mais robusta e menor vulnerabilidade a infecções. “A variável que mais se associou a esses resultados foi, justamente, o regime simplificado de medicação”, comentaram os autores.
Os dados utilizados pelo estudo foram obtidos no Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia Domingos Alves Meira (SAEI-DAM), da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), um centro de referência que acompanha há mais de duas décadas pessoas vivendo com HIV.
De acordo com o infectologista Alexandre Naime Barbosa, coordenador da pesquisa, é o primeiro serviço do país onde a maioria dos pacientes tem mais de 50 anos. “O vírus HIV, antes associado a pessoas jovens, tornou-se uma condição crônica que exige um olhar geriátrico. O envelhecimento da epidemia já altera o perfil dos atendimentos: as pessoas fazem acompanhamento há muitos anos, mantêm adesão ao tratamento e convivem com outras doenças associadas à idade, como hipertensão, diabetes e aterosclerose, que surgem mais cedo devido a um estado de inflamação crônica provocado pela infecção, mesmo controlada”, diz Naime, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu.
A pesquisa adotou o marco de 50 anos para definir os “adultos mais velhos vivendo com HIV”. Isso porque, mesmo sob tratamento eficaz, o HIV mantém o corpo em um estado contínuo de inflamação e ativação imunológica, levando a um desgaste precoce do sistema imune e favorecendo o surgimento antecipado de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. O uso prolongado de antirretrovirais e o risco de interações entre medicamentos também contribuem para esse envelhecimento celular acelerado.
Combinações potentes de medicamentos
Os pesquisadores estudaram os efeitos de duas combinações de regimes de TARV simplificados: lamivudina + dolutegravir (3TC+DTG) e lamivudina + darunavir/ritonavir (3TC+DRV/r), utilizadas com maior frequência pelos pacientes mais velhos.
A análise dos resultados revelou que o uso desses esquemas e o tempo prolongado de tratamento —acima de 11 anos— estiveram fortemente associados à supressão viral sustentada, quando o vírus permanece indetectável de forma contínua. A lamivudina (3TC) atua bloqueando a enzima transcriptase reversa, responsável por converter o RNA do vírus causador da Aids em DNA dentro da célula humana — etapa fundamental para que o invasor se replique. Ao ocupar o lugar de uma base do DNA, a lamivudina interrompe a cópia do material genético viral e impede a formação de novas partículas do vírus. O dolutegravir (DTG) age em outro ponto do ciclo: ele inibe a enzima integrase, que o vírus utiliza para “colar” o seu DNA ao código genético da célula hospedeira. Sem essa integração, o vírus HIV não consegue se multiplicar nem produzir novas cópias de si mesmo.
Além de potente, o dolutegravir tem alta barreira genética, o que significa que o vírus encontra mais dificuldade para desenvolver resistência. Já o darunavir (DRV) é um inibidor de protease, enzima necessária para montar as proteínas que formam as novas partículas virais. Ele impede a maturação do HIV, tornando-o incapaz de infectar outras células. O darunavir é administrado junto com o ritonavir (r), que não age diretamente contra o vírus, mas potencializa o efeito do darunavir ao retardar sua metabolização no fígado e prolongar sua ação no sangue.
A mudança mais marcante em relação ao tratamento tradicional está na retirada do tenofovir (TDF), um dos pilares históricos da terapia antirretroviral (TARV) no Brasil desde o final dos anos 1990. O tenofovir, assim como a lamivudina, bloqueia a enzima transcriptase reversa, impedindo o vírus de copiar seu RNA em DNA —um passo essencial para que o HIV se multiplique. O remédio continua essencial para pessoas recém-diagnosticadas, que precisam reduzir rapidamente a carga viral, e para casos em que há resistência a outros fármacos. Mas, com o uso prolongado, o tenofovir pode causar efeitos renais e ósseos, o que preocupa especialmente pacientes com mais de 50 anos.




